O misterioso universo do imponderável

Por Júlia Moritz Schwarcz


(Foto por Jeremy Kunz)

Outro dia respondi a algumas perguntas de uma jornalista da Folha de Pernambuco. E me dei conta de que situações como essa — em que é preciso parar pra pensar, lembrar, somar indícios e cifras — me fazem aprender sobre o meu próprio trabalho. Olha só essa pergunta, por exemplo:

Que atrativos, de um modo geral, vocês procuram trazer nos livros do selo infantil na tentativa de conquistar o interesse dos pequenos? (Em termos de conteúdo, atrativos gráficos, sonoros.)

Em primeiro lugar, apostamos na boa literatura, tanto no conteúdo quanto na forma: a fantasia inventiva, o cuidado pedagógico, o texto gramaticalmente e literariamente bem composto. A tudo isso se acrescenta o apuro gráfico: ilustrações que dialoguem com o texto e que contem a sua parte da história, em um projeto gráfico e formato pensados com o conjunto.

Na Companhia das Letrinhas, o enfoque é o bom livro, aquele tradicional (história + desenhos), sem que precise necessariamente de outros atrativos, como botões sonoros ou dobraduras. Também fazemos livros-brinquedo, mas de fato nos concentramos na produção de boa literatura e acreditamos que a fantasia das crianças dialoga muito bem com o livro tradicional.

Bom, essa receita de bolo foi a resposta, verdadeira, claro, que dei à jornalista. Mas fiquei pensando que, fora do papel, tudo é muito mais variado. Cada livro tem o seu caminho, desde o nascimento da ideia até o seu histórico de vendas, e tudo isso faz parte do misterioso universo do imponderável. Sei que não faço ciência, o que muitas vezes é frustrante, mas a experiência acaba indicando alguns pontos que são, sim, padrões que os livros infantis seguem.

Por exemplo, ao contrário do que acontece com o mercado de literatura adulta, os livros infantis tendem a uma vida menos emocionante logo de cara, porém mais estável. São o que chamamos de livros de catálogo: apesar de dificilmente estourarem de vender quando de seu lançamento, continuam vendendo bem no mês a mês e por décadas. Por isso, acabam tendo um papel igualmente importante no balanço de uma editora.

Além do mais, é muito difícil conseguir que alguma obra para crianças seja resenhada em cadernos de cultura (os suplementos infantis têm um impacto menor), e em geral não se investe pesado em marketing. Com as livrarias é parecido. Elas cada vez mais têm seções infantis, mas que costumam ficar lá mais no fundo. Quantos livros infantis ficam naquelas gôndolas de destaque logo na entrada? O foco são as adoções e o sex appeal do próprio livro — a boa literatura e as ilustrações.

Claro que, muitas vezes, mesmo com tudo do bom e do melhor, um livro acaba tendo vida curta. E quem vai saber dizer o porquê disso tudo? O misterioso universo do imponderável, talvez? Se alguns livros nascem para morrer sem ganhar muitos leitores, uma coisa é certa: as crianças vivem a partir das histórias — aprendem, experimentam, criam, se divertem, se resolvem, etc. — e terão sempre a cabeça cheia de ficção, mesmo que vivendo em Marte. Imaginar faz parte da natureza da humanidade — olha eu querendo fazer ciência…

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

7 Comentários

  1. […] que avança na literatura. Enquanto o Blog da Cosa Naify entrevistou com Peter Esterházy. Julia Moritz Schwarcz fala no Blog da Companhia sobre publicação de livros infantis. Nno twitter, o @mathlfreg sugeriu […]

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Bárbara Garcia, Companhia das Letras. Companhia das Letras said: A tarefa difícil, mas compensadora, de fazer um livro que conquiste as crianças. Hoje, na coluna de Júlia M. Schwarcz: http://bit.ly/dqAJhV […]

  3. Adriana de Godoy disse:

    Só tenho a agradecer o trabalho excepcional feito na editora, especialmente em obras como as de Cornelia Funke.
    Apesar de eu ser adulta, a trilogia dessa autora sobre o Mundo de Tinta mudou minha vida, encheu-a de magia e encanto e me fez refletir que o mundo quadradinho de hoje é tremendamente chato, o que pode nos levar a doenças.
    Cabe a nós enchermos os olhos e a vida de encanto e deslumbramento. E a leitura é sempre janela e caminho; viva a boa, velha e antiquíssima boa literatura, que será para sempre.
    Sonhei várias vezes que eu estava com Mo e os outros num mundo deslumbrante. Quando eu li Cornelia, fiquei embasbacada. E olha, eu já sou uma criança bem crescidinha…
    Obrigada a todos vocês por tornarem a vida muito, mas muito mais encantadora. A boa literatura sempre será companhia, reconforto. Pelo menos eu sinto assim.

  4. Mariana Mendes disse:

    Boa Jú! O imponderável vive nos rondando aqui na divulgação com professores. E isso não deixa de ser fascinante, se tivéssemos receita para tudo ia ser muito chato!
    bjs, Mari

  5. Ernani Ssó disse:

    Em primeiro lugar, a boa literatura? Vida longa à Companhia das Letrinhas.

  6. marcia mattos disse:

    fui na primavera do livro 2010, aqui no rio e o todas as editoras que apostaram em livros infantis estavam lotadas de pessoas olhando e comprando, às vezes, três, quatro livros, para seus filhos, netos.
    na bienal do livro do ano passado foi a mesma coisa.

  7. Lisi Bender disse:

    Livros infantis são os melhores, pois ficarão para sempre na memória dos pequenos. Eles não “estouram”, mas permanecem!

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