Mãos dadas

Por Luiz Schwarcz

Chico Buarque não se apresentava em São Paulo havia muito tempo. A plateia do Palace ia à loucura ao ouvir as músicas do disco Francisco, além dos clássicos do compositor. No primeiro bis, meu amigo Mário de Andrade vira-se para mim e diz: “Luizinho (ele me chamava pelo mesmo apelido que eu detestava em criança, mas que, vindo dele, até soava bem), você tem que editar as letras do nosso poeta maior, ele é o Manuel Bandeira dos dias de hoje”.

Mário foi um amigo que ganhei inesperadamente. Logo após a primeira matéria sobre o meu trabalho como editor na Brasiliense, publicada curiosamente por um jornal carioca, o então influente Jornal do Brasil, recebi um telefonema do Mário, editor da revista Playboy, me convidando para almoçar no Oscar’s, um dos restaurantes badalados do início dos anos 80. Não havia razão alguma para o almoço, além da vontade do Mário de conhecer quem estava por trás dos volumosos óculos vermelhos que eu usava na época. Foi o começo de uma grande amizade, interrompida tragicamente por sua morte. Pretendo escrever mais sobre coisas que vivemos juntos, desde aquele encontro; como o choque com o anúncio do Plano Collor e também seu prenúncio: o debate político que deu a vitória ao fajuto “caçador de marajás”. Assistimos esse evento histórico juntos, com as nossas mulheres, e locução ao vivo e exclusiva de Paulo Francis, sentado entre os dois casais na minha casa…

“O nosso poeta maior”, “o Manuel Bandeira dos dias de hoje”, essas frases continuaram ecoando em minha cabeça por dias, até que, não sei por que cargas d’água, comentei com Rubem Fonseca, com quem falava ao telefone com frequência. A reação foi superlativa, típica do Rubem, mas também surpreendente: “Luiz, eu sou amigo do Chico, meu filho Zé Henrique está namorando a filha dele, Silvinha, vou falar com ele já”.

De repente… em poucos dias eu estaria na ponte áerea, no táxi para o Leblon, do Leblon para a Gávea, com Rubem Fonseca, e por fim na varanda da casa do Chico, aguardando acanhado, olhando a vista da Bahia da Guanabara, para disfarçar.

O encontro dos dois tímidos foi providencialmente mediado pelo antitímido por natureza. Zé Rubem é famoso por ser recluso, mas é das pessoas mais extrovertidas que conheci. Para explicar seu isolamento social, Rubem citava sempre uma frase de Ingmar Bergman, “somos misógenos porque nos apaixonamos muito facilmente”.

No início da conversa, só Zé Rubem falava, ou melhor, eu falava e ele complementava efusivamente, deixando Chico mais encabulado ainda. Quando eu disse que gostaria de publicar as letras completas do compositor, relatando como surgiu a ideia, Chico logo refutou. Não achava que suas letras pudessem ser consideradas literariamente, no que levou a maior bronca do então co-sogro. “Claro que é poesia, porra, e Pedro Pedreiro o que é, então?” Em seguida Rubem emendou, cantarolando a música que sabia de cor. Ao final, bateu na mesa e disse: “se isso não é pura poesia o que é então, porra?”. Chico sorriu e o encontro terminou em outros assuntos, futebol provavelmente, sem levar a nenhuma conclusão.

Passado certo tempo sem resposta, resolvi escrever um bilhete a ele reforçando o convite, mas dizendo que se não fosse possível me tornar seu editor eu oferecia meus préstimos como goleiro, na época uma das atividades mais importantes da minha vida e, de certa forma, a minha maior especialidade. O convite acabou vindo não me lembro se diretamente, ou através do Rubem, e as duas coisas aconteceram juntas: o Livro de letras e as peladas no Centro Recreativo Vinicius de Moraes onde joga o Polytheama, o famoso time do Chico Buarque.

A partir de então, marcávamos reuniões de trabalho sempre às segundas e quintas no período da tarde, dia da pelada no Bairro do Recreio. Eu cobria a falta de goleiro nos dias de semana, catava bem, como se diz à beira do campo, e depois íamos para a casa do Chico na Gávea, para planejar os detalhes da edição. Assim, não sei se me tornei editor dos livros de Chico Buarque por obra da empolgação do Zé Rubem ou se porque o Polytheama precisava de um goleiro para os jogos extra-oficiais.

A colaboração futebolística durou menos que a editorial, mas foi também profícua. Fundamos mais tarde o Polytheletras, time que juntava colegas da editora, amigos que faziam parte do meu time de futebol, com Chico e Vinícius França, empresário do Chico e companheiro de time do compositor, além de alguns músicos da banda que tocava nos shows em São Paulo. Dessa maneira, nas suas temporadas paulistas, Chico tinha um time para jogar aos sábados, quando tocava no Palace ou outro local, até o dia em que eu definitivamente pendurei as luvas e me contentei com a função de editor.

O Livro de letras ficou pronto numa sexta-feira à noite, e o correio já não recolheria a encomenda para entrega no dia seguinte. Passei o sábado inconformado. Queria que Chico recebesse o livro rapidamente. Tenho esse tipo de ansiedade até hoje, quero compartilhar o livro com os autores logo que recebo os primeiros exemplares. Nesse caso a ansiedade era maior pois, no gramado, do campo do Polytheama, havia surgido uma amizade bacana entre o goleiro e o ponta de lança goleador.

Não aguentei e no domingo convidei minha filha, Júlia, então com oito anos, para me acompanhar ao Rio e entregar o livro pessoalmente ao Chico. Foi um dos dias inesquecíveis da nossa vida. Fomos e voltamos de mãos dadas no avião. Ao chegar na Gávea, Chico nos recebeu alegremente, e, para a emoção maior da Júlia, Marieta e Silvinha, atrizes da Globo, vieram nos cumprimentar. Chico autografou os livros e mais seu novo LP, cuja capa fora feita pelo Hélio de Almeida, então diretor de arte da Companhia das Letras, com ajuda da equipe da editora. Em seguida nos levou de volta ao aeroporto. Júlia carregava o disco orgulhosa e, enquanto eu entregava os bilhetes, foi logo mostrando o disco e perguntando para a atendente: “Sabe quem nos trouxe até aqui? Foi ele ó, o Chico, é amigo do meu pai”.

Poucas semanas atrás, não atinei quando a Lili, minha mulher, perguntou como quem não quer nada o que eu fizera com os meus longplays. “Vendi todos, para comprar CDs”, foi o que respondi. A surpresa veio pouco tempo depois. Os discos não haviam sido vendidos, estavam em 18 caixas no depósito da editora, e foram devidamente embalados com laços de muitas cores, para o meu aniversário. Ao abrir a primeira caixa dei de cara com o disco onde abaixo do sorriso do Chico se lê: “Para Júlia e Pedro, com carinho, Chico, Rio, 18/11/89”.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.