Chris Ware dançando

Por Erico Assis

Chris Ware em sua casa (Foto por Tom VanEndye)

No livro Nouveaux moments clés de l’histoire de la bande dessinée, François Ayroles elege como um dos “novos momentos-chave da história dos quadrinhos” o dia em que Chris Ware, aí pelos 8 anos, enviou uma carta para Charlie Brown. Ele lera a tirinha dos Peanuts em que Charlie não sabe se vai receber cartões de Valentine’s Day. O pequeno Chris, lágrimas nos olhos, escreveu um cartão e endereçou-o ao dono do Snoopy.

Quinze anos depois, Ware já estava publicando quadrinhos no jornal da universidade. Mais uma década e ele lançaria Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo, clássico instantâneo das HQs e tratado visual sobre o fracasso e a tristeza.

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Num cross-over entre Jimmy Corrigan e Quimby the Mouse — Ware tem vários personagens recorrentes, que mudam de personalidade e circunstâncias de acordo com a necessidade —, Jimmy é procurado por um amigo em desespero: “o meu avô! Ele… ele envelheceu! Temo que algum dia possa até morrer! Ele tocava tuba para mim, agora não consegue mais!”.

O garoto mais esperto do mundo busca a solução nas “bibliotecas mais remotas do mundo”, empenha navios, aviões, trens, carros e horas sem sono para desenvolver a solução. O último ingrediente necessário: a cabeça do jovial camundongo Quimby. Jimmy liga para Quimby, o ratinho diz “sempre achei que algo assim fosse acontecer” e envia sua cabeça pelo correio. O experimento dá certo e Jimmy cura a velhice.

O avô revigorado vai tocar tuba no rádio. Jimmy lembra que Quimby adora ouvir concertos de tuba. Mas, de repente, Jimmy se entristece ao lembrar que Quimby não tem mais orelhas para ouvir música. A história termina com Quimby, sem cabeça, imóvel em sua poltrona, diante do rádio desligado.

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Do momento em que publicou Jimmy Corrigan até hoje, Ware, apesar de toda aparente falta de destreza nas relações humanas, tornou-se uma espécie de embaixador dessa nova fase de respeito literário dos quadrinhos, levando o país fechado das HQs ao planeta da alta cultura. Ganhou um prêmio de literatura do jornal inglês Guardian, foi o primeiro quadrinista a ter exposição solo no Whitney Musem of Art e editou o número 13, todo dedicado aos quadrinhos, da McSweeney’s, a revista dos novos nomes da literatura norte-americana.

Sua relação com o mundo highbrow é inédita para as HQs; parece mais a de um novo e celebrado literato. Ele já publicou seus contos (dá para chamar de “conto” se é HQ?) na Virginia Quarterly Review, no New York Times, na Granta, na New Yorker, na coletânea sobre estudos de personagens (organizada por Zadie Smith) The book of other people e em vários outros espaços. Em 2006, ganhou 50 mil dólares da fundação United States Artists, que financia artistas de áreas diversas. Seu estilo também já foi à TV, para animar sequências do programa This American Life. Há pelo menos quatro livros dedicados exclusivamente a analisar sua obra, publicados em inglês, espanhol e francês. The comics of Chris Ware: drawing as a way of thinking, deste ano, é uma reunião de artigos científicos sobre suas HQs.

Suas principais ocupações, porém, são a série Acme Novelty Library — que este ano chega à vigésima das edições publicadas sem frequência nem formato definidos desde 1993 — e projetar os volumes de arquivo da tira Krazy Kat (1913-1944). Seu “próximo Jimmy Corrigan” pode ser Rusty Brown, a história de um menino geek que vira adulto geek, e que vem sendo serializada na Acme Novelty.

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Ware: “Gente feliz tem arte de sobra. Toda a nossa cultura é organizada em torno de gente feliz. Os infelizes também precisam de alguma coisa.”

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Num documentário produzido para a TV francesa, Ware admite que prefere viver com as coisas do passado, “quando não parecia que tudo estava indo ladeira abaixo”. Diz isso enquanto monta a vitrola para tocar um de seus crepitantes discos de ragtime, o estilo musical de grande sucesso nos EUA da década de 1910. Ele já editou uma revista para os aficionados em ragtime e fazia capas de discos para músicos que ainda seguem o estilo, como Andrew Bird.

Nesse momento, a câmera capta-o, de pé, ouvindo a música. As mãos atrás do tronco, sua grande cabeça dá um leve indício de que vai se mexer. A câmera desce até seus pés — um dos quais bate sutilmente, ritmado, no chão. Chris Ware está dançando.

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Chris Ware enviando carta para Charlie Brown em Nouveau moment clés de l’histoire de la bande dessinée. O documentário na TV francesa: baixe completo ou assista em partes no Youtube (1, 2, 3). Ware na Virginia Quarterly Review, no Guardian, na New Yorker.  Seu perfil na American United Artists. Três animações para o programa This American Life: um clipe de Andrew Bird, uma história, outra história. Livros sobre o artista: Chris Ware, de Daniel Raeburn (Yale University Press, 2004), Chris Ware: la secuencia circular, de Ana Merino (Sinsentido, 2005); Chris Ware: la bande dessinée réinventée, de Benoît Peeters e Jacques Samson (Impressions nouvelles, 2010); The Comics of Chris Ware: drawing as way of thinking, organizado por David M. Ball e Martha B. Kuhlman (University Press of Mississipi, 2010). A variação de formato nas edições de Acme Novelty Library. E a frase citada de Ware vem de uma entrevista dele na revista Wizard.

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P.S.: Jimmy Corrigan não foi o primeiro livro com Chris Ware publicado pela Companhia das Letras. Procure em Little Lit: fábulas e contos de fadas em quadrinhos, de 2003, uma história-jogo de Ware no final.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.