Do outro lado da mesa

Por Luiz Schwarcz


Editores e agentes negociam direitos de livros na Feira de Frankfurt. (Acervo Frankfurt Book Fair)

A primeira vez que senti vontade de escrever, foi para escapar da depressão. Na época, estava com trinta e quatro anos, a Companhia das Letras existia havia quatro, e eu conhecera o sabor do sucesso, tanto no Brasil como em Frankfurt.

Em agosto de 89, eu havia publicado o romance de uma jovem escritora, Ana Miranda, chamado Boca do Inferno, indicado para a editora, na ocasião com grande discrição, por Rubem Fonseca, que apenas me enviara o livro dizendo:

— Luiz, acho que você vai gostar. Eu recebo muitos originais de jovens escritores, não te incomodo com eles, mas este vale a pena você ler e ver se interessa para a Companhia das Letras.

Rubem era bem amigo de Ana, nada me falou sobre isso, mas o livro era mesmo muito especial e marcava a estréia de um promissor talento da literatura brasileira. No lançamento, vários jornalistas compararam Boca do Inferno com O nome da Rosa de Umberto Eco, Memórias de Adriano de Margerith, entre outros romances históricos, em voga na época. Preparei então algo que não se fazia com autores brasileiros: encomendei tradução de trechos do romance e das resenhas para o inglês, reproduzimos as listas de mais vendidos e enviamos a Ray-Gude Mertin, agente que representava vários autores brasileiros na Europa. Falei a Ray que achava que poderíamos emplacar o livro na Feira de Frankfurt, e foi o que aconteceu.

O estande coletivo brasileiro, tradicionalmente organizado pela Câmara Brasileira do Livro, nunca havia recebido tantos e tão importantes editores estrangeiros como viria a receber naquele ano, todos atrás de um editor com o sobrenome alemão (meu pai era, no entanto, de origem húngara) e um livro escrito numa língua pouquíssimo traduzida.

Todos corriam atrás do thriller envolvendo o poeta barroco Gregório de Matos, em plena Bahia colonial, sobre o qual apenas haviam ouvido falar nos corredores da Feira. Estava em ação a maluca espiral de rumores que informalmente ocorre em Frankfurt, onde milhares de editores se fecham por cinco dias, à cata de novos livros, mas desta vez o romance premiado era nosso. A estratégia dera mais certo do que eu poderia sonhar. Com a agenda lotada de encontros para a compra de direitos de livros estrangeiros, eu tinha que voltar às pressas ao nosso estande, para encontrar bilhetes de editores da Gallimard, da Surkhamp, da Viking, da Mondadori… todos querendo comprar no escuro, apenas a partir da leitura dos pareceres das editoras alemãs, ou do boca a boca que se criara na Feira, o “romance da tal Companhia das Letras”.

Os editores que me encontravam por acaso, debaixo das cafonas samambaias do estande brasileiro, faziam o que chamávamos de blind-offers. Outros deixavam bilhetes sedutores e voltavam n vezes à minha procura. A todos eu dizia que não aceitaria ofertas sem que o livro fosse lido, e que não escolheria a editora apenas pelo critério financeiro. Assegurava que enviaria os originais de Boca do Inferno logo que chegasse ao Brasil, para que fosse avaliado com calma; até porque havia planejado uma viagem à Itália após a Feira, para descansar uns dias com a Lili.

Em Veneza hospedamo-nos num minúsculo hotel, que havia comprado sua primeira máquina de fax naquela semana. Se os donos do local desejavam testar o novo aparelho, eu proporcionei a eles mais do que desejavam. O fax não parou desde que coloquei os pés no hotel. No entanto, quanto mais eu dizia que não aceitava blind offers, mais elas chegavam, e em valor cada vez maior: “ele não aceita, é, então dobramos!”. Era assim que os melhores editores do mundo reagiam, para meu espanto.

Enquanto isso, no Brasil, meu avô materno, então doente, com um mapa na mão, acompanhava o que deveria ser meu percurso pelo Norte da Itália. Fora ele que me fizera manter a viagem a Frankfurt e depois à Itália, apesar do meu receio com sua saúde. Depois de dois dias em Veneza, tive um mau pressentimento ao ouvir a voz de minha mãe ao telefone e resolvi cancelar o resto da viagem, voltando rapidamente ao Brasil, para encontrar meu avô ainda com o mapa da Itália na cabeceira da cama, mas prestes a ser levado ao hospital, onde viria a falecer três dias depois. No primeiro dia das rezas que caracterizam o luto judaico, e que duram uma semana, o telefone tocou. Era um editor inglês que descobrira o número da casa de minha avó, e ligava para aumentar sua oferta.

