As duas versões de Raymond Carver


(Foto por Daniel Lugo)

Raymond Carver é um dos mais importantes contistas norte-americanos do século XX, com suas narrativas que retratam emoções vastas em episódios cotidianos. Sua fama de minimalista é em parte devida a seu editor, Gordon Lish, que chegava a cortar mais de metade dos textos de Carver.

No ano passado a Companhia lançou Iniciantes, onde os contos figuravam em sua versão original. Na próxima semana será lançada uma coletânea com 68 contos de Carver. Nela aparecem, em ordem cronológica, as versões editadas, como foram publicadas e ficaram conhecidas. Abaixo você lê as duas versões do conto “Visor”:

* * * * *

Visor

(Versão editada, publicada em 68 contos de Raymond Carver)

Um homem sem mãos apareceu na minha porta para me vender uma fotografia da minha casa. A não ser pelos ganchos cromados, era um homem de aspecto comum, de mais ou menos cinquenta anos.

“Como foi que você perdeu as mãos?”, perguntei, depois que ele disse o que queria dizer.

“Isso é outra história”, respondeu. “Quer esta foto ou não quer?”

“Entre um pouco”, falei. “Acabei de fazer um café.”

Tinha acabado de fazer também uma gelatina. Mas isso eu não contei ao homem.

“Acho que vou usar o seu banheiro”, disse o homem sem mãos.

Eu queria ver como ele fazia para segurar uma xícara.

Eu sabia como ele segurava a câmera. Era uma velha câmera Polaroid, grande e preta. Ficava presa a tiras de couro que passavam por cima de seus ombros e em volta das costas, e era assim que a câmera se mantinha segura em seu peito. Ele ficava na calçada, na frente de uma casa, enquadrava a casa no visor da câmera, apertava a alavanca com um dos ganchos e a fotografia pulava para fora da máquina.

Eu ficava olhando pela janela, entende?

“Onde você disse que fica o banheiro?”

“Ali adiante, vire à direita.”

Curvando-se, retorcendo-se, ele tinha se livrado das tiras de couro. Colocou a câmera no sofá e ajeitou o paletó.

“Pode dar uma olhada nisto aqui enquanto vou ao banheiro.”

Peguei a fotografia da mão dele.

Havia um pequeno retângulo de gramado, a entrada para o carro, o abrigo do carro, a escadinha da entrada da casa, o janelão e a janela por onde eu estava olhando da cozinha.

Mas por que eu ia querer uma foto daquela tragédia?

Olhei com mais atenção e vi minha cabeça, minha cabeça, lá dentro da janela da cozinha.

Aquilo me fez pensar, ver a mim mesmo daquele jeito. Garanto a vocês, isso faz a gente pensar.

Ouvi o barulho da descarga da privada. Ele veio pelo corredor, fechando a braguilha e sorrindo, um gancho segurava o cinto, o outro enfiava a camisa para dentro da calça.

“O que o senhor acha?”, perguntou. “Não ficou legal? Pessoalmente, acho que saiu bem. E então eu não conheço o meu trabalho? Vamos ser francos, tem de ser um profissional.”

Puxou o gancho da calça.

“Aqui está o seu café”, falei.

Ele disse: “Você está sozinho, não é?”.

Olhou para a sala de estar. Balançou a cabeça.

“É duro, é duro”, disse.

Sentou-se junto à câmera, inclinou-se para trás com um suspiro e sorriu como se soubesse de uma coisa que não ia me contar.

“Tome o seu café”, falei.

Fiquei tentando pensar em alguma coisa para dizer.

“Três garotos passaram por aqui querendo pintar meu endereço no meio-fio. Queriam um dólar para fazer isso. Por acaso já ouviu falar disso?”

Foi um tiro no escuro. Mesmo assim, fiquei olhando bem para ele.

O homem inclinou-se para a frente com um ar importante, a xícara balançava entre seus ganchos. Colocou a xícara na mesa.

“Eu trabalho sozinho”, disse. “Sempre foi assim, e sempre vai ser. O que está querendo dizer?”

“Estava tentando fazer uma ligação”, falei.

Eu estava com dor de cabeça. Sei que café não é bom para isso, mas gelatina às vezes ajuda. Peguei a foto.

