Freedom

Por Luiz Schwarcz

Cerulean warbler, o pássaro estampado na capa de Freedom.

Bem, para os que querem saber como me virei com os encontros simultâneos em Frankfurt, sobre os quais comentei no meu último post, a resposta é simples. Um luxo total: aluguei um carro com motorista, tive que pagar por uma taxa mínima de duas horas, e utilizei o transporte por 15 minutos. Saí correndo do encontro com a minha amiga (e agente da William Morris) Raffa, em que falamos mais sobre a filhinha dela do que de qualquer livro novo. O que mais me interessava nessa agência era uma grande reportagem sobre o oceano Atlântico, escrita por Simon Winchester, que já havíamos comprado nas vésperas da Feira. Terminado o encontro, lá fui eu, acompanhado pela Ana Paula*, devidamente choferados, para o coquetel em homenagem a Jonathan Franzen.

Por conta do sucesso de Freedom nos Estados Unidos, e por causa do folclore do lançamento na Inglaterra — onde milhares de erros tipográficos, motivados pela utilização de um arquivo errado, fizeram com que a edição fosse praticamente tirada do mercado, e ainda mais pelo fato do autor ter tido seus óculos arrancados do rosto em plena noite de autógrafos em Londres por dois gaiatos que deixaram um pedido de resgate (dos óculos!) de 100.000 dólares, tendo sido perseguidos por helicópteros da polícia e presos —, Franzen era das grandes estrelas da festa.

No carro, super ocupado com meus afazeres relativos à orquestra sinfônica de São Paulo, esqueci de avisar a Ana Paula que, na noite anterior, num jantar da editora de Franzen, ouvi de seu editor americano, Jonathan Galassi, o seguinte: “Luiz, ainda não convide Franzen para ir ao Brasil. Ele está super requisitado aqui em Frankfurt e vai negar. Em dezembro, quando você estiver em Nova York, faço um jantar para vocês e aí o convidamos. Eu até, quem sabe, gostaria de ir junto”.

Ao chegar no bar, levemente atrasados, eu ainda tinha o celular colado à orelha, quando vi a Ana dirigir-se ao autor e, sem mais delongas, dizer: “Nice to meet you, mister Franzen, we are your brazilian publishers and we want to invite you, once more, to come to Brazil, for the launching of Freedom”.

Ela não poderia ter sido mais direta. Só tive tempo de desligar o telefone, colocar uma mão na cabeça e replicar: “But only if you want to, don’t worry, we can speak about it later…bla bla bla”.

Franzen não se importou com a abordagem direta da Ana, e, sorrindo, comentou que mais duas pessoas da editora já o haviam convidado: a editora Maria Emília, que chegara antes de nós, e que também não fora alertada por mim, e a Joana Fernandes, responsável pelo marketing, e que em Nova York, duas semanas antes, havia se postado numa fila de autógrafos só para poder dizer: “Mister Franzen, I work at your Brazilian publishing house, please come to Brazil!”. Deu certo, elas conseguiram convencer o jovem e badalado autor, e quem sabe Liberdade será lançado por aqui em grande estilo. Espero…

Fiquei apenas dez minutos na festa de lançamento de Freedom. Como escrevi na semana passada, tinha que chegar ao jantar da editora Hanser cedo, para sentar-me com David Grossman. Antes disso, fiquei outros 5 minutos no coquetel da editora Shangai 99; tempo suficiente para pedir desculpas, marcar outro encontro e seguir para a sala ao lado, a fim de grudar no meu querido amigo israelense. O Frankfurter Hof possui um pavilhão só com salas para recepções, que comporta todos esses eventos simultâneos.

O jantar foi o que de mais bacana me aconteceu em Frankfurt neste ano. Além dele, algumas contratações importantes e a leitura confidencial das primeiras cem páginas das memórias de Salman Rushdie sobre o período da Fatwa tomaram o resto dos meus dias. Sobre o novo livro de Rushdie, o jantar e minha amizade com Grossman, pretendo escrever mais, logo mais.

*Ana Paula Hisayama trabalha na Companhia das Letras e é responsável por negociar os direitos de obras publicadas no exterior.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

7 Comentários

  1. […] momento leio no iPad Freedom, sobre o qual já escrevi anteriormente. O lançamento fenomenal nos Estados Unidos me fez sentir, além da vontade, a obrigação de […]

  2. […] de bolso 22 outubro 2010, 12:09 pm Colunistas Luiz […]

  3. Adriana de Godoy disse:

    Ai, fiquei ansiosa pela correria da narrativa e também por saber mais sobre as memórias de Rushdie…ainda por cima começam na Fatwa!!! Ai que livro maravilhoso. Tudo, absolutamente tudo que Rushide escreve é de um impacto suspirante, com um beijo inesperado. Eu o amo, e é claro, tudo começou pra mim com O último suspiro do Mouro.

    Obrigada por ser gentil e compartilhar essas coisas maravilhosas, e também pela sua humanidade.

  4. Luiz Schwarcz disse:

    Muito grato pela simpática sugestão. Estou fazendo isto no blog. É muito cedo no entanto para pensar em livro, ainda vou errar muito, e aí quem sabe se achar que ainda terei o que dizer…

  5. paulo paniago disse:

    esse fascinante mundo editorial, narrado tão bem, seja nos momentos de sufoco como uma feira internacional, seja nas histórias mais intimistas com caio gracco ou jorge zahar, seja para contar da criação de uma festa literária, ou para falar dos contatos com autores, dá aos leitores (eu sei, não tenho procuração para falar em nomes deles, mas não imagino que esteja muito equivocado…) a sensação de que é chegada a hora de escrever a respeito desse mundo editorial não apenas no blog, mas quem sabe num livro?… seria muito bom ler um apanhado do que pensa um grande editor a respeito dos bastidores da própria atividade, inclusive os capítulos poderiam versar sobre essas coisas: feiras nacionais, internacionais, relações com outros editores, com escritores, com leitores, com livreiros… pense nisso, por favor, luiz

  6. Linda a foto. Moro numa casa e salvo pássaros das garras dos gatos- tadinhos… qdo caem já estão frágeis e os gatunos hã…
    O mundo dos livros é fascinante, imagino que haja certo stress nestas feiras, mas, de longe, é tudo très chic e bonito.
    Abs, Elianne
    PS: Coloquei sua página- da Cia- no Facebook e foi aceito, antes tentei um dos meus blogs, onde hj está publicado o artigo do Contardo Calligaris sobre aborto, recusaram como material impróprio ou SPAM.
    Ainda bem que não sou paranóica.
    tsc tsc tsc
    o @CCalligaris está aqui: http://www.orientacaopsi.blogspot.com

  7. […] This post was mentioned on Twitter by Jackson Guedes Moura, Companhia das Letras. Companhia das Letras said: Luiz Schwarcz convidou Franzen p/ vir ao Brasil, leu as memórias de Rushdie e conseguiu cumprir sua agenda em Frankfurt http://bit.ly/9j0etB […]

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