A posteridade não era pra ser assim

Por Joca Reiners Terron

Não bastassem a penúria da condição e o isolamento necessário à prática da escritura, o século 21 acrescentou ao menos dois novos pesadelos ao cotidiano dos escritores: o hate-mail e o pânico diante da extinção dos livros. Algum parentesco deve existir entre a carta anônima clássica e o hate-mail, é claro, mas imagine que trabalhão teve em 1838 aquela senhora de Worcester para fazer chegar às mãos de Dickens seu protesto acerca dos maus tratos dados pelo malvado Fagin a Oliver Twist. Posso apostar, porém, que não havia expressões grosseiras na carta da tiazinha provinciana; comparado a ela, o correspondente anônimo atual, oculto sob o manto de pulsos elétricos e a máscara do email de ocasião, é um pusilânime. Sua covardia só é comparável à do necrólogo que tripudia com o defunto ainda fresco. Certos da impunidade e da ausência de respostas, o remetente do hate-mail e o necrólogo vingativo despacham suas maledicências para o limbo sem aguardar devolução por CEP incorreto.

Prometo, todavia, abordar benesses e malefícios do hate-mail num post próximo. Por ora, falemos de necrológios. Mais especificamente, daqueles dedicados à morte recente do escritor argentino Rodolfo Fogwill (1942-2010), desgostosamente falecido em agosto passado devidos a males causados pelo tabagismo extremo. Fogwill, autor de Os Pichicegos, era um notório boquirroto. Publicitário old style (pois cocainômano), lotou a pochete durante a ditadura argentina e depois torrou toda a guita em barcos, talco inca e editoras marginais de poesia como Tierra Baldía, que tornou-se referencial na publicação de novos autores e recuperou veteranos meio esquecidos. Assim, o endinheirado ficou duro na medida em que se assumiu escritor. Polemista feroz, Fogwill era considerado ao lado de Ricardo Piglia e César Aira um dos mais influentes autores argentinos contemporâneos. Tal influência, entretanto, não era somente positiva: Alan Pauls, em um dos numerosos necrológios, recordou que o próprio descrevia a duna branca na qual afundava o nariz diante de noviços literários como um “remédio para sinusite”. A chateação de Pauls — que retratou o ex-amigo de modo nada lisonjeiro em seu romance O Passado — transborda pelas entrelinhas. Terá sido resposta tardia à última entrevista de Fogwill, na qual é taxado de “fracassado”?

Maria Moreno, enegrecendo ainda mais a pintura, acusa o falecido de misógino e de se opor à legalização do aborto, do casamento gay e — paradoxalmente — à liberação das drogas. E assim foram desfiadas más lembranças dedicadas ao escritor, culminando na maior das acusações: Vera Fogwill, a filha igualmente escritora e inegavelmente frustrada, afirmou num magoado depoimento ao suplemento Radar do Página 12 que o pai realizou sua melhor literatura nas noites em que a ninava: “Até quando já estava crescida era capaz de se enfiar em minha cama para me contar um conto, mesmo que eu, adormecida, me assustasse e lhe dissesse: ‘Papai, já estou grande para contos!’, ‘Papai, você está drogado?’, ‘Papai, sou tua filha! Papai!’”. Os pontos de exclamação finais não deixam margem a ambiguidade. Entre amor (pouco) e ódio (muito), o escritor recém falecido de estripolias ainda frescas tem colocado à sombra o anseio pessoal de perenidade da obra literária, pouco lembrada nessa hora, enquanto as lembranças daqueles que o sobreviveram se dedicam a buscar revivê-lo por meio da injúria sem direito a qualquer defesa. Resta adivinhar se Fogwill preferiria esses hate-mails endereçados ao Além ao completo esquecimento.

[Para se aprofundar no caso: o escritor argentino Maximiliano Tomas reuniu em seu blogue boa parte dos necrológios publicados em diversos jornais.]

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.