O silêncio da splash page (1)

Por Erico Assis

Em Cachalote, perto do final do primeiro capítulo, o filhinho-de-papai Ricardo Aurélio chega a Paris, encontra na rua um casal de amigos brasileiros e troca contatos. O casal despede-se e segue seu rumo. Ricardo acende um cigarro e parte para o outro lado. Então vira-se para, por cima do ombro, observar os que se afastam.

O olhar de Ricardo, enquanto solta fumaça pelo nariz, toma uma página inteira. Uma grande massa branca, vazia, empurra os desenhos para o canto inferior direito. Na linguagem clássica dos quadrinhos, caberia ali um grande balão de pensamento em que Ricardo reflete sobre o encontro que acaba de ter e constrói planos cínicos para tirar proveito dos conhecidos. Não é necessário, claro. O olhar do personagem e a grande massa branca já dizem muito do que passa na sua cabeça.

Existe algo de único e incomparável na splash page — o nome que os americanos dão para os quadros de página inteira nas HQs. Nos gibis de super-herói, a página que abre a história é geralmente uma splash — traz alguma cena impactante, ou um panorama para situar a ação. Também está no meio da história quando se chega a um clímax. O objetivo técnico é o mesmo: a página inteira só pode ser vista pela visão periférica, então a splash faz o olho do leitor passear pelo grande quadro, demorar-se em um único momento estático.

Na graphic novel autobiográfica Stitches, David Small reconta a visita ao psiquiatra onde teve que encarar a verdade mais difícil sobre os pais. Small, adolescente, agarra-se às pernas do terapeuta e começa a chorar. O choro vira oito páginas de chuva, sendo a primeira e as três últimas splashes — a narrativa acelera e desacelera-se com um efeito que pode ser comparado… à câmera lenta? A uma panorâmica demorada? Ao piano da trilha sonora? Tudo isso, mas algo mais.

Em Umbigo sem fundo, a sequência que encerra a segunda parte da história é composta só de splashes. À primeira vista ela pode ser comparada a recursos de montagem do cinema, quando algo de trágico ou climático está para acontecer. Mas Shaw começa com um quadro minúsculo, deixando o branco tomar a página, e a cada folha aumenta o tamanho do quadro. O virar de páginas do leitor fica mais frenético que nas cenas anteriores.

Não é possível analisar estas splashes, de Cachalote a Umbigo sem fundo, de Stitches ao trabalho autoral de Frank Miller, entre tantos outros exemplos contemporâneos, como se analisa uma pintura ou uma fotografia. As páginas fazem parte de uma sequência de imagens. Seu significado vem justamente por situar-se em certa posição de uma narrativa. Também não é possível analisá-la como uma cena do cinema, por mais que quadrinhos e cinema sejam narrativas com imagens.

No cinema, além do quadro ser sempre do mesmo tamanho, os personagens movimentam-se e a trilha sonora (incluindo falas, efeitos e música) também dará tom à cena. Há também a expressividade da fotografia — que, se comparada à expressividade do traço nos quadrinhos e à infinita possibilidade de estilos de desenho, prova-se bastante limitada. Além disso, há uma diferença básica: sou eu que viro as páginas no quadrinho, enquanto o cinema me define um tempo.

A linguagem dos quadrinhos baseia-se em modular o tempo. Acompanho uma sequência de quadros na página, com tamanhos e angulações variados, e aquelas imagens estáticas em conjunto me sugerem uma narrativa que acontece em determinado espaço de tempo, que pode ou não ser o mesmo que levo para ler. A splash page bem construída consegue mexer com o ritmo da história. Cria outro tempo, faz o mundo parar. Buscamos algum ponto de comparação com o cinema ou a literatura, mas o efeito é único.

Em suma: não há como se ter o efeito de uma splash page em outra linguagem que não a dos quadrinhos.

(Continua na próxima coluna)

* * * * *

Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

7 Comentários

  1. […] para se chegar ao nível de emoção pretendida pelos autores. Quando se sente o impacto da única splash page (um único quadro que ocupa toda a página) da obra, entende-se melhor […]

  2. […] um quadro inteiro da história, comuns nas graphic novels (no Blog da Companhia das Letras, há um texto de Erico Assis explorando as splash pages em […]

  3. […] duas versões de Raymond Carver 25 agosto 2010, 12:26 pm Colunistas Erico […]

  4. Oi, Erico!
    Gostei bastante do teu texto. Há alguns meses, comecei a consumir as graphic novels. A primeira que li foi “Umbigo Sem Fundo”. Logo de início comecei a comparar os quadros como os frames do cinema. Principalmente pelos recursos usados por Dash Shaw, conforme o que você citou. Também concordo com o tempo de leitura que as graphic novels nos dá, aliás, nos possibilita o tempo que for necessário; diferentemente do cinema.
    Obrigado por nos trazer alguns significados das splash-pages.
    Um abraço.

  5. Arthur disse:

    Quando fui fazer o post da semana, quase citei este aqui sobre splash-pages, ao me referir ao Asterios Polyp (só não o fiz porque já ficou meio longo sem isso, imagina COM)

  6. Timm disse:

    Bacana. Nunca tinha parado pra pensar especificamente sobre isso.

  7. Arthur disse:

    Erico, já leu Asterios Polyp, né? (Googlei aqui e vi seu comentário no Omelete, esquece a pergunta). =)

    Acabei de reler o álbum, que é excelente e cheio de coisas a se notar melhor na segunda leitura, o uso das splash-pages também é belíssimo. No início, no final, naquela cena em que ele vai, junto com Ursula e o guri, visitar O buraco.

    Realmente, não consigo pensar em algo com o efeito de tais páginas em uma linguagem que não a dos quadrinhos…

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