A sociedade da neve

Este mês a Companhia lançou A sociedade da neve, de Pablo Vierci (tradução de Bernardo Ajzenberg), sobre os sobreviventes do acidente de avião de 1972 que ficaram isolados nos Andes por mais de dois meses, sem comida ou roupas apropriadas para o frio de até trinta graus negativos. Abaixo você lê dois textos escritos especialmente para o blog por Antonio Vizintín, um dos sobreviventes, e Pablo Vierci, autor do livro e amigo de infância dos sobreviventes.

Os sobreviventes refugiando-se na fuselagem do avião, na noite do resgate. (Fotograma do documentário Vengo de un avión que cayó en las montañas, de Gonzalo Arijón. © Ethan Productions – La Realidad.)

Morrer aos 19 anos não era uma opção

Por Antonio Vizintín, sobrevivente dos Andes

Morrer aos 19 anos, quando estava começando a viver, não era uma opção. Tampouco se podia imaginar o que o destino havia preparado para nós: sofrer de uma forma que ninguém conseguiria imaginar e sentir, dia após dia, noite após noite, durante 73 dias, os 30 ou 40 graus negativos da cordilheira dos Andes, a 4 mil metros de altitude.

Sente-se o abandono, a solidão e o silêncio mais absoluto, o desamparo estampado naquele branco sem fim. Meus companheiros mortos e o pensamento que sempre me perseguiu… posso ser o próximo.

Nessas condições, foram-se produzindo transformações aceleradas. De jovens adolescentes, passamos rapidamente a tomar decisões de vida ou morte, a ser construtores do nosso destino.  Tudo estava em nossas mãos, e fomo-nos transformando de grupo em equipe, e de equipe em sociedade. Demo-nos conta de que ou nos salvávamos todos ou nenhum se salvaria. Com um único objetivo comum, com todos trabalhando para atingi-lo: só assim era possível tentar sair do lugar.

Todos os que estiveram na Cordilheira dos Andes deram tudo o que tinham para dar, e isso durante 72 dias, sem nenhuma garantia de êxito, mas convencidos de que, se era para a morte nos alcançar, que fosse em meio à luta para nos salvarmos.

Alguns ficaram mais conhecidos e outros trabalharam em silêncio, com perfil baixo, enquanto outros ainda simplesmente fabricaram água, mas, ao final, quem saiu ganhando foi a equipe, e os dezesseis se salvaram.

Essa é uma história de tentativa e erro, de tentar muitas vezes e de fracassar outras tantas. Mas, desses fracassos, sempre retiramos algo proveitoso e o aplicamos na tentativa seguinte. O êxito é sempre rico em fracassos e nunca vem com facilidade ou na primeira tentativa.

Houve um convencimento de que o grupo devia se sacrificar para que o grupo de expedicionários, do qual fiz parte, estivesse em melhores condições para encontrar uma saída. E assim foi feito: abriram mão de pouco, ou de quase nada, mas era o que havia, e assim obtivemos êxito.

Não posso terminar sem algumas palavras para os meus companheiros mortos, pois foi graças ao sacrifício deles que hoje estou aqui. Seu sacrifício e sua entrega não foram em vão; eles deram um exemplo que devemos seguir Ad Astra, como diz o lema do nosso colégio, o Stella Maris-Christian Brothers.

A Sociedade da Neve é sentir, sofrer, fracassar, chorar, suplicar, cair, rezar, rir, abraçar, perdoar, ajudar, lutar, compartilhar; e, ao final do longo caminho, não importa se tivemos êxito, o importante é termos tentado.

É o ser humano lutando contra a adversidade. Mas não é esta, na verdade, a luta que travamos todos os dias?

* * * * *

Chegada do helicóptero de resgate depois de 72 dias na montanha. (Arquivo de imagens do jornal El Pais)

Esta história é um jogo de espelhos em que o leitor olha para si mesmo e cresce

Por Pablo Vierci, autor de A sociedade da neve

Como colega e amigo de infância e de juventude dos sobreviventes dos Andes, sempre quis escrever este livro. Em 1973, ajudei meu colega de classe e amigo Nando Parrado, que queria contar a história (livro que acabou não sendo feito), e depois escrevi inúmeros artigos jornalísticos sobre o assunto.

O livro A sociedade da neve permite observar e analisar a sociedade que se formou na montanha de um ponto de vista externo das janelinhas do avião Fairchild 571, tanto durante o vôo quanto na fuselagem, depois do acidente de 1972, no centro da cordilheira dos Andes, no vale das Lágrimas.

Como o livro conta não só o que “aconteceu” mas fundamentalmente o que “aconteceu com a gente” do ponto de vista dos sobreviventes, narrado em primeira pessoa, percebe-se que o que ocorreu em outubro, novembro e dezembro de 1972 foi que esse grupo de jovens, no local mais inóspito do planeta, teve de reinventar o mundo. Isso não aparece no outro livro de que todos também participaram, Os sobreviventes, pois este é narrado por uma terceira pessoa, e poucos dias depois do ocorrido naquele evento traumático. Por isso foi que Piers Paul Read, o autor daquele livro, afirma no prefácio que, possivelmente, relatar o que realmente aconteceu na montanha talvez estivesse acima da capacidade de qualquer escritor.

