O quintal da minha casa

Por Luiz Schwarcz

Nesta segunda-feira tive que fazer um pequeno discurso para a cerimônia de lançamento do selo Penguin-Companhia das Letras no Brasil. Como sempre, preparei algumas linhas na última hora e resolvi lê-las em vez de simplesmente falar, como prefiro (e que talvez teria sido melhor).

Ao sentar para rabiscar o que iria dizer, a primeira imagem que me veio à mente foi a do quintal de casa, lugar em que fica a biblioteca e escritório da Lili, onde estão meus discos e a TV maior, na qual assistimos a filmes e jogos da seleção. Foi lá que a Companhia das Letras começou, ou melhor, nesse lugar trabalhei no primeiro mês, antes de me mudar para os fundos da gráfica do meu avô.

Foi lá também que comemorei por ter conseguido finalmente conversar com o Caio, quando decidi que queria sair da Brasiliense.

A minha relação com ele se deteriorara, por culpa dos dois. Tive que me ausentar da editora por quase um mês, logo após o nascimento do meu filho Pedro: um parto complicado, de risco para os dois, mãe e filho, seguido de uma cirurgia à qual a Lili teve de se submeter. Eu simplesmente não conseguia sair do hospital, naquele que foi um período sobre o qual eu não admitia nem ouvir falar durante anos.

A condução do dia a dia da Brasiliense estava muito na minha mão, e, ao voltar à editora, soube que o Caio desejava que eu me dedicasse mais à área administrativa — porta pela qual eu havia entrado na empresa — e fosse largando a direção editorial. Havia uma clara disputa entre nós dois pelo controle da editora, apesar da amizade que permanecia inalterada. A rivalidade foi crescendo dos dois lados, sem que nenhum de nós tocasse no assunto. Cada vez mais eu me sentia um editor preparado e tentava levar adiante meu projeto para a Brasiliense, esquecendo que a editora era do Caio Graco e não minha. Um conflito de lealdades se formou entre nós, ele desejando permanecer fiel a um público de dezesseis a vinte e quatro anos, e eu devotando minha fidelidade ao público que com essa idade começara a ler a coleção Primeiros Passos, mas que crescia e amadurecia. Eu forçava a linha editorial para outros focos que não a coleção com a qual a grande mudança começara. Além disso, à minha ego trip — fotos nos jornais, entrevistas, convites a festas etc. —, Caio respondia com a voz da experiência, e com certo e justificado ciúme. A amizade era tão forte e havia tal gratidão mútua que o ambiente entre nós dois permanecia bom. No entanto, dentro de mim eu notava que um sentimento ruim crescia e que o próximo passo (desculpem o trocadilho) seria perigoso.

Era difícil deixar a Brasiliense. Afinal, eu me sentia um pouco pai daqueles livros todos, e tinha muito orgulho do caminho trilhado. A editora se profissionalizara em muitos sentidos, e eu havia sido parcialmente responsável pelo momento feliz que vivíamos na rua General Jardim, um endereço sem o charme da Barão de Itapetininga, mas que continuava a atrair muitos autores, interessados no debate cultural que emanava das páginas da Leia livros, e das novas coleções que publicávamos.

Esperei alguns meses até a Lili escrever e apresentar sua tese de mestrado, realizada em meio a uma situação de saúde adversa, e no dia seguinte pedi para falar com o Caio, que de forma alguma esperava por aquela conversa. Eu não sabia o que faria, sonhava com uma editora própria, esboçara o que se chama um business plan para amigos que haviam me convidado para uma aventura editorial, mas nada havia saído do papel até aquele momento.

A decisão de sair da editora acabou se precipitando, mesmo que eu ainda não tivesse um plano claro do que fazer. Caio ouviu com generosidade minha voz embargada, levou um susto, abriu um garrafa de whisky que guardava em sua sala, e na qual eu nunca vira ele tocar, e me ofereceu sociedade na Brasiliense. Pediu que eu pensasse por um mês, considerasse melhor, e aí voltássemos a falar.

Aceitei o pedido e voltei para casa aliviado por ter tido a coragem de conversar sobre o tema; posto para fora o que guardara por tantos meses, em respeito ao momento pessoal da minha mulher. Cheguei no quintal, coloquei o último long play dos Rolling Stones, Dirty work, na faixa “Harlem shuffle”, tirei a roupa e dancei sem parar. Dois meses depois eu começaria a escrever uma carta aos autores e amigos comunicando a abertura da nova editora. O nome surgiu de uma conversa com o querido amigo José Paulo Paes, que acompanhara todo esse processo com interesse e carinho paternal. Zé Paulo, a quem fui pedir todo o tipo de conselho, sugeriu que a editora se chamasse Letras & Companhia. Eu inverti a sugestão e pensei numa caravela como logotipo ideal. A viagem estava por começar.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro e Discurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.