A Flipinha é demais

Por Júlia Moritz Schwarcz


(Foto por Walter Craveiro)

Dessa vez o Ziraldo errou feio. Disse que não é autor de Flipinha. É que ele não sabe do que está falando. A Flipinha é demais. Acontece de janeiro a dezembro e envolve as escolas da região de uma maneira incrível. Quem participa da Flip percebe isso. O palco da Flipinha, em frente à praça da Matriz, está enfeitado com os trabalhos feitos pelos alunos, e tem sempre alguma atração ou apresentação acontecendo. As árvores da praça estão cheias de livros, e uma biblioteca em forma de circo ocupa todo o espaço do meio — jovens muito bem treinados leem para as criancinhas de bobeira e para os alunos paratyenses, que frequentam aos montes a Festa. Ah, tem os bichos e bonecos de papel machê, feitos pelos alunos em oficinas. Eles trabalham com os livros durante os doze meses do ano, e os professores também passam por cursos sobre literatura. Enfim, parece até propaganda, mas eu sou mesmo fã, acho demais o que se criou a partir de 2003, com essa história de Flipinha.

Este ano, a Laurabeatriz e o Lalau foram convidados da Flipinha. Pedi um depoimento a cada um sobre essa experiência. É o que vem a seguir.

Sempre tive curiosidade de conhecer a Flipinha e tive uma bela surpresa. Achei importantíssimo o papel que esse programa educativo está desempenhando junto às crianças e adolescentes, especialmente os de Paraty e cercanias. Com essa influência superpositiva, com certeza as crianças que vêm participando da Flipinha vão ter uma mudança bem significativa em suas vidas.

É muito animador, neste mundo de hoje, tão ameaçado por catástrofes dos mais variados tipos, tão bombardeado pela mídia do consumismo, encontrar um oásis tão florescente e uma atmosfera tão promissora. Certamente, essas sementes que a Flipinha está semeando já estão começando a brotar e são uma notícia muito alvissareira no cenário do planeta Terra neste ano de 2010.

Laurabeatriz

Charretes transportavam poemas. Homens e mulheres trocavam palavras impressas em várias línguas. Algumas estátuas ficavam paradas, enquanto outras se moviam de tempos em tempos. Ondas pequeninas escreviam suas memórias na areia. Vi um livro bater suas páginas, sobrevoar a cidade e pousar numa das árvores da praça. Depois, veio outro, outro, mais outro. E vieram centenas deles. Vi crianças perseguindo histórias pelas ruelas de pedras no chão. Vi crianças sorrindo para mim. Foi um sonho, um dos grandes sonhos de minha vida.

Lalau

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

16 Comentários

  1. Li a reclamação do Ziraldo publicada no blog Resumo do Cenário e acho que ele não foi claro na sua crítica, além de não ter sido nada respeitoso com as palavras.
    Talvez o incomode – como incomoda a mim – os inúmeros apetrechos que os promotores de leitura inserem entre o livro e a criança. É contador de história fantasiado, artesanato, pintura, desenho… quando a única coisa necessária para conquistar um jovem leitor é uma história bem contada e um adulto disposto a contá-la. Era assim com Dona Benta e seus netos. É assim conosco e nossos filhos.
    Admiro o formato do Salão do Livro da FNLIJ, onde o astro é o livro, nada mais. Os autores sentam, leem, conversam. Mas reconheço que esse não é o formato mais atrativo para um público de idades diversificadas, como é o caso da Flipinha. Existe um trabalho hercúleo por parte da equipe da Flipinha em Paraty e isso merece ser respeitado. O Ziraldo, ciente de sua importância para a literatura infantil brasileira, poderia ter usado o poder de sua palavra para sugerir um novo formato, contribuir, ensinar. Mas a vaidade, esse megera, às vezes estraga tudo.

  2. O Ziraldo pode escolher a quais eventos participa, ele já famoso o suficiente para nem mais aparecer e além do mais, em evento paralelo, o Senador Eduardo Suplicy distribuiu gratuitamente um livrinho sobre renda básica ilustrado pelo Ziraldo então ele já ia ter divulgação de um jeto ou de outro.

    Só não concordo com a questão do nome: Flipinha é um nome ótimo e já está anexado ao imaginário do público infantil local e dos que lá vão religiosamente todo o ano. Não devemos esquecer que devemos antes de tudo satisfazer o público infantil e a Flipinha já o evento mais conhecido depois do oficial. E o evento da Flipinha está muito mais para institucional do que para comercial, pois o fato do autor estar ali, não faz o livro vender muito mais (cuido dessa parte à três anos).

