Essa história está diferente – Dez contos para canções de Chico Buarque

Essa semana a Companhia das Letras lança Essa história está diferente, com dez contos  inspirados em canções de Chico Buarque. O projeto, idealizado pela RT Features e patrocinado pela Caixa Econômica Federal, traz contos de Alan Pauls, André Sant’Anna, Cadão Volpato, Carola Saavedra, João Gilberto Noll, Luis Fernando Verissimo, Mario Bellatin, Mia Couto, Rodrigo Fresán e Xico Sá. A organização é do jornalista Ronaldo Bressane.

Os registros literários captados por esta antologia foram os mais díspares e inventivos: alguns contos se baseiam fielmente nos causos musicados por Chico, outros usam as canções como trilha sonora, cenário e atmosfera, outros emprestam delas a estrutura, e há os que utilizam as canções como mote.

Abaixo nós selecionamos trechos de três contos. Aguarde mais informações aqui no Blog da Companhia sobre os eventos de lançamento, que ocorrerão em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

“Feijoada completa”

Por Luis Fernando Verissimo, inspirado em Feijoada completa.

Carolina olha Pedro dormir. Está acordada há tempo. Tem dormido mal. Acorda várias vezes durante a noite. Está assim desde que tomou a decisão de deixar o Pedro. Não sabe como dizer que vai deixá-lo. Que não pode mais, que não aguenta, que chega.
— Pedro…
— Ahn.
Carolina não consegue ir adiante. Pedro está sorrindo. Dormindo e sorrindo. Até dormindo o filho da puta é simpático. Dizer o quê? “Pedro, acorda que eu quero te dizer uma coisa. Eu vou embora. Nosso casamento acabou, viu? Não deu certo. Ponto final. Agora pode voltar a dormir.”
Não. Melhor deixar para outro dia. Ou não dizer nada. Ir embora e pronto. Telefonar da casa da Milene, dizer pelo telefone. Isso. Sem precisar ver a cara dele, sem ele poder mexer com o cabelo dela e dizer “Carol, Carolzinha, o que é isso?” como sempre faz quando ela perde a paciência com ele. Com voz de injustiçado. Isso, melhor dizer pelo telefone. Sem remorso.
Não. Agora. Tem que ser agora.
— Pedro.
— Quê?
— Acorda.
Ele abre um olho.
— Que horas são?
— Não sei. Sete.
— Sete? Ó, Carol! Hoje é sábado!
É mesmo. Ela tinha esquecido. Sábado. Dia de acordar tarde. Dia do futebol dele. Dia de feijoada depois do futebol. Ela botara o feijão de molho na noite anterior, como fazia todas as sextas-feiras. Como podia ter esquecido? Era a falta de sono.
— Dorme, vai.

“Os fantasmas do massagista”

Por Mario Bellatin, inspirado em Construção.

Como algumas pessoas devem saber, de tempos em tempos viajo à cidade de São Paulo para submeter-me a determinado tratamento clínico. Entre os numerosos métodos terapêuticos a que costumo me submeter, no Brasil faço com que cuidem do desequilíbrio causado, especialmente em minhas costas, pela falta do antebraço direito. Para esse tipo de terapia vou a uma clínica especializada em pessoas que perderam ou estão prestes a perder algum membro. A instituição fica na Vila Madalena e conta com um andar exclusivo para esse tipo de paciente. Tem um tanque guarnecido de jatos subaquáticos que oferecem massagens potentes. É comum ver entrar ou sair desse tanque — às vezes com ajuda, às vezes sem — uma série de indivíduos com limitações físicas que parecem buscar nessas águas a paz que seus corpos dão a impressão de necessitar. Ocorre que muitas vezes a falta de um membro ou alguma deficiência física provoca uma espécie de tensão nos nervos daqueles que a padecem. Num outro canto desse andar ficam os consultórios equipados para as terapias individuais. São espaços pequenos com macas para massagem, separadas umas das outras apenas por algumas cortinas finas. Até seis pacientes podem ser atendidos simultaneamente nessa seção. E um único terapeuta é capaz de oferecer, ao mesmo tempo, seus serviços a todos os necessitados, indo de maca em maca em poucos minutos. O método empregado por esse especialista é um tanto peculiar, pois ele deixa para cada paciente, antes de passar ao próximo, alguns exercícios como tarefa, que o terapeuta sabe que o manterá entretido enquanto atende os outros cinco. Uma das particularidades desse tipo de consultório — curiosamente, não existe nada parecido na cidade onde vivo, motivo pelo qual aproveito para visitá-lo quando tenho de fazer uma viagem a São Paulo — é que através das cortinas é possível escutar parte do que se passa nas outras macas. Às vezes a sensação de ouvir é desconcertante, principalmente porque quase nunca dá para imaginar como é o físico da pessoa que está sendo atendida ao lado. De que tipo de corpo provêm os sons que esses mesmos corpos produzem. Além das queixas, dos lamentos, comentários e conversas dos outros pacientes, é comum ouvir o ruído de ossos estalando ou o som peculiar que se produz quando as carnes são massageadas pelas mãos dos especialistas.

