Salão de Beleza

Por Erico Assis

Rafael Coutinho trabalhando em Cachalote no Salão de Beleza.

Tem um vira-lata embaixo da mesa de desenho. Se não me engano, vi outro andando pela casa. Esse, embaixo da prancheta, está placidamente deitado sobre almofadas velhas. Parece que o canto dele é ali mesmo, ao lado de skates.

Ele observa, com olhar triste de vira-lata, o dono da mesa de desenho, no momento checando os e-mails em outra mesa. Na parede atrás do computador, juntam-se algumas dezenas de pinturas em acrílico. Na parede ao lado, mais ainda – a maioria delas com mais de 1 metro de largura. No chão, ainda mais telas, fileiras delas encostadas na parede.

Rafael Coutinho, nessa tarde, já havia desenhado sua quota diária e tinha outras coisas na cabeça. Sua exposição individual na galeria Choque Cultural havia aberto na semana anterior, com grandes quadros figurativos cujo destaque é o crop ousado.

No seu estúdio, também há uma coleção desorganizada de livros e quadrinhos ao lado da mesa de desenho, e originais de seu pai, pequenos, em uma parede. No caso, o pai é Laerte, quadrinista também e respeitado por quem entende. Os quadrinhos com originais de outros artistas seguem pelas paredes e levam para fora da sala. Lá tem mais Laerte, um Angeli, Fábio Moon, Gabriel Bá e outros.

Agora é o outro habitante da casa, Rafael Grampá, que está me mostrando um dos quadros: uma página de jornal amarelada e desgastada do Little Nemo (1905-1914) de Winsor McCay. Na seu próprio estúdio, colado ao de Coutinho, a estante tem ainda mais influências: Jeff Smith, Frank Miller, Geoff Darrow, Paul Pope, Jamie Hewlett.

Na mesa de desenho de Grampá, uma cena de ação que envolve um aquário despedaçado. Grampá deu detalhes e expressões próprias a cada peixinho. Estatuetas de Rufo e Sangrecco, os personagens de Mesmo Delivery, seu primeiro trabalho, ficam sobre a escrivaninha. Ao lado deles, um troféu do Eisner Awards e dois HQ Mix. Aqui só um há quadro na parede: um pôster de Lourenço Mutarelli.

Há mais um habitante na casa: Fabio Cobiaco.* Seu estúdio é o que deve ter sido uma sala de jantar. Não há divisórias, e você obrigatoriamente passa por ele quando vai à cozinha ou ao banheiro. Em compensação, acaba sendo o maior estúdio da casa. Cobiaco é mais na sua; naquela tarde, é o único que está compenetrado na prancheta.

Não há nada demais na casa da Pompeia, bairro paulistano, se você não souber que Rafael Coutinho está desenhando Cachalote, a graphic novel escrita por Daniel Galera, a HQ nacional mais comentada antes do lançamento; que Rafael Grampá prepara Furry Water and the Sons of the Insurrection, co-escrita por Daniel Pellizzari, tão aguardada quanto sequência de blockbuster, tanto no Brasil quanto nos EUA; e que Fabio Cobiaco está igualmente ocupado com V.I.S.H.N.U., roteiro de Eric Archer e Ronaldo Bressane, outro lançamento para este ano.

Se esse pontinho na Pompeia não é um planeta importante na constelação dos quadrinhos contemporâneos, nada mais é.

* Após a visita do colunista, Fabio Cobiaco mudou-se do estúdio.

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Erico Assis Lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.