Quarta-feira entre os clássicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

[Veja em nosso álbum as fotos dos encontros no Rio de Janeiro e em São Paulo]

Quarta-feira à noite, temperatura elevada e em pleno Leblon, não resta nada a fazer senão tomar uma cerveja gelada e conversar com amigos. No entanto, nessa última semana, as coisas andavam meio viradas. O saguão da elegante Livraria da Travessa no shopping local foi invadido por cadeiras e um público saído não se sabe da onde, mas carente de conhecer mais sobre nossos clássicos. À frente do evento (o que já explica a pequena multidão), nada mais, nada menos que dois clássicos nacionais: o africanista, acadêmico, embaixador, poeta e historiador Alberto da Costa e Silva, e o igualmente embaixador, historiador e polemista de mão cheia, Evaldo Cabral de Mello.

Essa que vos escreve deveria funcionar como moderadora (animadora até) desse encontro feliz, fadado ao sucesso. No entanto, diante de intelectuais desse calibre não é preciso intervir, perguntar ou provocar… tudo isso ocorre normalmente e sem maior esforço. Se comecei lembrando as máximas do escritor Ítalo Calvino — que mostra como clássico é um livro que nunca se lê, só se relê; ou explica que um clássico sempre diz muito sobre aquele que o evoca —, já Alberto reagiu, desfazendo (e com razão) meu discurso tão comportado. Disse ele, em tom debochado, que tudo aquilo era muito bom, mas que clássico é também um livro que ainda não lemos e mais: que não queremos ler.

Evaldo também não deixou por menos. Disse que escritores deveriam começar a produzir tarde e parar cedo, e reservou-se o direito, como historiador, de falar só de livros de não-ficção. Edward Gibbon, por exemplo, converteu-se logo em unanimidade da mesa. Já os autores nacionais não tiveram tempo fácil, ao menos nas mãos do Evaldo, que alegou, por exemplo, que no Brasil todo mundo lê apenas um livro de determinado autor e já se comporta como profundo conhecedor da obra. É claro que pensava em Gilberto Freyre e seu famoso Casa grande & senzala, no que foi logo secundado por Alberto.

O fato é que concordamos, mas, no limite, discordamos de tudo: dos livros que selecionamos, dos nossos clássicos e até dos horários em que lemos ou pensamos. Evaldo disse que só raciocina bem das 10 da manhã às 18 da tarde e Alberto logo discordou. Quando aleguei que já eram quase 8 da noite e ele continuava por lá (e muito bem, aliás), Evaldo respondeu: “eu estou divertido, mas não inteligente”. Eu contei que gostava de A montanha mágica de Thomas Mann, e foi a vez de Alberto acrescentar que José e seus irmãos era infinitamente melhor. Lembrei que Raízes do Brasil era meu clássico nacional, e Evaldo afirmou desconfiar de todos os livros de interpretação do país, os quais, segundo ele, são os que mais sofrem com a ação do tempo.

Enfim, já eram 20h30 e eu tinha que cumprir a minha parte, e encerrar essa sessão, que não tinha hora para acabar já que a conversa corria solta e escorria para todos os lados: lados mais “clássicos” e outros nem tanto. Acho que só concordamos (parcialmente) quando o tema foi literatura infantil. Eu resolvi mencionar a série Babar, do elefante que perde a mãe logo no começo da história e quer ganhar a civilização quando todos, hoje em dia, a estão rifando. Já Evaldo foi obrigado (por conta de minha pergunta impertinente) a recordar de seu personagem mais querido: o carneiro Ferdinando Flores. Em sua opinião, ele (Ferdinando) é infinitamente melhor que seus companheiros. Se os outros são ativos, agressivos até, já Ferdinando é passivo de caráter e, ainda melhor, contemplativo de índole. E completou: “também sou assim; contemplativo”.

É impossível concordar com a ideia de que essas duas grandes personalidades da cultura brasileira sejam apenas contemplativas, que devam evitar falar a partir de determinadas horas, ou que seria bom que encerrassem suas carreiras como escritores, já que atingiram uma bela idade. Em se tratando dos dois, o outro lado desse espelho é o verdadeiro.

Literatura, vida, história, memória, historiografia e muita piada: esse encontro foi mesmo um clássico.

* * * * *

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil(vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.