O homem que sabia albanês

Por Bernardo Joffily

Tinha eu 23 anos de idade quando iniciei, em 1974 — com a mulher e a filha de oito meses —, uma temporada de cinco anos na Albânia, como radialista na transmissão em ondas curtas da Rádio Tirana para o Brasil. Por aqui corriam os tempos do general Garrastazu Médici, e quero crer que a Rádio teve seu mérito ao falar aos brasileiros de temas proibidos como a Guerrilha do Araguaia.

Foi como tropecei no albanês.

Quase duas gerações mais tarde, as pessoas ainda se espantam ao dar com um tradutor — quero crer que o único na ativa — do albanês para o português. De vez em quando alguém não resiste à tentação de comparar-me ao personagem do delicioso conto de Lima Barreto. Respondo, com uma ponta de vaidade, que “o homem que sabia javanês” é café pequeno em matéria de línguas recônditas: ele aprendeu o idioma falado por 75 milhões de javaneses; enquanto meu albanês tem não mais que uns 3 milhões de falantes na Albânia, outros tantos em Kossova (que os brasileiros conhecem como Kosovo, na grafia meio arrevesada que nos chegou via sérviocroata e inglês), mais um milhão espalhado pelos Bálcãs e o mundo.

Pense nas línguas indoeuropeias como uma grande árvore. No meio dos numerosos galhos frondosos, há uma folhinha que sai diretamente do tronco, sem nenhum parente próximo. É o albanês: tão próxima do português como do persa, do russo ou do bengali. E ainda com declinações…

Gosto de supor alguma valia em meu trabalho de tradutor por servir de ponte, ainda que precária, entre dois pedaços de humanidade que se conhecem tão pouco.

A ponte só tem funcionado graças a Ismail Kadaré, o premiado romancista albanês que a Companhia das Letras publica no Brasil há duas décadas.

Foi de Kadaré o primeiro romance albanês que li, em francês, ainda a caminho de Tirana: O general do exército morto. Desde ali ele me cativou. Ainda pelejo para ver O general publicado no Brasil, pela primeira vez, não só por motivos sentimentais mas porque foi quem revelou aos ocidentais o talento kadareiano.

Kadaré costuma aparecer na “ala” literária que se poderia chamar de pós-Muro de Berlim, e teve seus 15 minutos de fama. Isso o coloca numa companhia que não merece: no século que vem duvido que alguém lembre dos outros da ala pós-Muro, se é que já não estão esquecidos, mas com certeza muita gente no mundo há de dar valor à obra tão albanesa e tão universal do autor do General.

É com gosto, portanto, que vou fazendo minha ponte, ou pinguela. A despeito de todas as distâncias e diferenças, temos em comum, brasileiros e albaneses, o fato de habitarmos de certa forma dois “cantos do mundo” — ainda que alguém possa se chocar com a noção de que o globo terrestre tem cantos. E um mundo sem cantos só terá a ganhar com traduções do albanês para o português. Ao nos aproximar e conhecer vamos sempre nos tornando mais… humanos…

* * * * *

Bernardo Joffily é jornalista e fundador do portal www.vermelho.org.br. Traduz obras do inglês, francês, espanhol, italiano e em especial a obra do romancista Ismail Kadaré, do albanês.

19 Comentários

  1. vaneska carla da silva disse:

    Boa noite a todos.
    Meu marido é albanes,e virá para o Brasil em abril de 2015.
    Gostariamos de saber comunidades albanesas aqui no Brasil e possibilidades de trabalho para quem sabe a lingua. Se puder nos ajudar. grata.
    Vaneska e Arboren.

  2. Simone Garcia disse:

    Olá
    Preciso de um tradutor juramentado albanês, será que alguém poderia me indicar, para tradução da minha certidao de casamento q foi emetida em kosovo, pois meu marido e de lá.
    Obrigada

  3. Erald Maksuti disse:

    Ok muito obg Sr. Clovis.
    Abracos

  4. Clovis Pacheco Filho disse:

    Prezado Harald, perdoe-me pela demora da resposta, porque só agora li sua postagem.
    Infelizmente, não sei albanês…
    Acho que o tradutor de Kadaré, Bernardo Joffily, deve conhecer alguém que o saiba, ou talvez ele mesmo tenha essa habilitação.
    Procure entrar em contato com ele por meio da editora, a Companhia das Letras.

    Abraços, e felicidades!

    Clovis

  5. Renata Fataj disse:

    Prezados,
    diante da inexistência de um tradutor juramentado, consegui casar no Brasil da seguinte maneira:
    Providenciei todos os documentos necessários na Albânia e lá mesmo os traduzi para o inglês, com reconhecimento de um notário. Depois levei toda essa papelada (em albanês e inglês) para o Consulado do Brasil em Tirana e os consularizei.
    Apresentei a documentação no cartório daqui de Belo Horizonte e deu tudo certo.
    Espero ter ajudado!
    Meu e-mail é: renataneryf@hotmail.com
    Qualquer dúvida é só me escrever!
    Abraços e boa sorte!

  6. Erald Maksuti disse:

    Sr. Clovis queria saber se o senhor tb e tradutor juramentado em albanes?? Ia me ajudar mt pq to tendo grande dificultades pra encontrar um.

  7. Erald Maksuti disse:

    Oi Laura td bem?? eu vi q vc ta casada com um albanes. Eu querisa saber se vc encontrou algum tradutor juramentado aki de albanes, e se nao como vc resolveu essas coisas de traduçao?? Espero numa resposta sua. Mt obg

  8. Sérgio Osora disse:

    Que alegria seria se “O general do exército morto” fosse publicado pela Companhia, com tradução direta do albanês, diferentemente da edição da Objetiva.

  9. Fitim disse:

    Prezado sr. Clovis, fico muito feliz por saber da sua contribuicao nos momentos dificeis do Kosovo, a maior esperanca do povo do Kosovo nesses momentos era que a gente sabia que nao somos abandonados, a gente percebia que temos amigos ao redor do mundo (como vc). Eu nao sei de qual parte do Brasil vc esta falando, mas no dia 23 de setembro, as 18:00 hrs no Palacio Das Artes na sala Juvenal Dias sera o ultimo dia do Festival das Curtas em Belo Horizonte, e sera exibido o filme do Kosovo tambem, que e chamado Kthimi ou em ingles The Return, sugiro assistir-lo caso poder. Portanto sera um prazer conhecer-lo pessoalmente tambem, caso esta em Belo Horizonte, podemos tomar um cafe e conversar mais sobre Albania e Kosovo tambem. Abracos.

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