“Eu estava na cozinha”, falei. “Costumo ficar nos fundos.”

“Acontece toda hora”, disse ele. “Quer dizer que eles vieram falar com você e foram embora, é? E agora sou eu, mas eu trabalho sozinho. E então, o que me diz? Quer ficar com a minha foto?”

“Vou ficar com ela”, respondi.

Levantei e peguei as xícaras.

“Claro que vai”, disse ele. “Tenho um quarto no centro. É legal. Pego o ônibus, sabe, e depois que já trabalhei num bairro inteiro, vou para outro lugar. Entende o que estou dizendo? Ei, já tive filhos uma época. Igual a você”, disse

Esperei com as xícaras na mão e fiquei olhando enquanto ele lutava para se levantar do sofá.

Ele disse: “Foram eles que me causaram isto aqui”.

Dei uma boa olhada naqueles ganchos.

“Obrigado pelo café e por me deixar usar o seu banheiro. Sinto muito.”

Ergueu e baixou seus ganchos.

“Me mostre”, falei. “Me mostre quanto é. Tire mais umas fotos de mim e da minha casa.”

“Não vai dar certo”, respondeu. “Eles não vão voltar.”

Mas eu o ajudei a se encaixar nas suas alças.

“Posso fazer um desconto para você”, disse ele. “Três por um dólar”, disse. “Se eu fizer mais barato que isso, não ganho nada.”

Fomos para fora. Ele ajustou o obturador. Disse onde eu tinha de ficar e tiramos a foto.

Demos a volta na casa. Sistemáticos. Às vezes, eu olhava meio de lado. Outras vezes, olhava de frente para a câmera.

“Ficou bom”, disse ele. “Esta ficou boa”, disse, depois que tínhamos dado a volta inteira na casa e estávamos na frente outra vez. “São vinte. Já chega?”

“Não”, falei. “No telhado”, falei.

“Nossa”, disse ele. Olhou para os dois lados do quarteirão. “Claro”, disse.

“Assim é que se fala.”

Eu disse: “A galera toda de uma vez. Eles simplesmente pegaram as coisas e se mandaram”.

“Olhe só isto!”, disse o homem, e levantou de novo os ganchos para mim.

Entrei e voltei com uma cadeira. Coloquei debaixo do abrigo para carro. Mas ainda não dava para alcançar. Então peguei um caixote e coloquei em cima da cadeira.

Estava bom lá em cima do telhado.

Fiquei de pé e olhei em volta. Acenei com a mão e o homem sem mãos acenou em resposta com seus dois ganchos.

Então vi as pedras. Parecia um pequeno ninho de pedras ali em cima da tela, sobre o buraco da chaminé. Sabe como são as crianças. Sabe como elas jogam as pedras para o alto, tentando acertar no buraco da chaminé da gente.

“Pronto?”, perguntei, e peguei uma pedra, e esperei até que ele me enquadrasse em seu visor.

“Certo!”, respondeu.

Estiquei o braço para trás e berrei: “Agora!”. Joguei aquela filha da puta o mais longe que consegui.

“Não sei”, ouvi ele gritar. “Não tiro fotos em movimento.”

“De novo!”, berrei, e peguei outra pedra.

* * * * *

Visor

(versão original, publicada em Iniciantes)

Um homem sem mãos apareceu na minha porta para me vender uma fotografia da minha casa. A não ser pelos ganchos cromados, era um homem de aspecto comum, de mais ou menos cinquenta anos.

“Como você perdeu as mãos?”, perguntei, depois que ele disse o que queria dizer.

“Isso é uma outra história”, respondeu. “Quer esta foto da sua casa ou não?”

“Entre um pouco”, falei. “Acabei de fazer um café.”

Tinha acabado de fazer também uma gelatina, mas não lhe contei isso.

“Acho que vou usar o seu banheiro”, disse o homem sem mãos.

Eu queria ver como ele fazia para segurar uma xícara de café usando aqueles ganchos. Eu sabia como ele usava a câmera. Era uma velha câmera Polaroid, grande e preta. Ficava presa a tiras de couro que passavam por cima dos ombros e em volta das costas, mantendo a câmera segura ao seu peito. Ele ficava na calçada na frente de uma casa, enquadrava a casa no visor da câmera, apertava a alavanca com um dos ganchos e, mais ou menos num minuto, tinha pronta uma fotografia. Eu ficava olhando pela janela.

