O silêncio do meu pai

Por Luiz Schwarcz

Andor Schwarcz, assinalado na foto, um ano antes da Segunda Guerra Mundial.

Desde pequeno me acostumei a funcionar como mediador de conflitos familiares. Mas naquela manhã, quando minha mãe me telefonou, percebi que o desentendimento entre meus pais havia sido mais sério. Fui imediatamente para o apartamento onde me esperavam, e de fato saí de lá, depois de algumas horas, bastante abalado, sem ter tido o sucesso dos meus tempos de criança, quando quase sempre conseguia uma conciliação. Pensei em ir trabalhar, mas foi impossível.

Poucos anos antes eu havia tentado, pela segunda vez, escrever um romance. Foi após uma viagem a Budapeste, cidade onde meu pai passou praticamente toda a infância e juventude. Ao ver, mesmo que apenas do pátio interno do prédio, o apartamento onde meus avós moraram, com meu pai e suas irmãs, me emocionei e chorei sem parar. Voltei ao Brasil decidido a escrever um livro sobre um menino que não conhecia o passado do pai, um homem sofrido e quieto. O argumento teria muito a ver com meu pai, e comigo; só com dezessete anos vim a conhecer um pouco da história dele, sua sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial e a explicação para os traumas que o acompanharam por toda a vida. Meu pai só quis falar sobre o seu passado uma única vez e nunca mais. Assim, um narrador criança que tentava preencher o silêncio do pai era algo que eu conhecia bem.

Esse romance nunca migrou da minha cabeça para o papel. Naquele dia, porém, quando desisti de trabalhar, cheguei em casa e, sem planejar, fui para a sala onde ficava o computador. Em vez de me fechar no quarto, ouvir uma música, ler um livro, tive o impulso de tentar lembrar dos meus pais como os via quando menino, e não após aquela discussão. Quis escrever sobre os meus pais para meus filhos. A intenção não era publicar nada, mas o resultado agradou a Lili, editora da Companhia das Letrinhas, e no final da redação confesso que já sonhava em ter pela primeira vez meu nome numa capa. Foi assim que escrevi o Minha vida de goleiro, o livro que mais gosto dos três, que logo mais serão quatro, de minha autoria. Desde que imaginei a primeira cena — o menino jogando a bola para si próprio, meu principal passatempo de filho único — até o ponto final, depois de contar a heroica história da sobrevivência dos meus pais e avós durante a Guerra, foram seis meses de trabalho, tão prazeroso quanto sofrido.

Como escritor mais reescrevo e corto do que crio, acho que sou de fato um editor muito severo para comigo mesmo. Não contei a meus pais que estava escrevendo sobre eles, sobre a imagem que tinha deles quando menino, e que narraria no livro a história do meu pai — aquela que ele me contou uma só vez. Minha vida de goleiro acabou sendo também uma homenagem aos dois, e principalmente aos meus avós: o materno que conheci, e foi muito importante na minha vida, e o paterno que morreu no campo de concentração, depois de salvar o filho, atirando-o do trem que os levava para Bergen Belsen.

Além disso, e de outras passagens, há no livro a narrativa de como meu pai, ao chegar em Budapeste, passou a trabalhar na resistência, contra os nazistas, falsificando passaportes, trajando um uniforme do exército húngaro como disfarce. Pouco antes do fim da Guerra, o jovem Andor (traduzido aqui no Brasil como André) foi preso, torturado e sobreviveu mais uma vez, quase milagrosamente, solto pelo carcereiro, que se afeiçoara a ele, e, descrente da vitória nazista, abriu as portas da prisão repetindo mais ou menos o que meu avô dissera ao ver o comboio parado, arremessando o filho para fora do trem: “foge, meu filho, foge”.  Meu pai ouviu essa frase duas vezes, tanto do seu pai, como do carcereiro amigo.

Mantive o livro em segredo até o final, quando, já com ele pronto, assinei emocionado uma cópia para meu pai, outra para minha mãe, deixando-as na portaria do prédio, sem avisar. Aguardei ansioso a reação dos dois. A da minha mãe veio logo, e foi muito boa. Mas meu pai manteve o silêncio que lhe era característico, e eu passei a me torturar com a ideia de que jamais deveria ter contado a história dele sem autorização.

O telefonema tão aguardado só veio dois dias depois, e me trouxe imenso alívio. Meu pai também gostara da homenagem, e pedia para almoçarmos juntos, pois queria comentar o livro na ocasião. O encontro aconteceu no mesmo dia, quando ouvi que Minha vida de goleiro tinha sido a melhor coisa que ocorrera em sua vida, e ganhei um abraço cheio de gratidão. Com a publicação eu não conseguiria aproximar meus pais, nem resolver suas desavenças, mas ao menos tinha dado a eles alguma alegria, e a meu pai, especialmente, eu restituíra um pouco do orgulho que tanta falta lhe fez, desde a fuga do trem.

No meio do almoço, para minha surpresa, meu pai falou: “meu filho, há uma história que nunca relatei a ninguém. Depois que os russos entraram em Budapeste, fui preso novamente. No meu prédio havia um jovem a quem recorremos quando escapei do trem, para tentar rastrear o paradeiro do meu pai. Ele era simpatizante dos nazistas, militante da juventude nazista húngara, mas nos ajudou, infelizmente em vão. Como você sabe, seu avô morreu de fraqueza, quando Bergen Belsen foi libertada. Com a vitória dos aliados, esse jovem nazista foi preso e pediu minha ajuda. Queria que eu depusesse a seu favor, contando apenas o que fizera por nós. Foi muito difícil, mas achei que era minha obrigação ajudá-lo. Acabei preso mais uma vez, depois de falar a verdade sobre o meu vizinho, agora por ser supostamente um colaborador do regime deposto, o mesmo que matara meu pai. A prisão era a mesma onde estive, e de lá fui liberado apenas quando minha irmã, aos berros, mostrou o que fazíamos para salvar os judeus, e disse que eu estivera na mesma cela havia pouco tempo”.

Nunca tive que lutar para sobreviver, como ocorreu com meu pai, nem passei por conflitos éticos comparáveis com este que ele me contou em seu segundo e último relato sobre seu passado. Mas com ele certamente aprendi a conviver e até a gostar sinceramente de pessoas diferentes de mim*. Isso foi um dos muitos legados que Andor me transmitiu, com o seu olhar triste, seu silêncio e sua bondade.

* Veja meu post da semana passada, “Os dois Francis”.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.