O Palácio de Inverno

Fachada do Palácio de Inverno, que servia de residência para os czares russos durante o inverno e que hoje funciona como parte do Museu Estatal do Hermitage. (Foto por Zubro)

A Bienal do Livro de São Paulo começa esta semana, e John Boyne, autor de O menino do pijama listrado, estará lá nos dias 15 e 16, domingo e segunda-feira, participando do Salão de Ideias e dando autógrafos (confira toda a programação cultural no site da Bienal).

Abaixo você lê o começo do novo livro de Boyne, O palácio de inverno (tradução de Denise Bottmann), sobre Geórgui Jachmenev, um garoto russo de origem simples que, aos dezesseis anos, impede um atentado contra o irmão do czar Nicolau II, que então o nomeia guarda-costas de seu filho Alexei. Vindo de uma origem simples, ele se vê catapultado para um mundo de luxo e intrigas palacianas, às vésperas da Revolução Bolchevique. Em 1981, agora cidadão britânico e funcionário aposentado da biblioteca do Museu Britânico, o octogenário Jachmenev, enquanto vela pela saúde da esposa Zoia, deixa a memória flutuar, recordando aleatoriamente os fatos de sua vida, grande parte deles ligados diretmente a eventos históricos que transformaram o século XX.

John Boyne também estará na Livraria Saraiva do Shopping Higienópolis no dia 16, segunda-feira, às 19h30.

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1981

Meus pais não foram felizes no casamento.

Passaram-se anos, décadas, desde a última vez que aturei a companhia deles, mas ambos me voltam à lembrança quase todos os dias, por alguns instantes, não mais do que isso. Um sussurro da memória, tão leve como o hálito de Zoia em meu pescoço quando dorme de noite a meu lado. Tão suave como seus lábios em meu rosto quando me beija à primeira luz da manhã. Não sei exatamente quando morreram. Não sei nada sobre a morte deles, além da certeza natural de que já não pertencem mais a este mundo. Mas penso neles. Ainda penso neles.

Sempre imaginei que meu pai, Daniel Vladiavitch, morreria primeiro. Ele já tinha trinta e poucos anos quando nasci e, pelo que me recordo, nunca foi abençoado com uma boa saúde. Tenho lembranças de acordar, quando criança, em nossa pequena isbá de madeira em Cáchin, no Grão-Ducado de Moscóvia, tapando minhas orelhas miúdas com as mãos para afastar o som de sua mortalidade, enquanto ele se engasgava, tossia e cuspia o catarro na pequena fornalha que ardia em nossa sala de estar. Agora imagino que devia ter problema nos pulmões. Enfisema, talvez. Difícil saber. Não havia médicos para atendê-lo. Nem remédios. E ele não portava suas várias doenças com firmeza ou elegância. Quando sofria, sofríamos também.

A testa se projetava de sua cabeça como uma protuberância grotesca, lembro isso também. Uma grande massa de membrana disforme se adensava em volumes menores de ambos os lados, a pele muito esticada desde a linha dos cabelos até a reentrância do nariz, repuxando as sobrancelhas para cima, o que lhe dava uma expressão de ansiedade constante. Certa vez, minha irmã mais velha, Lisca, me contou que foi um acidente na hora do parto, um médico incompetente que o pegou pelo crânio quando vinha ao mundo, em vez de puxá-lo pelos ombros, e apertou demais o osso ainda macio e não solidificado. Ou uma parteira displicente, talvez, sem cuidado com o filho de outra mulher. A mãe não viveu para ver a criatura que tinha gerado, o bebê defeituoso com a cabeça deformada. A vida de meu pai custou a vida de minha avó. Não era coisa incomum na época e raramente motivo de luto — um equilíbrio da natureza. Hoje, seria algo inesperado e processo na certa. Meu avô logo arranjou outra mulher, claro, para criar o filho.