“Um corte de cetim”

Por Xico Sá, inspirado em Folhetim.

Se o Paiva não me segura, essa história poderia ter sido bem mais trágica, embora eu só recorde, com alguma nitidez, do momento em que o palhaço adentrou o ambiente cantarolando uma marchinha ridícula:

Quem pintou o amor foi um ceguinho
mas não disse a cor que ele tem
Penso que só Deus dizer-nos vem
ensinando com carinho
a pura cor do querer bem…

[“Amar a uma só mulher”, Sinhô]

Braços dados com a inominável criatura, parecia caçoar das leis do cosmo.
Adentrou o botequim com aquele semirriso de galã da Sétimo Céu.
O perfeito canalha de fotonovela.
Quem via toda banca e moral era incapaz de saber os expedientes e o saldo negativo do sujeito. Pequenos golpes nas damas da noite, falsas rifas de instituições de caridade e obras completas, amigo, em se tratando de contos do vigário.
Fingia o rico de berço, mesmo sem um barão na carteira. Ao terceiro uísque era dono de meia Vieira Souto. Mais dois, incorporava a lagoa Rodrigo de Freitas, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor… Tudo lavrado em cartório.
Delirante no último, viajou mais do que o Jorginho Guinle, embora a milhagem realista — esta, sim, de fazer inveja a Mr. Gulliver, Júlio Verne e todos os navegadores épicos — tenha sido rodada apenas nos trens da Central do Brasil, um ser eminentemente ferroviário e suburbano.

10 Comentários

  1. Já cansei dessa história de manterem SP, RJ e BSB como bases de lançamento para tudo que é bom. Isso já era… Foi-se o tempo dos altos custos para determinados eventos. Contamos agora com vários tipos de incentivos, incluindo as passagens aéreas que ficam baratíssimas em datas indeterminadas (é só ficar de olho nas tarifas diariamente, online). Esta via deve ter mão dupla: o público vai e a cultura vem! Coloquem tudo em um avião e pousem nas outras regiões brasileiras! A cultura deve ser itinerante! É assim que fazem os países desenvolvidos além oceano.

  2. Patativa disse:

    Os contos não decolam, apesar das carinhas carimbadas dos autores. Me espanto com os tantos elogios ao livro. Chico é fera, mas o que fizeram com as músicas dele, nos contos, para mim, deixa muito a desejar.

    Alegria fail.

  3. Simone Húngaro disse:

    Poxa, estava com a antologia “Essa história está diferente” e corri pra ler o conto do Mia Couto. Logo na primeira página de “Olhos nus: olhos”, me deparei com a palavra “enebriante”. Enebriante? Na página seguinte, inebriantemente.
    Enebriante será grafia moçambicana? Eu não achei. De qualquer modo, o conto é o melhor do livro.
    Um bom abraço.

  4. Cacá Freire disse:

    Contar as canções de Chico é realmente uma ideia maravilhosa.
    Pena que só contou com a participação de gente já famosa no mundo das letras!
    Quem sabe fica para o próximo?
    Chico, você não tem fim!

  5. Cláudio disse:

    Genial!!!
    Principalmente a união de gerações de escritores
    Brasileiros.
    Quem sabe haverá próximos, Noel, Cartola…

  6. […] Essa história está diferente – Dez contos para canções de Chico BuarqueAlan Pauls e Rodrigo Fresán falam de 2666Editor de calças curtasÉ o amorJohn e Susan […]

  7. Rodrigo Kenji disse:

    “feijoada completa” kkk meio indigesta, mais otimo conto.

  8. Roger disse:

    Po… O Xico Sá deveria escrever sobre Geni e o Zeppelin.

  9. Feríssimo, vale a pena conferir, mandou muito bem. :D

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