Uns e outros na primeira Flip

Por Luiz Schwarcz

Eric Hobsbawn durante a 1ª Flip (Acervo Associação Casa Azul)

Colocar a Flip em pé, de sonho pós-Hay a realidade em Paraty, foi muito mais difícil do que o previsto. As ideias começaram a jorrar, a mais maluca de todas era do Mauro — da qual eu virei o mais ferrenho defensor, mesmo quando seu mentor já percebera que se tratava da mais deslavada loucura —, de que os eventos deveriam ocorrer numa plataforma flutuante, no Rio de Paraty, ao lado da Praça da Matriz. Mas como livre pensar é só pensar, maluquices como essa apareceram desde o primeiro momento, logo no início de nossos trabalhos, em pleno jardim de Lord Charles.

No entanto, a montagem da estrutura, ou melhor, da falta de estrutura, para a primeira festa, a captação dos recursos e a cooptação dos editores brasileiros para a causa deu pano pra manga, e que manga!

Vamos por partes. Sem patrocínio, a estrutura viável era nula. Mauro e sua mulher Belita, incumbidos da captação, batalhavam, mas só conseguiam, inicialmente, meras promessas. Enquanto isso, eu procurava meus colegas editores para falar do projeto e pedir que ajudassem, trazendo alguns autores.  De cara imaginamos que a direção deveria contar com um editor paulista e um carioca. Sugeri o nome do Roberto Feith, com quem sempre tive ótimas relações. Roberto topou a princípio, mas depois julgou que a função conflitava com seu papel na Bienal do Rio. Começava assim o que eu julgo ter sido um grande mal entendido entre a Flip e os editores cariocas, e que durou alguns anos.

A Bienal do Rio, na época do início da Flip, já era um evento extremamente importante, e tocado com muito mais dinamismo e competência que a mesma feira em São Paulo. No entanto, nas reuniões com colegas cariocas, acabei sendo mal sucedido ao tentar mostrar que a festa literária não representava ameaça alguma à Bienal do Rio. Argumentei que eram eventos de natureza diversa e que, além do mais, a Flip ocorreria depois da Bienal. Um acordo se fez possível quando a Flip assumiu que sua programação só seria divulgada a partir da Bienal do Rio, ou melhor, dentro dela. Outras exigências foram feitas, entre elas a de que um tempo mínimo entre os eventos fosse respeitado. Apesar disso, o apoio à vinda de autores só ocorreu por parte da Companhia das Letras, que bancou as passagens internacionais de seus três autores e  acompanhantes. Eram eles: Don DeLillo, Eric Hobsbawn e Hanif Kureishi (além de Daniel Mason, que se encontrava no Brasil). A versão de que Peter Florence, diretor do Hay Festival, foi responsável pela vinda de Hobsbawn não é verdadeira.

Uma semana antes do anúncio, que conforme o combinado se daria em plena Bienal do Rio, os dois patrocinadores do evento — uma empresa de televisores e uma estatal — retiraram o apoio acordado, motivados por mais uma crise econômica que assolava o país. A empresa de televisores se comprometeu, ao menos, a doar produtos no mesmo valor que oferecera em dinheiro.

Liz resolveu cancelar a feira, e eu bati o pé:

— Se fizermos isso agora, nunca mais sonhe em promover um festival literário no Brasil. Vamos dar um jeito, anunciamos como previsto e depois vemos o que é possível.

E assim foi. No dia seguinte à Bienal saímos — Mauro, Belita e eu — a vender televisores e a passar o chapéu entre amigos, com o objetivo de pagar o resto das passagens, a mínima estrutura para a venda de ingressos, o show de abertura e todos os detalhes para a viabilização da Flip. Consegui contribuições de familiares e de outros amigos que se tornaram parceiros da Flip até hoje. Sugeri o nome de Flávio Pinheiro para diretor de programação. A família Marinho, entusiasta de Paraty, cedeu a Casa de Cultura, gerida pelas Fundação Roberto Marinho, em cujo salão improvisamos um auditório para pouco mais de cem pessoas.

A programação ficou a cargo do Flávio Pinheiro, que também apresentava os autores e mediava os eventos. Liz se incumbia de recepcionar seus convidados e assistia aos eventos com Louis na primeira fila. Enquanto isso, Belita, Mauro e eu nos virávamos fazendo de tudo. Fui bilheteiro, carreguei cadeiras e apresentei os autores brasileiros a um grupo importante de editores estrangeiros que vieram ao evento, alguns a meu convite, outros a convite da Liz.

A cobertura de imprensa ao evento foi espetacular, várias equipes da Rede Globo se deslocaram para Paraty, os jornais noticiaram todas as mesas. Embora no público estivessem poucos editores, Paulo Rocco foi a exceção — o então presidente do SNEL assistiu a todas as mesas da primeira Flip.

Eric Hobsbawn talvez tenha sido a grande estrela da festa. A fila de autógrafos de seus livros parecia interminável, e o já idoso autor, incansável, atendeu a quase todos. Em determinado momento, falei a Eric que ele parecia o Mick Jagger da Flip. Um dia depois, perseguido por fãs nas ruas de Paraty, ele me disse:

— Luiz, I am tired of this Mick Jaggering thing.*

Após os autógrafos, Eric, Don DeLillo e esposa e um grupo da Companhia das Letras jantavam no centro da cidade, quando notamos que um casal discutia vivamente na mesa ao lado. Em seguida a moça foi ao banheiro, contrariada. A editora Maria Emília Bender foi atrás e perguntou:

— O que houve, por que você está chorando?

— Meu marido quer se separar de mim. Por minha causa, atrasamos e ele perdeu a seção de autógrafos de Eric Hobsbawn.

Maria respondeu:

— Separe-se! Ele  está te tratando muito mal. Mas, antes disto, eu te consigo um autógrafo.

Poucos minutos depois, agradecido, com seu livro devidamente assinado, o marido em questão presenteou o velho comunista com uma medalha de Lênin, que trazia no bolso e que pertencera a seu pai. O sorriso de Hobsbawn e de seu leitor naquela noite eu nunca esquecerei.

No final da festa e nos balanços de 2003, a Flip foi celebrada em todos os jornais. O Globo, além disso, dedicou o prêmio de “Mico do Ano” aos que não acreditaram na Festa Literária de Paraty. Na ocasião, Flávio, Belita, Mauro e eu já trabalhávamos para profissionalizar a Flip, que teria que crescer sensivelmente no ano seguinte, devido a esse sucesso inicial.

Pedro Moreira Salles, meu sócio na Companhia das Letras, que assistira entusiasmado à primeira Festa, decidiu, por iniciativa própria, encaminhar ao Unibanco a proposta de patrocínio da segunda Flip. O entusiasmo do jornal O Globo continuou rendendo frutos e eu fui agraciado com um prêmio, entre outras razões, por ter acreditado e me dedicado à Flip.

Flávio saiu à luta para falar com os outros editores. Estávamos certos de que desta vez conseguiríamos o apoio necessário. Ao chegar na sede de uma importante editora, no entanto, ele foi recebido pelo editor em questão com o jornal que noticiava o meu prêmio nas mãos, e um pedido de explicações.

* Estou cansado dessa vida de Mick Jagger.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro e Discurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.