Quando eu era pequeno, os outros meninos da aldeia ficavam em polvorosa ao ver meu pai vindo pela estrada na direção deles, dardejando o olhar à frente e atrás quando voltava do trabalho no campo para casa, talvez, ou brandindo o punho ao sair da cabana de algum vizinho depois de mais uma discussão sobre o montante de alguma dívida ou sobre pretensos insultos sofridos. Punham-lhe nomes e gritavam empolgados — chamavam-no de Cérbero, o cão de três cabeças do Hades, e zombavam dele tirando os colbaques, fincando os pulsos na testa e agitando as mãos feito loucos enquanto entoavam seus gritos de guerra. Não temiam qualquer castigo por se comportar assim na minha frente, o único filho dele. Faziam-lhe caretas pelas costas e escarravam no chão imitando seu costume, e quando ele se virava para urrar como um animal ferido a criançada se dispersava, como grãos de cereal arremessados num campo, sumindo na paisagem com a mesma rapidez. Riam dele; parecia-lhes assustador, monstruoso e repugnante, tudo ao mesmo tempo.

Ao contrário dos meninos, eu tinha medo de meu pai, pois ele era pródigo em suas pancadas e impenitente em sua violência.

Não tenho nenhuma razão para pensar assim, mas imagino-o voltando para casa em algum final de tarde, logo depois que escapei do vagão de trem em Pscov naquela manhã fria de março, e os bolcheviques caindo em cima dele em retaliação pelo que eu tinha feito. Vejo-me dando uma carreira para atravessar os trilhos e desaparecer na floresta logo adiante, temendo por minha vida, enquanto ele caminha para casa num passo arrastado, tossindo, pigarreando e cuspindo, sem saber que corre perigo mortal. Em minha arrogância, imagino que meu sumiço trouxe uma enorme vergonha para minha família e nosso pequeno casebre, uma desonra que exigia reparação. Imagino um grupo de rapazes da aldeia — em meus sonhos, são quatro; taludos, feios, brutais — derrubando-o a porretadas, arrastando-o da rua para o escuro de um beco com muros altos, na intenção de matá-lo sem testemunhas. Não o ouço gritar por misericórdia, não teria sido assim. Vejo sangue nas pedras onde ele jaz. Vislumbro uma das mãos se mexendo devagar, tremendo, os dedos num espasmo. E então quedando imóvel.

Quando penso em minha mãe, Iulia Vladimirovna, imagino que foi chamada por Deus alguns anos depois, recolhida ao leito, com fome, exausta, minhas irmãs chorando a seu lado. Não consigo imaginar as dificuldades que ela deve ter enfrentado depois da morte de meu pai e não gosto de pensar nisso, pois, embora fosse uma mulher fria e, durante minha infância, não perdesse ocasião de demonstrar sua decepção comigo, mesmo assim era minha mãe, e a mãe da gente é sagrada. Imagino minha irmã primogênita, Ássia, colocando um pequeno retrato meu nas mãos dela no momento de uni-las em oração pela última vez, preparando-se em solene penitência para encontrar o Criador. A mortalha se franze junto ao pescoço fino, o rosto está branco, os lábios com um tom pálido de azul-pervinca. Ássia gostava de mim, mas ficou com inveja quando fugi, lembro isso também. Um dia ela veio ter comigo e eu a mandei embora. Agora sinto vergonha de pensar nisso.

Pode ser que nada disso tenha acontecido, claro. Meus pais e minhas irmãs podem ter tido um outro fim: feliz, trágico, pacífico, violento, juntos, separados, não tenho como saber. Nunca surgiu oportunidade de voltar, nunca tive ocasião de escrever para Ássia, Lisca ou mesmo Talia, que talvez nem se lembrasse do irmão mais velho, Geórgui, o herói e a desonra da família. Voltar seria colocá-los em perigo, colocar-me em perigo, colocar Zoia em perigo.

Mas, por muito tempo que tenha se passado, ainda penso neles. Há longos períodos em minha vida que são um mistério para mim, décadas de faina e família, luta e traição, perda e decepção, que se misturaram e é quase impossível separá-las, mas alguns momentos daqueles anos, daqueles primeiros anos, permanecem e ressoam em minha memória. E se tardam como sombras nos corredores escuros de minha mente que vai envelhecendo, mostram-se ainda mais vívidos e notáveis por jamais poder ser esquecidos. Mesmo que eu logo o seja.

4 Comentários

  1. […] quintal da minha casa 12 agosto 2010, 2:06 pm […]

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Patrícia F. Santin, Juceria Zibell and Cotidiano Livraria, Aline Ap. Ferreira. Aline Ap. Ferreira said: RT @cialetras: John Boyne ("O menino do pijama listrado") estará na @bienaldolivrosp p/ lançar "O Palácio de Inverno". Leia um trecho: http://bit.ly/c8HiiC […]

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