O cara da capa

Por Thyago Nogueira

Depois da invasão fotográfica, é a vez das capas ilustradas e tipográficas chamarem a atenção. E um dos bons culpados por isso talvez seja o designer londrino Jon Gray, cuja capa acima, da edição americana de Ilustrado, vai embalar também a versão brasileira do livro.

Gray é formado pelo London College of Printing, mas foi no emprego da editora inglesa Little, Brown que aprendeu a dar vida às capas, cortando, colando e desenhando à mão, para depois escanear o trabalho e manipulá-lo no computador.

Conhecido como Gray318 e colaborador de editoras inglesas e americanas, é autor de capas vibrantes e inventivas, que brincam com a caligrafia e a tipologia para dar movimento e graça ao título e ao nome do autor. Cores chapadas e contrastantes e uma divertida repetição de padrões gráficos, tirados de quadrinhos e cartazes, são marcas de seus melhores trabalhos, que trazem para o universo pop a aceleração futurista de Filippo Marinetti, a irreverência lúdica de Paul Rand e a concisão expressiva de Saul Bass, para citar apenas três gigantes da história do design.

Gray é o cara por trás das elogiadas capas de Jonathan Safran Foer, um namoro que começou com Everything is Illuminated (2003) e seguiu com a arrebatadora Extremely Loud and Incredibly Close (2005) — que chegou a ter duas versões. Para I’m ok, título anterior do livro que tem como protagonista um garoto e os desdobramentos do Onze de Setembro, Gray concebeu uma capa em preto-e-branco fúnebre, com letras que surgem dos vazios criados por uma renda de anjos, grifos e volutas. Mas o livro mudou de título no final da edição, e Gray teve de correr novamente à cartola.

A mão vermelha que estampa a capa definitiva do romance não é apenas um sinal de perigo e atenção. Quem a observa atentamente na livraria é capaz de vê-la pedir que você se aproxime e encaixe ali sua própria mão. Como faz uma criança que quer conferir seu contorno ou como faz um adulto que apalpa um objeto querido. Mas também como fez um designer talentoso, que mostra como transformar a literatura em grande fonte de inspiração.

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Thyago Nogueira é editor da Companhia das Letras e fotógrafo. É editor de Lourenço Mutarelli e da coleção Jorge Amado.