Satori no Paraná

Por Tony Bellotto

Route 66, rodovia americana também conhecida como The Mother Road por atravessar o país em praticamente toda sua extensão. (Foto por Chuck Coker)

Satori em Paris é um livrinho divertidíssimo de Jack Kerouac. O diminutivo aqui não se refere à qualidade da obra, mas ao tamanho. É um livro de poucas páginas. Satori, para quem não sabe, é a palavra japonesa para “iluminação súbita” ou “compreensão”. Aliás, a melhor forma possível de iluminação: por que razão desperdiçar anos em monastérios no Tibete, orando, jejuando e fazendo votos de silêncio e abstinência sexual em busca de uma presumível — porém não garantida — iluminação, se você pode alcançá-la sem querer, durante uma agitada viagem de trem pela França regada a vinho, conhaque, comida gordurosa e sexo casual? Bem, pelo menos foi isso o que aconteceu com Kerouac numa viagem à França em 1966, em busca de suas raízes familiares. Claro, tomar Jack Kerouac como guia pode não ser exatamente o cúmulo do bom-senso, mas não custa nada tentar.

Ok, não consideremos o vinho, o conhaque, a comida gordurosa, o sexo casual e a viagem à França condições primordiais para se atingir a iluminação. Analisemos o meu caso. Alcancei o satori na semana passada a caminho de Umuarama, no interior do Paraná. E não dentro de um trem, como Kerouac, mas num ônibus. E sem conhaque. Tomei um pouco de vinho, ok, uma ou duas taças, nada que rivalize com os prováveis hectolitros consumidos pelo escritor americano. E o que compreendi nesse meu satori, mirando da janela araucárias, quedas d’água, plantações, pastagens, caminhões com boias-frias na boleia e postos de gasolina com cheiro de borracha queimada? A revelação só virá na penúltima linha desta crônica. Peraí, não adianta pular direto pra lá, pois talvez a frase não faça sentido pra você. Eu mesmo não entendi muito bem a minha “iluminação”. A iluminação súbita, como ressalva o adjetivo, some da mesma forma que surge: subitamente.

Pelo que entendi da leitura de Satori em Paris, o mesmo ocorreu a Kerouac, que morreu vítima de alcoolismo três anos depois de ter escrito o livro, provavelmente sem entender — ou lembrar — o que lhe foi revelado naquela estranha viagem.

A verdade é que busco, desde que comecei a escrever, uma forma de conciliar minha vida de roqueiro com a de escritor. E gostaria de conseguir isso num texto de sabor (e valor) literário. Comecei com o Bellini, me escondendo atrás de uma mesa de detetive. Agora o detetive sumiu temporariamente e sua quitinete foi invadida por um guitarrista decadente que, a conselho de William Blake, trilha o caminho do excesso em busca do palácio da sabedoria. Volto a Kerouac, o peregrino-mor do caminho do excesso, o Paulo Coelho da desolação. Jack Kerouac, apesar de fã de jazz e blues, foi um dos inventores do rock’n’roll. E sua contribuição não foi musical, apesar do ritmo alucinante de sua máquina de escrever durante as três semanas em que datilografou furiosa e ininterruptamente — reza a lenda que movido a café, jazz e benzedrina — o manuscrito original de On the road. O que ele criou com sua escrita, além de textos de grande poder de combustão literária, foi a ideia da estrada como palco e oráculo de uma vida marginal, paradoxalmente utópica e possível. Bob Dylan já declarou que On the road mudou a sua vida. Muitos roqueiros também caíram na estrada — sentidos literal e figurado — inspirados pelas perambulações literárias, lisérgicas, etílicas e existenciais da chamada geração Beat, da qual Kerouac e Allen Ginsberg emergem como heróis de asas quebradas e olhos vermelhos. Conto tudo isso para tentar entender (e explicar) como nasceu meu novo livro, No buraco. A estrada que liga Foz do Iguaçu a Umuarama me fornece algumas pistas não pavimentadas. Eis o que se revelou no meu satori: No buraco, em inglês, é On the hole.  Mais informações (e infames satoris) na semana que vem.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em outubro.

13 Comentários

  1. charles disse:

    Lixo (2)

  2. Lucas_Deschain disse:

    Muita expectativa com relação ao On the Hole. Gostei bastante desses escritos e espero encontrar bastante Kerouac e Beat nesses relatos. Já percorri essa estrada mas nunca tinha visto ela sob essa perspectiva.

  3. JLM disse:

    gente, qta violência, qto estresse. o cara escreve oq quiser e como quiser, se ñ gosta é só ñ ler.

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