O colecionador de mundos

Ilija Trojanow, um dos grandes nomes da nova geração da literatura alemã, veio ao Brasil a convite do Goethe-Institut para o lançamento de seu livro O colecionador de mundos, uma ficção biográfica sobre a vida do explorador inglês sir Richard Francis Burton.

Trojanow já esteve em Manaus, Salvador e Porto Alegre, e gentilmente aceitou escrever para o blog um texto sobre sua viagem até agora. Hoje, às 19h, ele estará no Goethe-Institut de São Paulo, para o lançamento de seu livro e mesa redonda com Marcos Flamínio Peres e Joca Reiners Terron.

Na sexta-feira ele estará no Goethe-Institut do Rio de Janeiro, onde participa de mesa redonda com Marcelo Backes e Miguel Conde, às 18h30. Os debates terão tradução simultânea, e ao fim dos eventos haverá sessões de autógrafos do livro.

Leia duas matérias sobre o lançamento: “Alemão investiga o choque entre culturas” (Folha de S. Paulo, apenas para assinantes) e “Os mundos de Richard Burton” (O Estado de S. Paulo)

* * * * *

Relato de Ilija Trojanow sobre sua viagem ao Brasil, traduzido por Vanessa Barbara.

Viajar do Amazonas à Bahia e daí para o Rio Grande do Sul — partindo do Brasil índio para chegar ao africano e ao europeu — é uma fascinante celebração da diversidade.

Manaus: A confluência do Rio Negro com o Solimões não é só uma das maiores do mundo, mas também exemplifica o próprio conceito de confluência. Os dois rios são tão diferentes que não se misturam, se confrontam; há uma fronteira tão evidente entre ambos que é possível conduzir o barco no limite da separação entre as águas claras e escuras. O Rio Negro tem um pH de 4,5, e o Solimões de 7,6; o Rio Negro tem a temperatura de 28 graus, o Solimões, de 22; o primeiro é muito arenoso, e o outro contém basicamente lama e sedimentos; o Rio Negro corre a uma velocidade média de 1,5 km/h, o Solimões é mais rápido, com 4 km/h — nada poderia uni-los, ou, nas velhas palavras de Kipling, “ambos jamais se encontrarão”. No entanto, o curso do rio acaba forçando a convivência entre as águas claras e escuras, que de início dividem o mesmo leito, correndo em paralelo, mas aos poucos começam a convergir, mesclando-se, até que a menos de 15 ou 20 quilômetros dali não haja qualquer memória visual das duas identidades, nem traço daquela prévia distinção. As águas tornaram-se uma só, com uma nova temperatura, novo pH, nova velocidade e contendo tanto lama quanto areia. É uma visão comovente para quem acredita nos poderes criativos e reconfortantes da confluência cultural.

Salvador: Quase todos os rostos que vemos na rua são negros, quase todos os que estão estampados nas propagandas políticas são brancos. Nas conversas, há um desânimo geral com a escassez de representação política dos afro-brasileiros. E há uma tendência a procurar “tradições puras”. Por isso um guia me explicou que o candomblé não é uma religião sincrética, já que os elementos católicos não passam de camuflagem. Contudo, é impossível usar uma máscara durante séculos sem ter sido modificado pela experiência. A simplicidade da pureza é tão atraente, errada e perigosa.

Porto Alegre: Levei um só dia para me tornar gremista (prefiro o azul ao vermelho, e torço sempre para o time mais fraco). Então fui ao estádio e eles venceram o jogo. A diferença entre Brasil e Alemanha está na riqueza cultural dos gritos das torcidas: no Brasil, há canções com longas estrofes, enquanto na Alemanha temos só um lema ou dois. Em campo, as diferenças desapareceram por completo (como Eduardo Galeano tão bem observou) — trata-se de um futebol globalizado, desprovido de quaisquer diferenças regionais de estilo. A torcida é mais interessante que os jogadores. E eu sou agora um orgulhoso proprietário de uma bela camisa do Grêmio, que pretendo usar quando minha camisa de rugby da Nova Zelândia estiver na lavanderia.

Brasil: Uma pergunta ao novo presidente (provavelmente uma mulher cujo pai era búlgaro, como o meu). De que forma o Brasil pretende sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos quando quase ninguém fala uma palavra de inglês (ou francês, alemão etc.)? O sobrenome Rousseff deriva da cidade mais cosmopolita da Bulgária — Ruse, terra natal de Elias Canetti. Muitos dos habitantes de lá costumam falar inúmeros idiomas. Trata-se de uma ascendência que vale a pena ser resgatada. Ser multilíngue é uma necessidade no mundo moderno, sobretudo quando se pretende tornar-se potência mundial.

5 Comentários

  1. Neusa Maria Mendes Borges disse:

    Que imagem perfeita usada pelo escritor ao ilustrar a confluência cultural com o encontro das águas dos rios Solimões e Negro!!!
    Quero conhecer a sua coleção dos mundos!

  2. Adriana de Godoy disse:

    Interessante como um bom escritor estrangeiro visualiza um Brasil maravilhoso, um Brasil que às vezes os próprios brasileiros se recusam a ver.

  3. Carlos disse:

    *aos livros dele

  4. Carlos disse:

    “Levei um só dia para me tornar gremista (prefiro o azul ao vermelho, e torço sempre para o time mais fraco)”
    Sugiro que a Companhia das Letras peça a Ilija Trojanow que este escreva uma retratação à torcida gremista, pois, apaixonados como são, é bem possível que esta organize um boicote aos dele!
    Como sou cruzeirense, não terei problema nenhum para comprar “O Colecionador de Mundos”.

  5. […] This post was mentioned on Twitter by Joca Reiners Terron, João Matias, Rafael Pinheiro , Pedro Lucas, Casmurros and others. Casmurros said: Ele também escreveu no blog da @cialetras… http://bit.ly/cAsfoc […]

Deixe seu comentário...





*