“Onde você disse que fica o banheiro?”

“Ali adiante, vire à direita.”

Naquela altura, curvando-se e retorcendo-se, ele tinha se livrado das tiras de couro. Colocou a câmera no sofá e ajeitou o paletó.

“Pode dar uma olhada nisto aqui, enquanto eu vou ao banheiro.”

Peguei a fotografia da mão dele. Havia um pequeno retângulo de gramado, a entrada para o carro, o abrigo do carro, a escadinha da entrada da casa, o janelão, a porta da cozinha. Por que eu ia querer uma foto daquela tragédia? Olhei com mais atenção e vi a silhueta da minha cabeça, minha cabeça, por trás da janela da porta da cozinha, a alguns passos da pia. Fiquei olhando para a fotografia durante um tempo e então ouvi o barulho da descarga da privada. Ele veio pelo corredor, de braguilha fechada e sorrindo, um gancho segurava o cinto, o outro enfiava a camisa para dentro da calça.

“O que o senhor acha?”, perguntou. “Está legal? Pessoalmente acho que saiu bem, mas afinal eu conheço o meu trabalho e, vamos ser francos, não é difícil fotografar uma casa. A menos que o tempo esteja horrível, mas quando o tempo está horrível eu não trabalho, só em interiores. Trabalho especial, sabe como é.” Puxou o gancho da calça.

“Aqui está o seu café”, falei.

“Está sozinho, não é?” Olhou para a sala de estar. Balançou a cabeça. “É duro, é duro.” Sentou-se junto à câmera, inclinou-se para trás com um suspiro e fechou os olhos.

“Tome o seu café”, falei. Sentei numa cadeira de frente para ele. Uma semana antes, três garotos com bonés de beisebol tinham vindo à minha casa. Um deles disse:

“A gente pode pintar o endereço do senhor no meio-fio? Todo mundo na rua está fazendo isso. É só um dólar.” Dois garotos esperavam na calçada, um deles com uma lata de tinta branca aos seus pés, o outro segurava um pincel. Os três garotos estavam de mangas arregaçadas.

“Três garotos passaram por aqui querendo pintar o meu endereço no meio-fio. Também cobraram um dólar. Você não sabe nada sobre isso, não é?” Foi um tiro no escuro. Mesmo assim, fiquei olhando bem para ele.

O homem inclinou-se para a frente com um ar importante, a xícara balançava entre os seus ganchos. Colocou a xícara na mesinha com todo o cuidado. Olhou bem para mim. “Isso é uma loucura, sabe? Eu trabalho sozinho. Sempre foi assim, e sempre vai ser. O que está querendo dizer?

“Estava tentando fazer uma ligação”, falei. Eu estava com dor de cabeça. Café não é bom para isso, mas gelatina às vezes ajuda. Peguei a foto. “Eu estava na cozinha”, falei.

“Eu sei. Vi você da rua.”

“Quantas vezes acontece isso? Pegar alguém na foto junto com a casa? Em geral, fico nos fundos.”

“Acontece toda hora”, respondeu. “É venda garantida. Às vezes as pessoas me veem fotografando a casa, saem e me pedem para que apareçam na foto. Às vezes a dona da casa quer que eu tire a foto do maridão lavando o carro. Ou então o filhão está trabalhando com o cortador de grama e ela diz, fotografa ele, fotografa ele, e eu vou e fotografo. Ou então a familiazinha está reunida no pátio para um lanchinho bacana e eles perguntam se eu não posso fotografar.” Sua perna direita começou a tremer. “Então, quer dizer que eles se mandaram e deixaram você para trás, não foi? Fizeram as malas e foram embora. Isso magoa a gente. De crianças, eu não sei nada. Não quero mais saber. Não gosto de crianças. Não gosto nem dos meus filhos. Trabalho sozinho, como já disse. E a foto?”

“Fico com ela”, respondi. Levantei para pegar as xícaras. “Você não mora por aqui. Onde mora?”

