Que loucura!

Por Luiz Schwarcz


(Foto por Why Tuesday)

Assisti com grande emoção ao filme José e Pilar, de Miguel Mendes, cuja estreia aconteceu no festival de cinema do Rio de Janeiro nesse fim de semana. Estávamos lá, Lili e eu, com Pilar e Miguel, sem o José, infelizmente. Na Pérgola do Copacabana Palace, lembrei-me da última visita ao Rio com Saramago, para o lançamento mundial de A viagem do Elefante, quando parte do filme de Miguel foi rodado.

Algumas cenas, no entanto, não foram captadas pelas lentes do cineasta, e merecem ser contadas.

Naquela ocasião chegamos ao hotel, vindos de São Paulo, onde havia sido inaugurada a mostra A Consistência dos Sonhos, sobre a vida e obra de Saramago. Já era noite. Havia tantos seguranças na porta do hotel que comentei com José que o Copacabana Palace deveria estar abrigando um congresso de guarda-costas. Os brutamontes trajados de preto, com fios plásticos enrolados baixando dos ouvidos e se escondendo por dentro das camisas brancas, faziam parte da entourage do presidente da Rússia Vladimir Putin, que teria um encontro com o presidente Lula na manhã seguinte à nossa chegada. O Copa abrigaria naquela noite dois presidentes, um prêmio Nobel, além de — sem exagero — uma centena de seguranças. A cada corredor esbarrávamos em um, quando não acontecia deles trombarem, sem a menor consideração, em quem estivesse à sua frente.

Durante a estada fui literalmente abalroado por um deles, que empurrava um carrinho com as bagagens de algum banbanban cossaco. Quase atirado ao chão, voei instintivamente na direção da parede ambulante russa, com o dedo em riste, gritando: “tenha respeito, este é o meu país, o meu país, não o seu!”. Lili, minha mulher, temendo pelo pior, deu um jeito de me afastar dali no mesmo instante. Um bocejo do guarda-costas e eu já faria parte do passado; teria entrado para a história como o editor morto por um segurança russo em pleno Copacabana Palace.

Na manhã seguinte, aproveitei minha insônia matinal para nadar. Na piscina encontrava-se uma moça de gestos exagerados, e que pedia atendimento constante. Água de coco, toalhas…

Num determinado momento, mesmo tentando me compenetrar em minhas braçadas, não pude deixar de ouvir a moça na raia vizinha gritando: “Que loucura! Que loucura, Dona Marisaaaa, que loucuraaaa!”.

Ergui a cabeça e vi a primeira dama passando pela borda da piscina enquanto a socialite, pouco discreta, acenava vigorosamente, e em altos brados repetia seu bordão: “Que loucura!”.

Quando saí da água, ela se aproximou e perguntou o que eu havia achado de seu happening com a esposa do Presidente Lula. “Mesmo aqueles que estão no poder, nem sempre gostam de manifestações tão calorosas”, foi o que respondi.

Tentando me desvencilhar da moça, comecei a vestir meu roupão. Percebi então que, ao meu lado, a colega de braçadas imaginava que eu devia tê-la reconhecido. Nada feito, sou péssimo fisionomista, não frequento as festas da noite carioca e quase não vejo televisão. Olhei para o outro lado e vi que José, em seu charmoso suéter rosa, vinha em nossa direção, apoiado nos braços da Pilar. Tentei evitar, mas não houve tempo. A moça voltou-se para o casal e disse:

“Espera aí,  eu conheço eles dois — GABRIEL, é o GABRIEL”, e foi correndo abraçar o prêmio Nobel trocado, sem que eu tivesse tempo de dizer que não se tratava de Gabriel García Márquez.

Com delicadeza, tentei proteger nosso autor de uma abordagem mais longa, quando fui mais uma vez questionado:

“E você quem é? O que faz?”

“Trabalho numa editora, a que edita o José Saramago.”

“Puxa, que coincidência, como é mesmo o seu nome? O Bonetti da rede Globo falou que eu tinha que falar com você. Quero escrever um livro. Você conhece o Bonetti?”