Para entender realmente essa “reinvenção do mundo”, foi necessária a participação, na redação de A sociedade da neve, dos 16 sobreviventes (protagonistas e únicas testemunhas do acontecido), e foi preciso, também, que se passasse um tempo razoável (36 anos), para que a “história imediata” (como ocorreu no livro Os sobreviventes, escrito poucos meses após o acidente) não contaminasse o relato, a fim de poder decantar, separar o que fosse relevante e imperecível daquilo que fosse apenas o mais “surpreendente” e escandaloso, como a necrofagia, fato que, como defendem hoje os antropólogos, é algo relativamente comum em qualquer situação limite, desde guerras até momentos de grandes fomes, como aconteceu em inúmeras ocasiões na China em meados do século 20.

Os sobreviventes (29 no início, e 16 ao final) tiveram de reinventar o mundo porque o mundo tal como o conhecemos tinha se enganado. Enganara-se ao dá-los por mortos, logo depois do acidente, e voltou a se enganar quando, passados dez dias, suspendeu as buscas; e se equivocou, profundamente, quando, a partir do resgate, achou que o evento traumático que eles tinham vivido lhes impediria uma reinserção normal e funcional na sociedade. Todos os sobreviventes são, hoje, pessoas normais, com famílias bem constituídas; a maioria teve uma vida profissional bem-sucedida, e todos fazem parte da Fundação Viven, por meio da qual procuram devolver à sociedade aquilo que ela lhes deu como empréstimo, como dizem eles, ou seja: pretendem devolver a ela a possibilidade que eles tiveram de se redimir e encontrar uma nova oportunidade.

Ao reinventar o mundo, os sobreviventes deixaram de ser regidos pelos padrões da sociedade convencional e tiveram de criar uma sociedade regida por novos e diferentes parâmetros. A sociedade da neve criada na alta montanha, a 4 mil metros de altitude e a trinta graus abaixo de zero, demonstra que, em uma situação limite, quando o homem se vê abandonado, perdido, esquecido, encurralado, no pior lugar que se pode imaginar, o que se expõe não é a selvageria humana, como supõem tantas histórias de ficção apocalípticas, não é a caverna tenebrosa, com os saqueadores que aparecem quando a Terra é abalada por furacões e terremotos. O que surge é aquilo que há de melhor no ser humano, uma sociedade pautada pela misericórdia. O que se impõe não é o “salve-se quem puder”, mas o contrário: quem goza de mais privilégios na fuselagem é o ferido; forja-se uma sociedade em que a vida e a morte não são estados antagônicos, mas sim que convivem entre si, o que permite ao indivíduo que se posicione perante o destino de uma nova maneira, sem enfrentá-lo e sim aceitando-o para melhorá-lo. Surge uma sociedade em que o possível e o impossível são termos relativos, pois aprende-se que a fronteira entre os dois é uma profecia que tende a se auto-realizar, porque sempre se pode esticar o elástico um pouco mais do que imaginávamos, e nunca se sabe, na verdade, até onde podemos chegar. Trata-se de uma sociedade na qual se aprende que a adversidade é um elemento inerente à salvação e que é sempre preciso lutar sem saber o resultado. Essas características que regeram a Sociedade da Neve em 1972 ainda vigoram. Não é uma sociedade que se congelou em 1972, mas sim que continuou a se recriar, e que hoje se manifesta por intermédio da Fundação Viven, promovendo a doação de órgãos através de uma campanha internacional, da mesma maneira que, quando tinham em torno de vinte anos de idade, fizeram o “pacto de entrega mútua”: “se eu morrer, você poderá usar o meu corpo, e vice-versa”. Assim, a Sociedade da Neve se expressa hoje na forma como os sobreviventes atendem aos mais diversos pedidos de ajuda, seja em suas palestras, seja no correio eletrônico, recebendo mensagens em sua página na internet: não as respondem como se fossem gurus, líderes religiosos, psicólogos ou especialistas, mas apenas contando como eles conseguiram vencer os obstáculos. E estabelecem com cada pedido de auxílio uma conexão tão especial que não abandonam o contato até que o interlocutor consiga, ele próprio, superar os seus obstáculos.

É claro que a onda expansiva que essa história conheceu, e que se renovou com a publicação do livro A sociedade da neve e seus mais de 85 mil exemplares já vendidos em língua espanhola, se deve ao fato de ser uma história que evoca temas profundos, que sensibilizam a todos os seres humanos, como a vida, a morte, e a possibilidade que todos nós temos de nos redimirmos e termos uma segunda chance.

A onda expansiva da história, e deste livro em particular, não só não diminui com o tempo, mas, ao contrário, se reforça. Isso pode ser explicado pelo fato de que o livro, e a história, permitem que o leitor faça um jogo de espelhos, em que se identifica com um ou outro dos sobreviventes, com a atitude de um ou outro, com um gesto, com uma perspectiva, e, desse modo, o próprio leitor reconstrói o seu mundo, que acaba sempre sendo melhor do que o anterior.

A sociedade da neve convida o leitor, e a todos os que se aproximam dessa história, a embarcar no Fairchild 571, em um vôo cego, sem destino pré-determinado, em que uma escala passará pelo inferno, sim, mas que levará a todos a uma cordilheira diferente, sempre melhor do que a que conheciam antes.

* * * * *

Leia também as matérias das revistas IstoÉ e Outlook (páginas 14 e 15) sobre o livro