Na gráfica com meu avô

Por Luiz Schwarcz

Giuseppe e Luiz

No momento da escolha da profissão eu não consegui escapar do destino traçado para mim, desde o berço, por meus avós e pais. Neto e filho único de uma família de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, residia em mim o único consenso da união dos Weiss com os Schwarcz: eu seria o herdeiro de um reino que começava na avenida Rio Branco, bem debaixo do sovaco da estátua do Duque de Caxias, e se estendia à rua Djalma Dutra, próximo da rua das Noivas, no Bairro da Luz.

A Cromocart, gráfica que produzia cartões, decalcomanias, santinhos, estampas e papel-fantasia, seria o meu primeiro lar, como já era para meu avô, o patriarca que criou nosso império de tinta e papel. Giuseppe Weiss, o Deda, entoava todo dia a cantiga da sobrevivência heróica na guerra, apontando para as máquinas de impressão, que me mostrava aos domingos, quando me levava para passear no centro de São Paulo. Íamos primeiro à praça da República, onde ele comprava selos para sua coleção (que seria minha um dia, como ele fazia questão de frisar), além de quadros de pintores à espera de reconhecimento, que ele reproduziria em grandes estampas da Cromocart, como um verdadeiro descobridor de talentos. Da praça andávamos até a gráfica da avenida Rio Branco, cujos pesados portões de ferro ele levantava, pedindo que o ajudasse — só para fazer parecer que eu, ainda de calças curtas, já tinha alguma responsabilidade sobre o que um dia seria meu, seria meu, seria meu…

Meu avô trabalhava até nos fins de semana, adorava ir à gráfica sozinho, e deixava claro que lar para ele não carecia de cama, cozinha ou sala de jantar. Nos dias em que a gráfica do bairro da Luz estava aberta, e eu já havia terminado meus deveres escolares, ele me levava para ver a tinta sendo preparada, as máquinas bicolores rodando, o brilho da purpurina ou o dourado das fitas de hot-stamping sendo aplicado nos cartões. Quando passava de carro pela rua Tiradentes e via nas vitrines todos aqueles manequins em seus longos vestidos brancos bordados, eu logo imaginava as noivas piscando em minha direção.

Cresci com a ideia de que, se por um lado eu não tivera irmãos, ao menos tinha quatro casas: a paterna, a dos meus avós — que me disputavam a ferro e fogo com meus pais — e as duas gráficas do meu avô, onde meu pai trabalhava, em clima de pouca harmonia familiar. Não sei se por ser o primogênito e único descendente, ou por ter aliado a meu temperamento pacato sinais de que desde jovem tinha opinião própria, fui o único membro da família a quem meu avô ouvia e respeitava.

Por outro lado, à solidão voluntária do Giuseppe — que gostava mesmo era dos domingos em que ficava consigo mesmo, ou com o neto, na gráfica vazia — juntavam-se o silêncio do meu pai e a subserviência de minha mãe e minha avó. Com esses ingredientes, o amor entre os casais e a harmonia entre as gerações eram improváveis, ou melhor, recaíam sobre minhas costas. Assim, minha personalidade moldou-se pela vontade do meu avô, seguida sem discussão pelos outros membros do minúsculo clã. Para os que acreditam mais em DNA, os traços de minha personalidade forte e decidida certamente vieram do meu avô, e a vocação de pacificador, sei lá, talvez do rei Salomão.

Conciliação não houve, porém, no momento em que, cursando administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas, eu passei a militar, superficialmente, no movimento estudantil, comecei a trabalhar como monitor no departamento de ciências sociais e disse à minha família que o destino traçado por anos a fio, o fiel da balança familiar, se perdera — eu seguiria a carreira de professor de sociologia, longe do cheiro de tinta, do brilho da purpurina e do ouro aplicado nos santinhos.

Para receber o diploma da FGV eu precisava, no entanto, cumprir um estágio de seis meses em alguma empresa. Lembro da alegria da minha mãe ao me contar que a Gessy Lever e a Arthur Andersen haviam ligado para casa oferecendo-me um estágio, motivados pelas minhas boas notas na faculdade. (Obediente desde criança, apesar de detestar o curso de administração, nunca consegui ser mau aluno). Lembro também da decepção, na hora do almoço, quando informei a ela e a meu pai que não faria nenhum daqueles estágios, mas que procuraria uma editora ou uma livraria para esse fim. Em vez de herdeiro, eu queria mesmo era ser professor universitário e, nas horas vagas, com o perdão da rima, livreiro.

A história de como acabei batendo na porta de Caio Graco Prado, da editora Brasiliense, para realizar meu estágio, não cabe nesta crônica, que começou com meu avô e deve terminar com ele, com sua resignada alegria quando resolvi criar minha própria editora, depois de um “estágio” que durou quase nove anos.

Ao saberem que o ex-administrador do império familiar queria começar uma editora própria, Giuseppe tornou-se imediatamente meu sócio, assim como meu pai. A Cromocart entrou com quarenta por cento do capital estabelecido para criar a Companhia das Letras. Não era de fato muito dinheiro, mas com isso voltei à gráfica da minha infância, agora em outro endereço, na rua Barra Funda, 296. Ali, numa sala de fundos, ao lado de uma enorme jabuticabeira, foi sediada a recém-criada editora, com seus três funcionários (Gisela, José Luiz e Ricardo). Para chegar aos 4×5 metros onde cabia a Companhia das Letras inteira, eu passava por várias das máquinas da minha infância, aquelas que um dia deveriam ter sido minhas.

Meu nome e minha foto já haviam aparecido algumas vezes no jornal, desde a época em que trabalhava na Brasiliense, e ainda mais com a cobertura muito simpática ao projeto editorial que então se iniciava. Meu avô, conformado, vinha duas vezes por dia me visitar, e quando havia algum autor ou visitante reunido comigo, ele dizia, apontando o dedo para mim: “ele agora não é mais meu neto”. Fingia zombar do destino que eu afinal recusara, mas logo em seguida enchia o peito e completava: “eu é que sou o Giuseppe, avô do Luiz”.

O time de futebol da Cromocart com meu avô em pé ao lado esquerdo. Meu pai é o segundo jogador em pé da esquerda para a direita, e eu o mascote perto da bola.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.