Socos no ar

Arte final da capa de Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, feita por Hélio de Almeida.

Carmen Ballcels era a mais temida agente literária em atividade. Creio que a conheci nos últimos anos em que trabalhei na Brasiliense. Ela tinha um escritório no Rio de Janeiro e na época investia pesado em autores brasileiros. Vinha pouco para cá, mas estava informada sobre a minha carreira de editor e sobre meus planos com a Companhia das Letras. Acolheu-me muito bem. Em suas breves aparições na feira de Frankfurt e no Rio, eu a cortejava sempre que podia. Quando ela vinha a São Paulo, eu a convidava para almoçar nos melhores restaurantes ― sabia que ela valorizava esses gestos e que, como eu, adorava comer bem. Sentia-me lisonjeado pelo tratamento que Carmen me dispensava, até porque, naquela altura, eu não podia oferecer em troca nada além de uma promessa. Por isso vibrei quando recebi um telefonema dela, me convidando para um jantar em homenagem a Isabel Allende, em uma sala privada do Copacabana Palace.

A Companhia das Letras tinha sido recém criada, ainda não tinha publicado nenhum livro, mas os direitos de Rumo à Estação Finlândia haviam sido comprados através do escritório de Carmen no Rio. O livro do crítico literário Edmund Wilson inauguraria a minha editora e seria um sucesso no Brasil, mas, a essas alturas, nem Carmen, nem o editor original de Wilson, Roger Strauss, ou eu mesmo poderíamos imaginar que isso viria a acontecer. Além do mais, La Ballcels estava mais interessada em seus próprios autores do que nas editoras que seu escritório brasileiro representava.

Viajei para o Rio especialmente para o jantar em homenagem à escritora chilena, bastante excitado. E, ao chegar, notei que a minha animação se justificava. O jantar era para poucos, e a recepção que tive por parte da anfitriã foi a melhor possível. Apenas três editores brasileiros foram convidados: Alfredo Machado, o mais renomado dos editores brasileiros no cenário internacional daquela época, Pedro Paulo de Senna Madureira e eu. Carmen sentou-me do seu lado direito. No esquerdo, Alfredo Machado. Pedro Paulo foi para a mesa de Isabel Allende. Entre os autores presentes estava um dos meus escritores prediletos, o que mais almejava, em meus delírios de grandeza, para a minha jovem editora. Com um empurrãozinho providencial dos deuses, o papelzinho com o nome de Rubem Fonseca estava na minha mesa, a duas cadeiras de onde estava o meu. Carmen logo me apresentou a todos com palavras simpáticas a meu respeito. Tudo conspirava a meu favor.

Depois de um certo tempo, respirei fundo e comecei a conversar com meu quase vizinho. Devo ter falado alguma daquelas platitudes que dizemos a nossos ídolos, ou às moças que queremos namorar. Falei com tanta timidez que logo mudei de assunto, achando que a noitada se encerraria por ali. Foi quando Carmen pediu que eu contasse sobre meus planos editoriais para todos os presentes. Contei sobre Edmund Wilson, Marshall Berman, mas estrategicamente passei a falar dos autores de literatura, cujos direitos eu acabara de conquistar, começando pelo contista americano que mais me tocava o coração: John Cheever. Não poderia escolher melhor começo.  Ganhei com isso a atenção de Rubem Fonseca pelo resto da noite. “O quê? Você vai finalmente traduzir os contos do Cheever? Que maravilha, se eu tivesse tempo, os traduziria pessoalmente.” Rubem perguntou-me depois sobre os outros livros contratados, e vibrou com a notícia de que Ruído Branco, de Don DeLillo, estava entre eles ― até aquele momento ele acreditava que ninguém, além dele próprio, conhecia DeLillo no Brasil.

Na saída do jantar, Carmen acompanhou todos ao saguão do Copa, e perguntou-me o que eu tinha achado da noite. Agradecido pela atenção, tomei coragem e disse: “Carmen, nesta noite conheci pessoalmente o autor dos sonhos da Companhia das Letras”. Ela declinou os nomes de outros presentes na festa, enquanto eu negava discretamente com a cabeça, ou simplesmente ficava em silêncio. Vencida a lista de Carmen, eu respondi: “não, Carmen, meu sonho atende pelo nome de Rubem Fonseca”. “Nem pensar, Luiz, ele é muito grande para você, vou renegociar todos os contratos dele e passá-lo para a editora Globo”, foi o que ouvi antes de sair de cena. Algo me dizia, no entanto, que a noite havia sido importante, e que agora eu podia ter uma ponta de esperança. Andei até o Hotel Ouro Verde onde estava hospedado, sorrindo quase sem saber por quê.

Alguns dias depois, Sérgio Augusto, também presente na festa, confirmava meus bons sentimentos, em uma crônica da Folha de S. Paulo, em que dizia que a conversa na noite da homenagem a Isabel Allende girara em torno dos planos futuros de uma jovem editora, a Companhia das Letras. Além disso, apesar da ducha de água fria de Carmen, ela afinal confirmara o rumor de que Rubem iria mudar de editora. Ao me despedir dele perguntei se poderia enviar-lhe os primeiros livros da Companhia, logo que fossem publicados. Fã das poesias de Auden, da prosa de Bernard Malamud, além de Edmund Wilson, Rubem acedeu com a alegria que lhe é peculiar.

Livros publicados, livros enviados. Não tive que esperar muito para que Rubem me escrevesse uma carta comentando detalhes editorias, com observações sobre o papel escolhido, a mancha e a tipologia. Uma carta curta, porém elogiosa, que abria um bocadinho mais a porta, para um contato futuro. Outro grande fã de Rubem acabou dando um empurrão involuntário para que eu avançasse mais o sinal. José Onofre, editor do Caderno 2, telefonou-me certo dia com a notícia que eu mais temia: “meu caro, você dançou, o Rubem vai continuar publicando na Francisco Alves, acabei de saber que ele está com livro novo”. Enchi-me de coragem e escrevi uma carta, coisa que na época ainda existia, dizendo: “a Carmen não acha que estou à altura de sua obra, mas só posso dizer que  ninguém gosta mais de seus livros do que eu. Talvez isso me qualifique para um dia ser seu editor”.

A resposta veio melhor do que eu esperava, Rubem me informava que ao terminar o novo livro conversaria comigo. E assim aconteceu: pouco tempo depois, ele me convidaria para um encontro em sua casa. Quando cheguei, sua esposa Théa recebeu-me à porta gentilmente dizendo: “sente-se, o Rubem foi imprimir o livro na casa de um amigo, a impressora pifou, ele volta logo”. No pequeno escritório onde aguardei, cercado de óperas e livros por todos os cantos, passei a meia hora mais longa da minha vida. Rubem chegou sorridente pedindo desculpas, e logo passou-me os originais de Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, deixando claro logo de cara: “vou controlar minha obra no Brasil diretamente, este livro é seu, espero que você  goste”. Perguntei quanto ele queria de adiantamento, e sobre as condições do contrato. Rubem respondeu deixando tudo a meu critério. Na saída, acrescentou, “vou recuperar os direitos de todos os meus livros e aos poucos republicaremos minha obra completa, na Companhia. Se você quiser, é claro”. Agradeci, balbuciando algo incompreensível, e assegurei que leria o livro naquela noite mesmo, no mesmo Hotel Ouro Verde de sempre. Antes fui de táxi do Leblon a Copacabana com a janela aberta, gritando e socando o ar de alegria. Além da felicidade com o original que carregava no colo, eu talvez intuísse que uma das amizades mais marcantes da minha vida começava naquele momento.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.