A teoria das janelas quebradas

Na próxima semana a Companhia lança o novo livro de Drauzio Varella: A teoria das janelas quebradas, uma seleção de suas crônicas publicadas ao longo de dez anos no jornal Folha de S. Paulo.

A coletânea traz desde histórias engraçadas de adultério, reflexões sobre o crime, temas atuais de ciência e medicina, até questões sociais, sempre abordadas pelo autor com seu olhar atento para os dramas humanos. Abaixo você lê uma das crônicas, publicada em dezembro de 2003.

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Vida de ladrão

Por Drauzio Varella

Vida de ladrão é vida de cão, reconhecem eles mesmos. Infelizmente, não é essa a impressão que os meios de comunicação transmitem ao tornar públicos assaltos audaciosos, tiroteios com a polícia, rebeliões em presídios, sequestros cinematográficos e outras ações mirabolantes.

Embora relatar tais fatos seja fundamental para tomarmos consciência de que a violência urbana é doença epidêmica, a demonização dos bandidos e a divulgação de suas proezas em tom dramático têm o dom paradoxal de exercer fascínio sobre os mais jovens. Na imaginação juvenil, o bandido que atira na polícia, escapa da perseguição e ganha espaço no rádio e nos programas de tv, está mais próximo do herói suburbano que do criminoso desprezível.

Acrescentem-se a essa idealização ingênua as desigualdades sociais e o prestígio que os marginais desfrutam nas comunidades pobres, com seus jeans de grife, tênis importados, correntes de ouro, motos do ano e o harém de namoradas que neles buscam a proteção jamais alcançada em companhia de rapazes estudiosos e trabalhadores, e teremos o caldo de cultura no qual germinará a criminalidade de amanhã.

Nos dias de hoje, negar que o relato detalhado de atos violentos e a publicidade concedida a bandidos sanguinários colaboram para gerar comportamentos semelhantes nas crianças e adolescentes que vivem em situação de risco é fazer vistas grossas a um corpo tão sólido de evidências científicas que apenas os ignorantes e os mal-intencionados ousam contestar.

A descrição do grande assalto, da fuga espetacular e das façanhas do poderoso traficante nunca vem associada às consequências que essas ações provocam na vida de seus protagonistas. A prisão e a morte de marginais na mais tenra idade nunca recebem a ênfase teatral dedicada aos crimes perpetrados por eles.

Tais questões me vieram à mente por causa da última fuga através de um túnel aberto na Penitenciária do Estado, onde realizo um trabalho médico. Nessa tarefa contei com a cooperação de dois detentos no papel de enfermeiros: Zeca, moreno, capaz de impor disciplina na fila de atendimento com ordens curtas e secas emitidas em voz baixa, conheci na própria Penitenciária. O outro, Maurício, portador de aids, quatro filhos, um dos sobreviventes do pavilhão Nove, a maior parte da vida passada na prisão, menos impositivo e mais negociador, conheci há mais de dez anos na Casa de Detenção.

Na primeira segunda-feira após a fuga, quando cheguei à Penitenciária, havia dois novos enfermeiros no lugar deles. Não fiz perguntas até o final da tarde, depois que o último paciente saiu e a porta foi fechada. Então soube que Zeca conseguira escapar e permanecia em liberdade; Maurício, porém, não tivera sorte igual: ao rastejar até a metade do túnel, as paredes desmoronaram à sua frente. Espremido, fez o que pôde para recuar naquela escuridão, tentando convencer aos gritos os companheiros que vinham atrás a fazerem o mesmo. Na confusão claustrofóbica que se estabeleceu, ele e mais oito detentos morreram asfixiados.

O noticiário do dia seguinte ressaltou reiteradamente o feito de Zeca e dos outros que lograram escapar; os que morreram sem ar mal foram mencionados. Não tenho a intenção de julgar se Maurício merecia ou não o fim que lhe foi dado viver, presidiários experientes como ele avaliam com cautela o risco de morte antes de aventurar-se pela boca de um túnel. O que seria didático destacar nesse episódio é que a vida no crime tem grande probabilidade de terminar de maneira trágica. Muito antes de perdê-la precocemente, ladrões, estelionatários, assassinos e traficantes abrem mão do bem mais sagrado da condição humana: a liberdade.

Perdem a liberdade mesmo antes de serem enjaulados nas cadeias, porque a possível chegada da polícia não lhes permite momentos de descontração. Se estão sem dinheiro, arriscam morrer em assaltos; quando conseguem obtê-lo, correm perigo de ser delatados, assassinados por companheiros gananciosos, achacados por policiais que desonram suas corporações, ou de passar vários anos na prisão.

“O que mais sinto saudade é do tempo em que podia entrar num bar, pedir uma cerveja e sentar de costas para a porta”, queixou-se uma vez um bicheiro recentemente metralhado num posto de gasolina da Zona Norte.

Na cadeia é que a vida do ladrão conhece seus momentos mais dramáticos. James Joyce, no livro O retrato do artista quando jovem, fala do professor jesuíta que, ao descrever o Inferno para seus alunos, insiste que lá, muito pior do que o calor do fogo, do que as torturas e a eternidade da condenação é a companhia dos demais habitantes. Na prisão acontece o mesmo: piores do que a restrição de espaço, a falta do que fazer, a sucessão dos dias idênticos, a nostalgia nos fins de tarde são as perversidades que os próprios presos cometem uns contra os outros.

Tão grande é o perigo, que o maior anseio do homem preso não é a liberdade, como poderíamos imaginar, mas permanecer vivo na cadeia.