De Tony para Tony

Por Tony Bellotto

Sempre me perguntam se meu trabalho como guitarrista atrapalha ou ajuda minha carreira de escritor. A resposta é a mais óbvia, idiota e não esclarecedora possível: as duas coisas. Atrapalha e ajuda. Como diria o Caetano Veloso: ou não. A pergunta pressupõe que para certas pessoas o fato de eu tocar guitarra é, de alguma forma, incompatível com a labuta do escritor. Como se escrever fosse muito diferente de tocar guitarra, dirigir um ônibus, pintar paredes, plantar bananeira ou tirar leite de uma vaca. Não é.

Além do mais, ninguém é só escritor. Todo escritor que conheço, Paulo Coelho incluído, tem outra profissão. No caso do Coelho, do Veríssimo, do Ubaldo e de muitos outros, essa segunda (ou será a primeira?) profissão é o trabalho na imprensa. Isso sem contar os anos que o Paulo Coelho passou escrevendo letras, compondo canções e ralando em gravadoras de discos. Se Tcheckov, assim como Moacyr Scliar e Dráuzio Varella, era médico, se Conrad era marinheiro, se Chico Buarque é compositor e cantor, Jô Soares, humorista, se Rubem Fonseca já foi delegado e executivo, se Bukowski foi carteiro, Nelson Motta, jornalista e compositor, e Anthony Bourdain, chefe de cozinha, por que não posso ser guitarrista?

Aliás, você conhece o Tony Bourdain? É claro que Paulo Coelho, Veríssimo, João Ubaldo, Tcheckov, Moacyr Scliar, Dráuzio Varella etc. etc. dispensam apresentações, mas o trabalho literário do Anthony Bourdain merece uma atenção especial. O cara foi, por muitos anos, chefe de cozinha de uma badalada brasserie em Nova York, e apesar disso, ou por causa disso, ou independentemente disso, escreve muito bem. Usando uma técnica que mistura a literatura gonzo do Hunter Thompson, com pitadas de devaneios beats (beatíficos, diria Jack Kerouac), com um cinismo na melhor tradição de um Raymond Chandler, o homem manda muito bem em livros como Cozinha confidencial, Em busca do prato perfeito: um cozinheiro em viagem e outros. Claro, não espere um livro de receitas — embora ele tenha também um livro de receitas do Les Halles, a brasserie onde bateu ponto por décadas —, mas uma radiografia cínica e bem humorada do mundo da gastronomia internacional, com tudo o que tem de saboroso e ridículo. Além disso, o Bourdain é fã dos Ramones — a grande banda punk americana — e todo fã dos Ramones é uma espécie de primo meu.

É isso aí, munidos de frigideiras ou guitarras, os Tonys estão aí para comprovar a velha máxima punk: do it yourself. Quer escrever? Escreva.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.