O silêncio da splash page (2)

Por Erico Assis


Páginas de Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima.

[Leia a primeira parte do texto sobre splash pages]

Livros de arte. Aqueles livros de arte caros, grandões, capa dura, pesados, Taschen e cia. Em vários deles você encontra, da folha de guarda até a página introdutória, uma sequência de imagens sem legenda que funciona como sequência de introdução ao espetáculo que é o livro. Queiram os mais eruditos ou não, esta sequência é uma história em quadrinhos. De splash pages.

Um dos nomes mais celebrados do design de livros (de arte ou não) na última década, Chip Kidd, é fã confesso de HQ. Em Peanuts: the art of Charles M. Schulz, dedicado ao criador de Snoopy e Charlie Brown, ele deixou sete páginas de esboços, ilustrações ampliadas que estouram o ponto da impressão e reproduções de jornal até chegar à página dupla com o título do livro. Pode não haver sequência lógica entre as splashes, mas uma narrativa se constrói na mente do leitor. Já é quadrinho.

Assim como atribui-se muito da linguagem visual do cinema a Orson Welles e seu Cidadão Kane, costuma-se ver em Will Eisner a criação de várias técnicas narrativas nos quadrinhos. Foi possivelmente nas histórias do Spirit, na década de 1940, que surgiram as splashes. Toda história abria com uma imagem de página inteira; às vezes para situar a cena, às vezes somente para propor o clima da HQ. (Também ficou famoso o jeito de Eisner brincar com o título da história: “The Spirit” e o título apareciam sempre escritos como parte de prédios, em meio à névoa ou de alguma outra forma que estivesse integrada ao cenário.)

Jack Kirby ajudou a popularizar as splashes nos quadrinhos de super-herói — adorava desenhar grandes e elaboradas máquinas, que ficam mais majestosas em páginas inteiras. Mas foi Frank Miller que reinventou o uso da página inteira, misturando Eisner e Kirby e um terceiro elemento: mangá, a HQ japonesa. Ele percebeu em Lobo Solitário como o quadrinho americano era desnecessariamente verborrágico e preocupado em encher cada página de ação, quando uma imagem singular, e grande, podia ter impacto ainda maior. Tinha a ver também com o ritmo de produção do mangá: as histórias estendem-se literalmente por milhares de páginas, portanto não há receio de desperdiçar espaço.

Em seu primeiro trabalho autoral, Ronin, Miller extrapolou: na última edição, o leitor descobria uma página-pôster, que tinha que ser desdobrada para formar um quadro de, na prática, quatro páginas. Em Cavaleiro das Trevas, há várias imagens icônicas de Batman em splashes silenciosos. Mas Miller só conseguiu explorá-las — e talvez re-reinventá-las — em Sin City. Sua primeira história já abre com três splashes. O motivo: ele não tinha limitação de número de páginas.

No verbete sobre linguagem dos quadrinhos, a Wikipédia (em inglês) diz que uma HQ costuma ter no máximo duas splash pages. Menciona também exceções, como a edição da morte do Superman, na década de 90: toda composta por splash pages. A referência, porém, está restrita ao quadrinho tradicional, mainstream. Como aconteceu com Miller, outros quadrinistas só puderam explorar a splash page quando livraram-se das restrições comerciais de 22, 32, ou 48 páginas por edição. Uma graphic novel tem quantas páginas for necessário — como qualquer livro.

A splash que mais se prendeu à minha memória nos últimos anos de quadrinhos está em La guerre d’Alan, de Emmanuel Guibert. Guerre consiste nas memórias de Alan Cope, um militar norte-americano que serviu na Segunda Guerra Mundial e tem uma vida carregada de histórias. Nas três páginas de encerramento, Guibert reproduz algumas falas de Alan enquanto mostra seis cenas da pequena fazenda deste, vazia. O último quadro toma a página final: uma mesa, em frente à janela e a porta que dá para o pomar. Uma única linha de texto: “ok, é isso.” Sobre essa imagem e essa frase pesam as trezentas páginas anteriores da narrativa. É um último e prolongado suspiro.

Talvez a splash page só se compare a isto: os raros suspiros da nossa vida, real, que parecem fazer o tempo e o mundo pararem ao nosso redor.

* * * * *

Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

6 Comentários

  1. […] Publicado por Pips em setembro – 10 – 2010 No blog da Companhia das Letras, Erico Assis fala um pouco sobre splash pages, enquanto no G1 noticiaram que o livro mais caro do mundo voltará a leilão no dia 7 de Dezembro […]

  2. Que belo artigo. Meus parabéns, Erico. Já li coisas do Scott McLoud e do Frank Miller falando sobre um aspecto importante que pode ser incorporado à splash page: a importância daquela imagem que só aparece quando você vira a página, o fator surpresa tão bem utilizado pelos orientais em cenas de violência nas HQs, por exemplo.
    Grande abraço.

  3. Daslei disse:

    ótimo texto. Mas o que mais me chamou a atenção é o papel de Frank Miller na evolução dessa nobre arte dentro da nona arte (meta-arte?). Miller pra mim já não dá mais pra ser lembrado pelas suas grandes obras (fase Demolidor, Elektra, o supracitado Ronin, a qual acho mil vezes superior ao próprio Sin City), mas pelas besterias egocêntricas que ele anda fazendo ultimamente, infelizmente.Revendo esse viez criativo dele dá até pra entender como ele conseguiu a autorização do mestre Eisner pra produzir e dirigir Spirit, afinal eles eram realmente amigos e tinham um certo paralelismo narrativo (na boa fase pelo menos). Mais uma vez, pena que Miller ande numa Bad-egotrip, e nesse péssimo caminho tortuoso de péssimas amizades ele tenha se disvirtuado e dando fim a carreira cinematográfica de um ícone de meu imaginário quadrinhistico.

  4. Richard Pajuelo disse:

    Muito bacana o tema exposto. Eu diria que a Splash Page foi uma das melhores invençoes no ponto de vista artístico nas HQs tal qual a diegese foi para o cinema.

  5. Arthur disse:

    Muito bom o texto. Leria uma “parte 3” sem problemas. =)

  6. MC disse:

    Agora entendi porque acho esses quadrinhos tão poéticos: é a página mallarmaica…

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