Sem nocaute

Nem Bolaño nem Roth. O primeiro embate da série Encontros Impossíveis, na noite de terça, promovido pela Companhia das Letras e pela Livraria da Vila, terminou empatado por pontos. As torcidas de cada um receberam as camisetas “Eu sou Bolaño” ou “Eu sou Phillip Roth” e, aparentemente — depois de muitas risadas, aplausos e discordâncias —, o resultado não frustrou nenhuma das duas. A turma de Roth foi defendida pela escritora, poeta e professora Noemi Jaffe, e a turma de Bolaño, pelo escritor, editor e designer gráfico Joca Reiners Terron.

O debate começou com jabs bem aplicados de Roth (Noemi) contra o que ela chamou de “estilo estiloso” do chileno Roberto Bolaño e sobre o risco de ele virar um escritor “da moda”. Bolaño (Joca) revidou com punchs contra o que caracterizou de “realismo psicológico” de Phillip Roth, criticando também a descrição de algumas cenas de sexo nos livros do escritor americano. Neste ponto do debate, o juiz (o escritor e jornalista Ronaldo Bressane) interferiu alegando que não seriam permitidos “golpes baixos”.

Noemi defendeu-se alegando que o que interessa mesmo em Roth são suas obsessões que se repetem em todos os livros (a mãe, a morte e o sexo) e que ele não glamouriza o fracasso: seus fracassados são fracassados verdadeiros, inclusive quando fazem sexo.

Joca não baixou a guarda e esquivou-se dizendo que os eventuais excessos estilísticos de Bolaño vêm da sua relação com a poesia (Bolaño considerava-se antes de tudo um poeta). Disse também que o escritor chileno é importante porque projeta para o mundo um novo momento da literatura latino-americana, até então internacionalmente marcada pelo realismo mágico de Gabriel García Márquez. Bolaño seria o grande representante da geração que foi obrigada a viver no exílio por causa das ditaduras latino-americanas dos anos 1970 e 1980, uma “geração sem lugar e sem rosto”.

Noemi Jaffe contou como conseguiu uma das raras entrevistas com Roth (escreveu a seu agente dizendo que “era filha de mãe judia e viveu no Bom Retiro”, um aspecto comum aos temas rothianos) e de como ele foi extremamente duro com ela durante a entrevista. Joca Terron contou que descobriu Bolaño nas páginas do jornal espanhol El País, e que ele mesmo, Joca, foi a “primeira pessoa que falou para mim sobre a existência de Roberto Bolaño”.

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3 Comentários

  1. Rogério disse:

    Garcia G. Márquez fala que uma das piores tentações dele e dos escritores era “patinar” nos mesmos temas. Roth patina no sexo, na mãe e na morte (se é que ela deixa, hehe). Isso não compromete em nada seu talento. Updike fez o mesmo, como anotou Cheever: sua literatura fala das preocupações gerais da classe média americana da zona leste do país. Literatura americana passa pelo sul do EUA, pelo meio oeste e oeste do país. Ali está a verdadeira literatura, razão porque os “beats” idealizaram no oeste a grande fronteira da literatura moderna americana.

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Joca Reiners Terron, ivana arruda leite, veronicacouto, Tiago Germano, Alexandre Melo and others. Alexandre Melo said: Sem nocaute « Blog da Companhia das Letras http://bit.ly/98FExK […]

  3. Arthur disse:

    Ficou muito legal a narração do boxe literário. Lembrou “A marca humana”, do Roth, e o pai do Amalfitano em 2666.

    Gosto muito de ambos, mas acho que o embate não foi tão empatado assim: creio que Bolaño tenha ganhado 1 ou 2 pontinhos a mais. =)

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