Testamento geométrico

Por Tony Bellotto

Livro pendurado em varal, assim como no experimento de Amalfitano ou no Unhappy Readymade de Duchamp. (Foto por uair01)

Não sei vocês, mas ando há algum tempo carregando meu 2666 pra tudo quanto é lado. O volume é pesado como um paralelepípedo, e falo apenas de sua forma — como dizer — externa. Por dentro, é claro, o livro pesa mais que as pontes Estaiada e a Rio-Niterói juntas. Sei que a obra de Bolaño vem sendo comentada e fruida por muitos ultimamente e não cabe a mim tecer críticas, loas ou digressões que sejam sobre o vasto romance. Como um leitor intuitivo e um tanto superficial, desprovido de repertório técnico e acadêmico, me limito a considerações práticas e, por que não, úteis aos que se arriscam pela sua leitura (imperdível, diga-se de passagem).

Por exemplo, não recomendo a leitura de 2666 em sushi-bares. Caso esteja sozinho, e tenha a ótima ideia de jantar no balcão de seu japonês predileto acompanhado de um livro, opte por uma edição de bolso ou algo menos substancial. Seu jantar pode ser comprometido pelo mau-humor do cliente ao lado, inconformado com aquele livrão a disputar espaço com polvos, nabos e atuns, além, claro, do desprazer de ver as tão cuidadosamente diagramadas páginas da edição brasileira manchadas de shoyu. As manchas de chá verde não são tão marcantes, fica aqui a dica.

Outro perigo, ler 2666 antes de dormir, deitado na cama. Não preciso explicar como adquiri um galo na testa e um pequeno corte no supercílio esquerdo. Por outro lado, a presença constante de 2666 pode proporcionar encontros mágicos e papos interessantíssimos, como a da senhora que encontrei outro dia num voo da ponte aérea, que, ao me ver com o Bolañaço nos braços, interpelou-me sem maiores delongas: “Em que parte você está?”. “Na Parte de Fate”, respondi. “Muito boa”, ela disse. “Estou com alguma dificuldade para concluir a Parte dos crimes”, prosseguiu, “mas achei a Parte de Amalfitano ma-ra-vi-lho-sa. Que homem louco, mas profundamente humano e apaixonante!”. Concordo com ela, a Celina, artista plástica, viúva de um aviador, dona de uma pousada em Itaipava e a caminho de São Paulo para a formatura de uma das netas no curso de medicina da USP.

Passadas algumas semanas desse encontro, como direi, bolañesco, também me deparo com alguma dificuldade para atravessar a Parte dos crimes, não sei se pela aridez do tema ou pelo excesso de subtramas e personagens. Talvez seja por puro prazer: diminuo o ritmo para melhor saborear as passagens que me remetem a um de meus autores prediletos, James Ellroy. Sei que cada um há de reconhecer alguém, ou um autor especial, nas inúmeras possibilidades e vias alternativas oferecidas pelo texto de Bolaño, mas tenho certeza de que ao final da leitura muitos farão (ou já fizeram) com o 2666 o que Amalfitano, inspirado por Marcel Duchamp, fez com O testamento geométrico, do escritor galego Rafael Dieste: pendurar o livro num varal. Aviso: embora eu ainda não tenha terminado a leitura, já ensaiei pendurá-lo no varal. Não é fácil, o livro é muito pesado, como se sabe. Resta sempre a possibilidade de atirá-lo à lareira acesa, como faz em momentos de reflexão o detetive catalão Pepe Carvalho, a quem a visão dos livros queimando produz um estranho efeito calmante. O que não posso aceitar é que um livro tão vibrante quanto o 2666 acabe seus dias repousando em silêncio em minha estante — como um velho gordo e aposentado — ainda que acompanhado, na letra B, de pesos pesados como Ballard, Block, Borges, Bowles, Bukowski, Burgess e Burroughs.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em outubro.