Como devorar um livro

Por Júlia Moritz Schwarcz


Dizem que filhos são bons para pensar; no meu caso, servem, ainda por cima, na hora em que tenho que escrever algum texto sobre literatura infantil para o blog da Companhia. Já estava me sentindo uma jornalista em crise de abstinência de pauta quando, milagre!, chego em casa e encontro a Alice — um ano de idade, minha mais nova — mastigando um livro. Nada que tenha me preocupado: na verdade ela adora comer papel higiênico, sabão nem se fala. Sem fazer alarde, peguei ela no colo e tasquei-lhe um beijo, feliz com a ideia que tive.

Pois um assunto com o qual tenho encasquetado no meu dia a dia como editora é o dos livros-brinquedo, questão inflacionada com a chegada dos e-books. Só este ano, já respondi a umas cinco entrevistas sobre os tais livros-brinquedo — aqueles que vêm com dobraduras que saltam das páginas, puxadores mágicos e botões sonoros —, o que não só me obrigou a formar uma opinião a respeito deles como me fez perceber o seu crescimento no mercado de livros infantis.

Se você tem filhos, sobrinhos, netos, etc. e costuma levá-los à livraria, sabe do que estou falando. Geralmente paramentados com capa dura, enfeites mil e em formato grande, esses volumes são vistosos e bonitos, levando jeito para enfeitar as alas infantis das livrarias, sempre lotadas deles. E claro que têm o seu mérito: talvez a interatividade que oferecem atraia mais diretamente as crianças.

De fato, o livro é um grande brinquedo na mão de um “leitor mirim”. Desde o primeiro ano de vida, as crianças se interessam e se entretêm com ilustrações coloridas, de bichos, pessoas, objetos ou formas, mesmo que a narrativa seja simples e praticamente guiada pelos desenhos. Os livros são por si só um objeto lúdico, seja por conterem os pop-ups e sons acionados por botões, seja por nos levarem para um mundo não-cotidiano, de histórias cheias de surpresas e imprevistos, que divertem, causam medo, emocionam.

Não sou contra essa relação lúdica e prazerosa que pode se estabelecer entre o pequeno leitor e seu livro, tenha ele a forma que for. Minhas filhas adoram os livros-brinquedo, leem, brincam e aprendem muito com eles. Mas uma coisa não me sai da cabeça: aquele velho truque de misturar a verdura no feijão, para que a criança coma sem perceber. Acho que, com a melhor das intenções, alguns pais podem muitas vezes se interessar prioritariamente por livros assim, com cara de brinquedo, e fazer com que as crianças acabem batendo na trave no momento em que estariam mantendo um primeiro contato com a literatura. O que preocupa é o lugar que esses livros estão tomando: o da literatura, dos livros de histórias, que vêm acompanhadas apenas de belas ilustrações e que não só priorizam a narrativa e apresentam a linguagem literária às crianças como, de certa maneira, estimulam mais livremente a imaginação.

Com os livros eletrônicos, então, que tendem a multiplicar as possibilidades de leitura mas podem muito bem transformar livros em joguinhos, fico um pouco encasquetada também. Não quero parecer ranzinza e arcaica — seria uma besteira completa pensar mal da interatividade oferecida pelo iPad, por exemplo — mas nada como o bom e velho papel, com cheiro, mancha e um gosto, para alguns, delicioso.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

13 Comentários

  1. […] chegou em casa e viu sua filha mais nova literalmente mastigando um livro. Texto delicioso de ler. Corre pra lá! Blog this! Bookmark on Delicious Digg this post Recommend on Facebook Share on Linkedin Share […]

  2. […] Professores são fundamentais na vida de um livro. Os infantis, salvo algumas exceções, vendem pouco nas livrarias e por isso dependem bem das adoções. Os livros com mais truques e recursos gráficos ou eletrônicos têm um comportamento diferente, assunto sobre o qual tratei em outro texto. […]

  3. Olá, Júlia. As pesquisas mostram (e você deve ter acesso a essa informação) que um leitor se faz na meninice quando: 1) tem acesso ao objeto livro; 2) há adultos por perto para que um triângulo amoroso “criança-livro-adulto” e 3) quando a criança reconhece que o livro tem um valor especial no universo dos adultos. Penso que um livro brinquedo justifique-se no item 1, e represente o momento em que os pequenos exploram sensorialmente o objeto. Crianças cegas, por exemplo, esquecidas das editoras que nada pensam e muito menos publicam em braile não apresentam pelo objeto livro uma relação de afeto, nem sabem “pegar” o objeto. Já viu a cena? Ficam desconfortáveis com o livro, parecem abraçadas a cactus. Simplesmente porque não puderem vivenciar este momento livro brinquedo (apalpe-me, cheire-me, rasgue-me, morda-me, babe-me). Adultos leitores sabem que o conteúdo é sim mais importante que a “embalagem”, e que devemos estar atentos ao que vamos oferecer ás nossas crianças ao longo do percurso em que elas se farão leitoras. Mas não podemos entender o livro brinquedo apenas como um brinquedo e ainda ver aí um limitador. O livro brinquedo é um objeto mágico libertador da imaginação e que poderá consolidar o livro na criança como uma “promessa” de boas descobertas. Eu tenho um sobrinho de dois anos que “comeu” muitos livros brinquedos e não-brinquedos também. Esperei pacientemente, e hoje, ele se senta com o objeto “fivo” e escuta a titia ler para ele o que está ali e que ainda é incompreensível. Sua preocupação com o truque da “verdura no feijão” é legítima. Também me incomoda o fato que o conhecimento, que por si só deveria ser interessante, precise estar associado a tantas estratégias de entretenimento. Mas tenho estudado este assunto e para mim a emoção é um mediador do conhecimento. Por isso, acho que você ao “temer” a sedução do livro brinquedo e eletrônico deixou-se levar pela dicotomia emoção-razão, tradicionalíssima! Ler para mim é bom como uma brincadeira, e se para as crianças falamos de ludicidade, para os adultos poderíamos falar de eros, do ponto de vista mitológico, do resgate da vida plena e abundante! Boa discussão.

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