A santa Teresa, de Bernini

Por Matinas Suzuki

Um detalhe da escultura em mármore O êxtase de santa Teresa, do italiano Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), está na capa de O livro da vida, a autobiografia de santa Teresa d’Ávila, um dos novos lançamentos do selo Penguin-Companhia das Letras que chegou às livrarias no final de semana. Trata-se de uma imagem que se impõe pela sua força interna e pelo seu significado para a história da cultura; não só críticos de arte, mas historiadores e psicanalistas também costumam se deter para analisá-la. Esculpido por Bernini entre 1645 e 1652, esse importante documento barroco se encontra em um nicho na capela Cornaro, na igreja Santa Maria della Vitória, em Roma.

A autobiografia de santa Teresa recebeu uma nova tradução, de Marcelo Musa Cavallari, e traz um notável prefácio de Frei Betto, que assim descreve a religiosa espanhola, fundadora das “carmelitas descalças”: “Feminista avant la lettre, esta monja carmelita do século XVI, ao revolucionar a espiritualidade cristã, incomodou as autoridades eclesiásticas de seu tempo, a ponto de o núncio papal na Espanha, dom Felipe Sega, denunciá-la, em 1578, como ‘mulher inquieta, errante, desobediente e contumaz’”.

Por uma dessas coincidências que ocorrem na vida das editoras, pouco mais de uma semana depois, no dia 7 de outubro, a Companhia das Letras lançará a edição luxuosa de O poder da arte, do professor inglês de história e de história da arte Simon Schama. Além de discorrer sobre obras de Caravaggio, Bernini, David, Rembrandt e outros, Schama faz também, neste belo livro, uma reflexão sobre a santa Teresa de Bernini. Leia a seguir, em primeira mão, o que ele diz sobre a escultura:

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Será que alguém consegue ver O êxtase de santa Teresa (1644-47), de Bernini, com olhos inocentes?

Anos atrás, numa tarde escaldante do verão romano, um trio de freiras entrou na escura igreja de Santa Maria della Vittoria e se dirigiu para a capela Cornaro, no braço esquerdo do transepto. Eu estava sentado num banco do lado oposto, perplexo, como sempre, com o que via — um arrebatamento iluminado intermitentemente. De quando em quando, uma moeda tilintava, acendia-se a luz, e o espetáculo mais espantoso da arte prosseguia: a cabeça da santa jogada para trás, a boca aberta num gemido, o lábio inferior recuado, os olhos quase cerrados, os ombros encolhidos numa postura de defesa e desejo. Ao lado dela, um sorridente serafim delicadamente lhe descobre o peito para facilitar a penetração da flecha.

As freiras se demoraram uns dez minutos, absolutamente imóveis; depois, duas delas se ajoelharam, benzeram-se como puderam e foram embora. A terceira freira, baixinha, gordinha, de óculos, sentou-se em outro banco, baixou a cabeça e se pôs a rezar; de vez em quando eu me surpreendia olhando para ela, tentando não imaginar o que lhe passava pela mente. Afinal, a escultura de Bernini se situa na instável fronteira entre o mistério sagrado e a indecência. Os estudiosos não se cansam de dizer que o que estamos vendo jamais poderia ser um momento de entrega sensual, pois Bernini era notoriamente devoto e a santa esclarece em sua autobiografia que “a dor não é física, mas espiritual”. O especialista típico alerta que ver a obra como erótica “limita-a seriamente” — mas, como ocorre em geral com esse tipo de comentário, não se dá o trabalho de explicar por quê. Apenas adverte que, para compreendermos as intenções de Bernini, seria melhor tirarmos da cabeça toda essa vulgaridade moderna. Não há base histórica, insiste ele, para imaginar que o arquiteto do papa, o supremo escultor de Roma, um homem que praticava diariamente a disciplina jesuítica, pudesse sequer pensar em representar a levitação mística de uma santa num momento de convulsão orgástica. Na verdade, porém, o anacronismo moderno não é a união de corpo e alma repisada por tantos poetas e escritores do século XVII, e sim sua pudica separação em experiência sensual e experiência espiritual. Na época de Bernini, entendia-se e experimentava-se o êxtase como sensualmente indivisível. Basta ler a poesia de Richard Crashaw, John Donne (o deão de St. Paul) ou Giambattista Marino, o passional contemporâneo de Bernini, para constatar que no início do século XVII o anseio da alma de ser possuída pelo divino sempre implicava a superação das sensações extremas do corpo. Depois de negar que sua experiência com o anjo fosse física, Teresa imediatamente acrescenta que “o corpo tem parte nisso, até mesmo uma parte considerável”.

Assim, os mal-entendidos são inevitáveis, pois Bernini os previu. Um século depois que ele criou essa escultura, a mais prodigiosa e emocionalmente avassaladora de todas as suas obras, o chevalier De Brosses, aristocrata francês de passagem por Roma, olhou para a santa no auge do paroxismo e fez um comentário que se tornou infame pelo cinismo: “Bom, se isso é amor divino, eu sei muito bem como é”. Mas pode ser que (deliberada ou casualmente) o chevalier tenha entendido mais do que dizia saber: que a intensidade do êxtase de Teresa, a representação do transporte da alma, na verdade, tinha tudo a ver com conhecimento carnal, sobretudo o próprio conhecimento carnal de Bernini.

(Trecho retirado do capítulo “Bernini — o criador de milagres” do livro O poder da arte, de Simon Schama)

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Matinas Suzuki é diretor de comunicação da Companhia das Letras e editor da Penguin-Companhia. Organiza a coleção de Jornalismo Literário da editora, cujos próximos lançamentos são A vida secreta da guerra, de Peter Beaumont, e Operação massacre, de Rodolfo Walsh.

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Notícias sobre a Penguin-Companhia:

Dois clubes de leitura estão sendo organizados, por enquanto apenas em São Paulo (veja aqui mais detalhes).

Matinas Suzuki participou do programa Invasões Bárbaras, da BandNews FM, e falou com Barbara Gancia sobre O príncipe, de Maquiavel. Você pode ouvir a entrevista no site da rádio.

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12 Comentários

  1. Maria Lúcia Outeiro Fernandes disse:

    Excelente texto. Vou dar para meus alunos de Letras lerem, pois trabalho com esta imagem da escultura de Bernini nas aulas sobre Barroco.

  2. […] capas da Penguin-Companhia mostram obras de arte conhecidas, como as de Livro da vida e Os ensaios de Montaigne. Outras exibem fotos dos próprios autores, como as de Essencial Joaquim […]

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