Alguns meses depois dessa experiência, tive uma séria fratura na perna e precisei ser operado. Em fase de recuperação, resolvi ir à ABA (era assim que se chamava a feira de livros dos livreiros americanos, que na época eu costumava frequentar). Em Nova York fazia um calor infernal. Bastante deprimido por conta da morte do meu avô, com quem tinha uma relação fortíssima, e pelos resquícios da operação, eu andava com dificuldade, com a perna ainda mais inchada devido às altas temperaturas.

Marquei um almoço com minha amiga Carol Janeway, da editora Knopf, uma das únicas que acabou não ofertando para Boca do Inferno. No caminho para o restaurante, suando em bicas, eu pensava no que havia ocorrido com esse livro, no comportamento dos melhores editores do mundo, que acabaram comprando o título por valores altíssimos, motivados pela competição que se iniciara em Frankfurt.

Durante o almoço, Carol me elogiou, achando que eu recusara as ofertas de propósito para aumentar o valor dos adiantamentos. Disse que achava que o livro não iria vender o suficiente, na Europa e nos Estados Unidos, para pagar os polpudos valores oferecidos, mas que minha estratégia tinha sido ótima.

— Que estratégia, Carol? Eu apenas não quis vender um livro no escuro, o que para mim é inaceitável.

Carol riu como quem não acredita, e eu acrescentei:

— Ok, você não acredita, então façamos o seguinte: no ano que vem, eu e você levamos para Frankfurt um livro inexistente,  preparamos uma capa, orelha, press release, resenhas, lista de mais vendidos, tudo inventado, e aí tentamos vendê-lo juntos para ver no que dá.

Carol deu uma boa gargalhada e mudamos de assunto.

Ao chegar ao Brasil, deprimido, tive minha primeira crise com a profissão de editor. Acho que sublimava a perda do meu querido avô, justamente com dúvidas sobre a profissão que escolhi, em detrimento da que o velho Giuseppe desejava para mim, como herdeiro da gráfica que ele criara.

Foi nessa ocasião que resolvi escrever o que deveria ser o meu primeiro livro de ficção, uma história que tinha como narrador um editor desiludido, que inventava um romance inexistente e o levava a Frankfurt para ser apresentado aos melhores editores do mundo. O tema do falso romance era a busca por um manuscrito perdido de uma sinfonia de Berlioz, baseada (sic) numa obra também inédita de Shakespeare, o teatrólogo que o compositor francês de fato idolatrava. O livro fajuto estourava na Feira da Alemanha, e o editor em apuros voltava ao Brasil, largava sua pequena editora, de uma hora para outra, nas mãos da sua pobre namorada, e se refugiava em Atibaia, a fim de escrever a obra que vendera para mais de uma dezena países. O enredo do tal romance tinha mais umas tantas besteiras que me envergonho até de lembrar. É claro que nunca o escrevi.

Depois de alguns anos, mais uma vez voltando de Frankfurt, parei por Budapeste, cidade onde meu pai passou sua infância durante a Segunda Guerra. Fui visitar o prédio onde sua família viveu. Só pude ver a sacada do pequeno apartamento do meu outro avô, o tapeceiro, em que se realizavam durante a guerra cultos religiosos clandestinos, e de onde ele e meu pai foram levados para o campo de concentração — lá meu avô paterno veio a falecer. Chorei por quase uma hora, no pequeno quintal do prédio, sem saber o porquê, e resolvi, pela segunda vez, que escreveria um livro.

Seria sobre um menino que não conhecia bem o passado do pai, e ficava (nos capítulos ímpares) imaginando-o na pele de vários super heróis, personagens de ópera, quadrinhos, filmes, enquanto nos capítulos pares era narrada a sua história, centrada principalmente na sobrevivência heróica durante a guerra.

De fato, eu pouco sabia sobre o passado do meu pai, sobre o qual ele falara apenas uma vez, quando eu tinha dezessete anos, e nunca mais.

Esse livro também nunca passou para o papel, ou melhor, acabou se transformando em Minha vida de goleiro, um livro para crianças ou jovens e sem nenhum conteúdo ficcional.

Às vésperas de lançar mais um livro, lembro-me desses dois que nunca escrevi, desta vez para sublimar a ansiedade que acomete a maioria dos autores antes da publicação. Como editor experiente, eu não imaginava vivenciar este tipo de sentimento. No entanto, tenho que confessar que, pelo contrário, eu talvez sinta tudo isso de maneira ainda mais acentuada do que os demais autores que conheci do outro lado da mesa.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiroDiscurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora em setembro. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.