Seis anos na selva, quatro meses de trabalho

Por Lucila Lombardi


Imagem retirada de vídeo enviado pelas Farc como prova de que Ingrid Betancourt estava viva.

Essa semana tem lançamento mundial de Não há silêncio que não termine, livro em que Ingrid Betancourt relata o período que viveu na selva colombiana, depois de ter sido sequestrada pelas Farc. Ingrid era uma das candidatas às eleições presidenciais de 2002, e sua comitiva foi interceptada durante uma viagem de campanha por um comando das Farc, a principal organização guerrilheira da Colômbia.

Ingrid passou mais de seis anos no cativeiro — em condições precárias, exposta a doenças, mudando de um acampamento para outro —, e nós tivemos apenas quatro meses para produzir um livro de quase seiscentas páginas em que ela narra tudo isso! Pra quem não trabalha na área, quatro meses pode parecer muito tempo. Mas, normalmente, um texto desse tamanho precisa, só para a produção (diagramação, revisão, capa, gráfica), de pelo menos três meses. Se somarmos todo o trabalho que vem antes disso — tradução, preparação, edição —, dá pra dizer que chegaria fácil a um ano. Mas desde o começo definimos que o lançamento seria em setembro (junto com as edições em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão e holandês), e sabíamos que teríamos de correr. “Vai ter que dar.”

A primeira notícia que tivemos, em meados de março, foi que o livro — que ainda estava sendo escrito — teria “pouco mais de duzentas páginas”. Em 14 de abril, já tinham virado 320. Em maio, quando finalmente chegaram os arquivos com o texto final, tivemos uma surpresinha: 523 páginas!

Se antes dessa notícia já tínhamos pensado em dividir a tradução em dois, agora ficava evidente que íamos precisar de mais mãos pra dar conta do recado. No fim de maio, depois de muitos e-mails e telefonemas combinando prazos (exíguos), dividindo os 82 capítulos e decidindo padrões, tínhamos quatro de nossos tradutores prontos para começar.

Em mais ou menos um mês, chegaram os arquivos de tradução, que foram prontamente enviados para a “santa” Cacilda — preparadora que sempre topa esse tipo de pepino urgente que a gente teima em arranjar (e sempre se sai muito bem, aliás). Além de preparar um livro desse tamanho em menos de vinte dias, ela teve de padronizar o texto de quatro tradutores diferentes e incorporar todas as emendas que chegavam da editora francesa. Porque o principal problema de editar um livro ao mesmo tempo em que ele está sendo feito lá fora é que começamos a trabalhar com o primeiríssimo manuscrito, e depois precisamos incorporar, além das nossas, todas as mudanças de texto feitas na edição original.

Devo confessar que foi um alívio quando fiquei sabendo que o livro não teria imagens nem índice. Porque, além de tudo isso, liberar os direitos de reprodução, conseguir os arquivos, tratar as imagens, ajeitar legendas, indexar (e fazer tudo isso no prazo) seria simplesmente impossível.

A Cacilda me devolveu o arquivo no dia 16 de julho. Cabia agora a mim ler todas as 599 páginas preparadas, resolver as dúvidas de cinco pessoas diferentes, decidir quais notas ficavam e quais caíam, ver se as sugestões que tínhamos mandado para a Ingrid depois da primeira leitura tinham sido feitas e encaminhar tudo para a produção até dia 20 (sim, fim de semana incluso).

Foi tenso, mas deu. E acho que só deu porque a história parece um thriller de aventura na selva. Os relatos das tentativas de fuga (e das frustrantes e repetidas capturas) são de tirar o fôlego. Eu me peguei várias vezes agoniada, torcendo para que ela conseguisse escapar, mesmo que já conhecesse o fim dessa história.

E bem quando eu achava que ia ter uns diazinhos de descanso até a chegada da primeira prova, começaram a pipocar no meu e-mail mais emendas da editora francesa. E toca a traduzir as passagens maiores, eliminar o que não se aplicava ao português, constatar que alguns erros já tinham sido corrigidos pelos nossos tradutores… Esses últimos retoques foram todos incorporados à primeira prova, que — pra desespero da nossa equipe de produção — ficou aqui na minha mesa bem mais que os dois dias que eles me concederam para mexer nela. Com a segunda prova não foi diferente: mais emendas, mais dúvidas, mais pepinos e menos prazo — dessa vez a produção me deu só um diazinho…

E agora, a qualquer momento, exatamente quatro meses depois da entrega do manuscrito, deve chegar às minhas mãos um livro novinho, com cheiro de livro novinho, desses que a gente se sente meio mãe.

[Leia matéria da revista Veja sobre a autobiografia de Ingrid, e ouça Fernanda Montenegro narrando alguns trechos.]

* * * * *

Lucila Lombardi é editora-assistente na Companhia das Letras.

20 Comentários

  1. […] publicado pela editora, me disse o departamento de produção — já foram muito bem ilustradas pela minha colega Lucila, em seu post sobre Não há silêncio que não termine, da Ingrid Bettancourt. Assim, e como o post já vai longo, acho que vale aqui reproduzir só uma […]

  2. Malu disse:

    Parabens Cacilda!!! estou muito orgulhosa de ser sua prima! agora preciso o livro em ingles lol lol

  3. […] Escoto vs. The World 20 setembro 2010, 1:03 pm Da […]

  4. […] Seis anos na selva, quatro meses de trabalho […]

  5. Santista disse:

    Muito legal! Achei que prazos caindo do céu era privilégio do povo de TI :). Um abracão!

  6. Ceres disse:

    huahua… muito bom o relato, imagino o desespero…
    agora deu vontade de ler o livro… bom era essa a idéia né??

    Bjos Ceres

  7. Anella disse:

    Cara Lucila,
    belo texto, adorável leitura!
    Parabéns!
    beijo
    Anella

  8. Astolfo disse:

    Excelente texto! Além de querer ler o texto, agora fiquei com vontade de procurar onde estavam os desafios de tradução e as emendas todas.

    Parabéns pelo trabalho!

    Astolfo

  9. Lucila disse:

    Oi, Manuela:
    O livro se concentra no período do cativeiro mesmo. Começa com o sequestro e termina com a libertação.
    Um abraço,
    Lucila

  10. Manuela disse:

    Estou muito curiosa para conhecer essa história. O livro fala também sobre o período turbulento depois que ela voltou para Bogotá?

    Manuela.

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