“Infelizmente não.”

“Então foi outra pessoa”, e declinou mais um nome que eu não conhecia.

“Desculpe, também não conheço. Me desculpe, mas preciso sair. Se quiser pode enviar seu livro para o endereço que consta nos livros da editora.”

Afastei-me tentando proteger José e Pilar de novas investidas, e fui para o meu quarto, precisava me preparar para o programa matinal.

Quando entrei no corredor, senti que uma agitação acontecia às minhas costas, em torno da porta. Já a meio caminho, quase chegando no elevador, ouvi a nadadora cheia de energia gritar para mim, com sotaque carregado, provando que memorizara meu nome:

“Esporte é saúde, Luiz Schwarcz, que loucura, esporte é saúde, Luiz Schwarcz.”

Até hoje não sei o que incitou tal exclamação.

Foi só no almoço, naquele mesmo dia, o último em que estiveram juntos Chico Buarque e Saramago, que fiquei sabendo quem era a personagem que enchera a minha manhã de momentos memoráveis. Pelo bordão, Chico logo reconheceu.

Os leitores terão que adivinhar. Eu não direi nada além do que já não disse.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

14 Comentários

  1. Camargo disse:

    Saber das tolices da tal socialite N.T. não rendem espanto, entretanto, tomar conhecimento do boato sobre o namoro dela com o dito intelectual GF, um jornalista respeitado e de opinião ácida, isso gera, mesmo, um grande susto. Daqui a 5 anos ela descobre que ele não é jogador de football, que não tem lanchas e mansões, não é fashion, nem é dono de empresas, ou algo do padrão de seus não menos (que ela) esfuziantes relacionamentos. Mas devemos considerar … “intelectuais” também têm direito de se cansar de conversar com gente inteligente; talvez o prestigiado jornalista esteja em fase de stress intelectual, o namoro deve ser indicação médica. “Escute uma dose cavalar de tolices diárias, depois volte para seu apart e escreva coisas algo que preste”
    Ou, talvez o intelectual em questão tenha sido cupidado por alguma fadinha mágica; e agora se rende aos encantos das festas de socialites, lançamentos de lojas de grife, festas de niver de cachorro… assim pode sair do mundo dos livros, roupas simples e cabeças pensantes. G. Fiuza deve estar se divertindo bastante no “pequeno” flat da vizinha do Copa, aliás, não são só as meninas que gostam de ter seu dia de Cinderela. Daqui a pouco ela o joga pela janela, grita Ai que loucura! Ai que inteligência! Ai que cérebro grande! Ai que pobre!… e o pobre vê sua carruagem virando abóbora novamente. Ou viverão felizes para sempre…

  2. Rs me diverti vendo a figura da N.T.:)) Ela é vizinha do Copa, vive ali. Que loucura! Amiga do meu ex, mas não a conheci.
    Vc falou no Chico, lembrei do dia em que vi vcs juntos no auditório da Globo- 94, acho, fui pelo Raduan-que eu gosto tanto.
    Fiquei na primeira fila, mas não gritei: “Que loucura!” No íntimo desejava isto, só que sou tímida, mas ver Raduan e Chico juntos é uma loucura- inenarrável :) Merci. Foi um dia inesquecível- acredito que para Raduan também. Encontro especialíssimo, fico feliz por ter estado lá.
    Abs, Elianne

  3. ariel auletta disse:

    Caro Luiz,

    Eu estava lá neste dia. É tudo verdade ! Mas …que loucura, não ?

  4. Leila Santos disse:

    Que pena Sr Luiz, sofro do mesmo mal que o senhor; não vejo televisão e sou péssima em lembrar rostos, até passo poucas e boas porque muitas vezes não consigo lembrar nem o nome! Xiii :)
    Mas enfim, permanecerei curiosa em saber quem é a tal figura que nem ao menos teve o bom senso de parar na hora certa!!

    Um abraço ao senhor e a Lili.
    Sem querer forçar a sua memória, trabalhei na Cia das Letras por um tempo auxiliando a Eliane Trombini.

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