    Acho que a equipe de organização está de parabéns com destaque para a decoração de bonecos de papel machê foi simplesmente linda esse ano. Homenageando também Gilberto Freyre e colocando o tradicional boneco de Dom Quixote com a camisa da Espanha (genial)

    No mais, cada ano que vou lá a quantidade e qualidade de leitores aumenta e isso eu acho fascinante. Temos que continur incentivando a leitura com evetnos assim.

    Um abraço a todos.

  3. Rogério disse:

    Ernani,

    Nos meus comentários pareceu que eu detesto Ziraldo porque gosto mais da turma do Cebolinha que da turma do Maluquinho. Nada disso. Admiro o trabalho do Ziraldo.
    Mas o fato de ter recusado o convite da Flipinha, achei uma contradição, pois outros eventos similares, ele não recusou. Eu gosto de coerência, contudo, todo mundo tem o direito as suas contradições, dicções e dições.
    Sobre essa questão de livro didático de que fala; essa expressão foi deturpada. No início o “para-didático”, era o livro que ampliava a discussão de um assunto dentro do livro didático. Hoje, como você diz, virou uma estratégia comercial das editoras que produzem livros didáticos. Abolimos essa expressão.
    Quando diz que as crianças leem os livros que os pais escolhem, não refuto. Mas no evento que temos anualmente na nossa rede, selecionamos uma dezena de livreiros; distribuimos aos alunos, professores e funcionários um ticket-livro. São quase 60 mil livros. As crianças ficam livres para escolher qualquer livro. Podem escolher livro infantil, de adulto, HQ, dicionários, qualquer livro.
    Parabéns pelo seu trabalho. Precisamos de gente que escreva livros que a gente gostaria de ler, editores que publiquem esses livros, porque leitores não faltam.

  4. Marco Severo disse:

    Rogério: talvez eu desconheça o Ziraldo, mas não acredito que ele desconheça a si próprio. Foi o próprio Ziraldo quem disse que não se encaixa nos moldes da Flip”inha”. Não fui eu, nem você nem o Ernani. Se ele foi ao evento que você mencionou uma, duas, dez vezes, ótimo. Sinal que ele gostou. Se ele não vai à Flip no diminutivo, é porque ele não acha que se adeque ao que acontece lá, principalmente, sabendo ele, que existe um evento mais levado à sério acontecendo bem ao lado. O problema, como disse o Ernani, é que não se leva literatura infantil à sério neste país, e tratar um evento como “inha” em nada ajuda em algo que precisa, isso sim, é ser combatido.

    E outra: ele não é idiota. Sabe que a Flip tem bem mais visibilidade que a Flip”inha”, da qual mal se ouve falar a não ser em lugares especializados ou com notinhas ali, acolá, ou no blog da Julia Schwarcz (que é realmente uma editora maravilhosa, sem dúvida, e tem mesmo que comentar algo da seara dela por aqui, óbvio). Ele sabe a qual evento pertence. Se ele sabe não se adequar às coisas tratadas com nomes no diminutivo, por que deve aceitar isso? Ele está certo.

  5. Ernani Ssó disse:

    Sei não, Rogério. Eu escrevo pra crianças e vou a muitas escolas, particulares e públicas, num monte de cidades. Fora as exceções de sempre, felizmente cada vez maiores, só vejo a literatura infantil ser levada a sério em termos comerciais. Não, peraí: as crianças levam a sério a literatura infantil. O problema, você sabe, é que as crianças quase não escolhem o que leem. Estão à mercê do filtro escolar e familiar, muitas vezes mais interessado na moral e nos bons costumes do que na literatura propriamente. Qualquer livreco paradidático vende mais que o melhor livro infantil. Eu mesmo, um desconhecido, fui cantado por mais de um editor para escrever paradidáticos e ficaram surpresos por me ver recusar a boquinha. Enfim, acho ótimo que estejamos aqui discutindo. É um bom sinal, não?

  6. Rogério disse:

    O Ziraldo tem razão numa coisa, a Sininho era um fadinha que mexia com a nossa libido. Isso não nego.
    Mas essa conversa de que as crianças são tratadas como cidadão de segunda classe. Primeiro: é uma opinião do senso comum. Segundo: nunca trabalhou num sistema educacional uma semana. E a literatura infantil no país é levada a sério. É o que diz a Rosely Boschini, presidente da CBL: “o crescimento do setor reflete o bom momento da economia e o esforço das editoras. Ela comentou que o setor infantil cresce todos os anos, mas disse estar feliz em ver que o CTP se destacou em 2009. “Isso mostra que jovens e crianças estão lendo mais”.
    E o que o Ziraldo queria dizer eu não sei, sei o que disse e o que disse, discordo.

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