A caminho do trabalho, inscrições em trânsito


(Foto por Renata Virzintaite)

Em agosto a Companhia lançou Em trânsito, livro de poemas urbanos de Alberto Martins. Leia abaixo uma carta do autor, onde ele fala sobre suas inspirações, e o poema-dedicatória que abre o livro.

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Conte um pouquinho a história do livro. Como você dividiu os poemas nas três partes que compõem o livro?

O livro surgiu a partir de 2000 mais ou menos. Nessa época, eu estava trabalhando no centro da cidade, no edifício Ester, e pegava ônibus e metrô todo dia. Comecei a prestar muita atenção na condição do transeunte e do transporte público. Depois me transferi para a [Editora] 34, que fica em frente ao rio Pinheiros, e comecei também a usar o trem da marginal Pinheiros. Assim, um núcleo de poemas, sobretudo os do início, A caminho do trabalho, tem a ver com essa condição de usar transporte coletivo, de estar na cidade, cruzar com pessoas na rua, no balcão de um café, de uma padaria, passear com o cachorro na rua. Tem a ver com essa existência pedestre.

Um segundo núcleo, o Inscrições, foi se formando em torno de obsessões mais longínquas. Tem a ver com o arcaico, com a pré-história da América, com o sonho de entrar numa caverna e ver ossos pendurados no texto (que curioso: escrevi “no texto”, queria escrever “nas paredes da caverna”!) e sonhar que, quando morrer, vou me transformar nesses ossos (em linguagem de sonho: quando um “americano” morre, ele se torna outra coisa, diferente do que se tornaria um europeu), e tem a ver também com a escrita, com a inscrição de coisas que perduram, nos ossos, nas pedras, em caracteres tipográficos; tem a ver com a arte e com o lugar ou não lugar que ela ocupa no mundo (acho que daí vem a referência a tantos artistas nesse segundo bloco.

O terceiro bloco, Em trânsito, junta várias coisas: alguns poemas surgiram a partir do espaço da casa e da noite (mas tomando a casa como parte da cidade, como estando “em trânsito” também); retoma questões que dizem respeito ao trabalho (tema que aparece no primeiro bloco e que está ligado ao transporte, pois a gente usa o transporte público sobretudo para ir ao trabalho); tem a ver com dívidas, com estar endividado (no poema “Noite de insônia do alfaiate” e em outros), e com um certo sentimento de urgência que isso lança sobre tudo (como resolver? como sair desse estado?), sobre a cidade e as relações de troca em geral. Por fim, achei curioso que o livro começa na plataforma do trem do rio Pinheiros, e o último poema também é de alguém tomando trem, mas agora, pela “última/primeira/vez”, tentando decidir a vida.

Não sei dizer em que momento ele se estruturou nessas três partes e nessa sequência. Mas gosto de pensar que elas formam uma frase, que é bem pertinente para a experiência que o livro quer dizer:

A caminho do trabalho, inscrições em trânsito

ou

Ao leitor a caminho do trabalho, inscrições em trânsito

Um beijo grande,

Betito

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Este livro é para o leitor

atônito, normal
desses que jamais terão
o nome impresso nos jornais
exceto caixa baixa
anúncio final

anônimo, pedestre
modesto passageiro de seu tempo
que por uma questão de espaço
chega sempre atrasado
aos últimos lançamentos

comum, usuário
que neste mundo engarrafado
usa o poema
como meio de transporte