Originais aos pedaços

Por Luiz Schwarcz

Mudei de ideia. Espero que não se importem em ler as outras histórias com Oliver Sacks um pouco mais para frente. Embora os episódios que ia relatar, ocorridos durante suas viagens ao Brasil, sejam dos meus favoritos, acho que podem esperar.

É que com a publicação do livro de Ingrid Betancourt, peguei-me lembrando de quando seu livro ia chegando, aos pedaços, e de todo o trabalho de edição que culminou na distribuição de Não há silêncio que não termine, esse fim de semana, às livrarias. Ingrid dedicou-se muito à confecção de seu livro de memórias do cativeiro. Deixou sua vida de lado por um ano e meio e se pôs a recordar, a lidar com lembranças difíceis, das quais quis distância, compreensivelmente, por um bom tempo.

Susanna Lea dedicou-se ao projeto como eu nunca vi um agente literário fazer, nos meus mais de trinta anos de editor. Praticamente parou de trabalhar pessoalmente para seus outros representados e montou um esquema de tradução do texto, que era escrito em francês por Ingrid e imediatamente vertido para o inglês por um tradutor contratado por seu escritório. Ainda abrigou Ingrid em seu apartamento em Nova York, para se afastarem, as duas, dos afazeres cotidianos de suas casas em Paris, e assim viabilizou a edição simultânea do livro em vários países — França, Espanha, Colômbia, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Todo dia Ingrid escrevia seus textos a mão, os escaneava e enviava para Susanna, que lia e comentava. Uma assistente da agência datilografava o texto e encomendava a tradução para o inglês. Enquanto isto o manuscrito era enviado para quatro editoras no mundo: a Gallimard na França, a Penguin Press nos Estados Unidos, a Virago na Inglaterra e a Companhia das Letras no Brasil.

Tive a sorte de ganhar a confiança da autora e da agente, e por isso fui um dos editores que trabalhou simultaneamente lendo e fazendo sugestões. Assim, acompanhamos capítulo a capítulo, recebendo os originais aos pedaços. Ao mesmo tempo, uma operação de guerra era montada pela Marta e pela Lucila para a preparação da edição brasileira em tempo recorde.

Olhando agora para o livro publicado, sinto a mesma sensação que tive muitas vezes: a necessidade de lê-lo novamente pronto para reconhecê-lo como unidade, para recuperar o que perdi por ter conhecido um livro em gestação, sem a fluência da leitura contínua, sem minha dedicação de editor, mas como leitor — deixando de lado a  infidelidade típica da minha profissão. Um editor está sempre “de caso” com vários autores ao mesmo tempo!

Foi assim com outros livros da editora, em especial com dois muito importantes na história da Companhia das Letras: Chatô, o rei do Brasil e O Xangô de Baker Street. O primeiro eu recebia por capítulos e conversava com Fernando Morais imediatamente. Discutíamos a sequência da redação e possíveis lacunas a serem preenchidas. Pensávamos o livro enquanto ele ia sendo escrito. Esse foi também o primeiro grande contrato da Companhia das Letras. Quando meu pai soube do adiantamento pago a Fernando Morais — nessa época a editora ainda existia nos fundos da gráfica da minha família —, quase tive que pedir auxílio a uma equipe de paramédicos. O livro foi entregue com enorme atraso, mas eu soube demonstrar ao autor, ao longo de muitos anos, toda a minha paciência e a importância que dava ao livro na minha carreira de editor. Ler os originais do Chatô aos pedaços foi um prazer imenso.

O mesmo ocorreu com o livro de Jô Soares. No entanto, neste caso, eu e a Lili recebíamos os originais quase página a página, por fax (quando ainda não havia e-mail), a qualquer hora do dia, sabendo que em Higienópolis um autor ansioso aguardava os comentários da historiadora e do editor, próximo ao telefone. Acompanhar livros desta maneira, como um longo parto compartilhado, analisando não só a narrativa, mas também discutindo caminhos e opções de trama e organização das informações, cria laços ainda maiores com os autores e com seus livros. O carinho que desenvolvi com Jô Soares e  Fernando Morais, e em certo sentido com Ingrid Betancourt agora, é memória que fica para sempre, cicatriz das boas, feita de orgulho e emoção.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.