A sangue frio

Por Tony Bellotto


(Foto original por Adams K.)

Ao abrir e-mails de manhã, me deparo com a seguinte mensagem: “Segunda (ou já seria terça?!?), 3h09 da manhã, diretamente do Projac em uma madrugada nada inspirada dos candidatos a BBBs (que não enviam vídeos ou comentários no blog), Sofia Suplicy, uma garota extremamente ansiosa e curiosa, termina sua leitura de 2666 exatos 30 dias depois de iniciá-la”.

Sofia Suplicy, que conheci pequerrucha como a filha caçula e muito vivaz do amigo João Suplicy, arquiteto talentoso e mestre cuca oficial das churrascadas em Curitiba com a turma de Paulo Leminsky, tornou-se agora também uma amiga literária. Desde que se mudou de Curitiba para o Rio, há alguns meses, Sofia tem frequentado nossa casa e mantido contato mais estreito com minha família, que a acolheu como uma sobrinha forasteira. Quem vê Sofia pelas ruas de Ipanema não dirá que é uma curitibana típica, torcedora letrada e ardorosa do Atlético Paranaense. Até o sotaque, essa marca tão perene dos curitibanos, já dá sinais de uma sutil absorção da malemolente e inebriante fala carioca. Ou seja, Sofia caminha a passos rápidos, porém gingados, para o altar onde desfilam as autênticas garotas de Ipanema. Em sua luta carioca, arranjou um emprego surrealista na Globo, como integrante da equipe que seleciona os candidatos ao Big Brother Brasil, o esfíngico e esquizofrênico programa de tv. São zilhões de fitas examinadas ao longo das madrugadas — a jornada de trabalho de Sofia vai da meia-noite às 8h da manhã. Ah, que inestimável fonte de ideias e inspiração para um ficcionista, hein, Sofia? E, cá entre nós, que puta roubada, não?

Sofia leu 2666 estimulada pelas crônicas que escrevi sobre o livro. E me pede agora uma sugestão de que livro ler em seguida. Afirma que a sensação de terminar a leitura de 2666 (“não sei se estou aliviada, triste ou feliz, sei que me sinto completa”) só se compara à experimentada ao final da leitura de A sangue frio, de Truman Capote. Difícil responder, Sofia. Passei pela mesma situação ao terminar eu mesmo a leitura do Bolañaço. A sangue frio, tem razão Sofia, é também um livro espetacular, uma aula ambulante de grande literatura e de como escrever bem, além de invenção de um gênero. Mas já está lido. Quando terminei de ler o 2666 fiz a mesma pergunta à companheira Juliana Vettore: o que ler agora? Ela me sugeriu As aventuras de Augie March, de Saul Bellow, mas ainda não li. Sugeriu também Iniciantes, de Raymond Carver, que eu já havia lido (e adorado). Andei relendo Cozinha confidencial, de Anthony Bourdain, que é uma delícia de livro, e também dois romances do Jack Kerouac, que ainda não conhecia: Big Sur e Anjos da desolação. Li também A humilhação, de Philip Roth. São, todos estes, livros sensacionais, mas não causaram em mim o efeito que causou 2666. Vai aqui então, Sofia, uma modesta sugestão — sem querer de forma alguma me comparar ao mestre chileno (e mexicano e espanhol, sou de lugar nenhum, sou de nenhum lugar!) Roberto Bolaño —: leia No buraco, meu novo livro, que chega às lojas na semana que vem. Não precisa procurar na livraria, eu te arrumo um. Autografado.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em setembro.