“No momento, tenho um quarto no centro. É legal. Pego o ônibus, sabe, e depois que já trabalhei num bairro inteiro, vou para outro lugar. Há maneiras melhores de viver, mas eu vou levando.”

“E seus filhos?” Esperei com as xícaras na mão e fiquei olhando, enquanto ele lutava para se levantar do sofá.

“Que se danem! E a mãe deles também! Foram eles que fizeram isto comigo.” Levantou os ganchos na frente da minha cara. Virou-se e começou a pôr nos ombros as tiras de couro. “Eu até que gostaria de perdoar e esquecer, sabe, mas não consigo. Ainda dói. Esse é o problema. Não consigo perdoar nem esquecer.”

Olhei de novo para os ganchos enquanto manejavam as tiras de couro. Era fantástico ver o que ele era capaz de fazer com aqueles ganchos.

“Obrigado pelo café e por me deixar usar o banheiro. Vejo que você está comendo o pão que o diabo amassou. Tenho pena de você.” Levantou e abaixou os ganchos. “O que posso fazer?”

“Tire mais fotos”, falei. “Quero que tire fotos de mim e da casa.”

“Não vai dar certo”, respondeu. “Ela não vai voltar.”

“Não quero que volte”, falei.

Ele bufou. Olhou para mim.

“Posso fazer um desconto”, disse ele. “Três por um dólar? Se eu fizer mais barato que isso, não ganho nada.”

Fomos para o lado de fora. Ele ajustou o obturador. Disse para eu ficar parado e tiramos a foto. Demos a volta na casa. Muito sistemáticos, nós dois. Às vezes, eu olhava meio de lado. Outras vezes, eu olhava de frente para a câmera. Ir para o lado de fora ajudou bastante.

“Está bom”, dizia ele. “Esta ficou boa. Esta aqui ficou muito boa mesmo. Deixe eu ver”, disse, depois que tínhamos dado a volta inteira na casa e estávamos de volta à entrada  do carro. “São vinte. Quer mais?”

“Mais duas ou três”, falei. “Uma do telhado. Vou subir e você pode me fotografar aqui de baixo.”

“Nossa”, disse ele. Olhou para os dois lados da rua. “Bem, claro, vamos lá… mas tome cuidado.”

“Você estava certo”, falei. “Eles simplesmente pegaram as coisas e se mandaram. A galera toda de uma vez. Você acertou em cheio.”

O homem sem mãos falou:

“Você nem precisava dizer nada. Percebi logo, na hora em que você abriu a porta.” Balançou os ganchos para mim. “Você está com a sensação de que, do dia para a noite, ela levou embora até o chão onde você pisa! E de quebra levou até as suas pernas. Olhe só para isto! É isto o que eles deixam para a gente. Quero que se danem”, falou. “Vai subir mesmo no telhado ou não vai? Tenho mais o que fazer”, disse o sujeito.

Eu trouxe uma cadeira para o lado de fora e coloquei debaixo da beirada do abrigo do carro. Ainda não dava para alcançar. Ele ficou na entrada do carro olhando para mim. Achei um caixote e coloquei em cima da cadeira. Subi na cadeira e depois no caixote. Subi no abrigo do carro, andei até o telhado e fui em frente de gatinhas, sobre as telhas, até um local pequeno e liso perto da chaminé. Fiquei de pé e olhei em volta. Havia uma brisa. Acenei com a mão e ele acenou em resposta com os dois ganchos. Então vi as pedras. Tinha um pequeno ninho de pedras ali em cima da tela, sobre o buraco da chaminé. Os garotos deviam ter jogado as pedras ali em cima, tentando acertar no buraco da chaminé.”

Peguei uma das pedras.

“Pronto?”, perguntei.

“Sim”, respondeu.

Virei e estiquei o braço para trás.

“Agora!”, gritei. Joguei aquela pedra o mais longe que consegui, para o sul.

“Não sei”, ouvi a voz dele. “Você se mexeu”, falou. “Vamos ver num minuto”, e num minuto ele disse. “Puxa, ficou legal.” Olhou para a foto. Levantou-a. “Quer saber?”, disse ele. “Ficou muito legal.”

“Mais uma, de novo”, gritei. Peguei outra pedra. Sorri. Senti que eu podia me elevar. Voar.

“Agora!”, gritei.