Traduzindo Bolaño

Por Eduardo Brandão

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A construção da Torre de Babel, pintura em óleo por Hendrick van Cleve.

O tradutor, de certo modo, é um profissional das sombras. Não que se envolva nelas para, sorrateiramente, na primeira oportunidade, cravar um punhal traiçoeiro nas costas do autor, e de quebra ferir o coitado do leitor. Mas porque seu lugar, vamos dizer, funcional é à sombra do autor: é nesse que a luz incide, e deve incidir. É dele a obra. É ele o criador. É o nome dele que aparece na capa e na lombada. O do tradutor, geralmente, apenas na página de rosto, quando muito um editor mais generoso o põe na quarta capa.

Você talvez ache esquisito que, num mundo em que os holofotes parecem ser tudo, alguém opte por ficar à sombra. “Este cara — a esta altura você já percebeu que sou tradutor — deve morrer de medo de se expor!” Mas a gente se expõe sim. O que o tradutor leva de pancada você não imagina. Os italianos, com aquele seu veneno renascentista de que usaram e abusaram nas lutas pelo poder, pródigos nele foram os Bórgias, chegaram a cunhar um dito peçonhento: traduttori, traditori — tradutores, traidores. O autor comete uma passagem infeliz? O tradutor respira fundo e a reproduz: não cabe a ele corrigir o autor (salvo com o consentimento deste, se vivo: correção psicografada não vale). O leitor percebe a falha e não hesita: “este tradutor é um traidor!” Natural, depois de tantos séculos e tanta gente dizendo isso… Deve ter até quem ache que só existimos para atraiçoar o autor.

Mas não é essa nossa razão de ser, você sabe. Modéstia à parte: à sombra e tomando água fresca, o tradutor cumpre uma função imprescindível, a comunicação entre povos de fala diferente. A certa altura da Educação sentimental, Flaubert aponta que há homens que têm como missão servir de intermediários; você os atravessa como uma ponte, diz ele, e segue em frente. O tradutor é uma ponte assim, que leva o autor estrangeiro a seu leitor e vice-versa.

Voltando ao jogo de luzes e sombras. Faz uns anos, circulava com certa desenvoltura a ideia de que tradução é recriação, o que tornava de certo modo o tradutor um coautor. Isso pode ser verdade na poesia, onde o poeta que verte outro poeta cria um novo poema, de que o original é a matéria-prima. Para citar um pernambucano, é só ler as traduções do Bandeira. CQD.

Mas na prosa essa ideia é incabível, salvo em casos excepcionais. Nela, a tradução perfeita seria a que replicasse tal qual o texto original, criando como que um clone deste na língua do tradutor, feito aquela simpática ovelhinha, como se chamava mesmo, Dolly? Meta inalcançável, claro. Nessa impossibilidade, o tradutor, fixando sempre essa estrela guia, trata de se manter fiel a seu autor, à letra do seu texto, ao seu estilo.

Isso do estilo é uma questão muito séria. Outro dia mesmo foi levantada pelo Paulo Bezerra, esplêndido tradutor de Dostoiévski. Numa entrevista mostrava ele como as traduções antigas deformaram sua escrita: nossos tradutores verteram de segunda mão, geralmente das péssimas (isso o Bezerra não disse, digo eu) traduções francesas do XIX começo do XX, que edulcoravam a linguagem rude do russo genial. Bezerra a restitui, essa rudeza, como aliás as novas traduções que vêm sendo feitas na França. Às vezes, um autor de estilo enrolado, que o tradutor tem de respeitar, provoca novas lambadas no tradutor: “Eta tradução enrolada!” Nem passa pela cabeça do leitor que é uma característica do autor.

O tradutor, ao escrever sua tradução, se esforça por se anular como escritor. Pronto, lá vem você outra vez: “Não disse que este cara tem um problema? Acha o máximo se anular!” Acho mesmo, mas isso só mostra que o tradutor é um ser perfeito, além de sábio e inspirado. Não é pretensão minha, não, quem diz assim é uma máxima taoísta, e com taoísta não se discute, que eles sabem das coisas. Olhe só: “O homem perfeito não tem eu [o tradutor se anula], o homem inspirado não tem obra [ela é do autor], o homem sábio não deixa nome [quem deixa é o autor]”. Viu?

Bom, tudo isto vem à baila por causa de um autor que traduzo desde sua primeira obra publicada aqui (Noturno do Chile, em 2004): Roberto Bolaño. Só não verti uma, Estrela distante, que ficou aos cuidados do Bernardo Ajzenberg. Os refletores já tinham se acendido sobre Os detetives selvagens, a segunda a sair no Brasil, a qual demonstrava ser Bolaño um marco da literatura hispano-americana contemporânea. Este ano focaram-no a plena luz com o lançamento de 2666, que o confirma como um dos mais importantes autores do século XXI e que teve uma formidável repercussão, aqui e no mundo todo. Foi tanta luz, que até o tradutor saiu da sombra. (Fico imaginando como deve se sentir o bacurau quando o farol do carro bate em seus olhos.)

E tome telefonema e e-mails indagando sobre o mister de tradutor, sobre minhas traduções do Bolaño, sobre ele, sua obra, até artigo me pedem, como você está vendo.

Bem, já disse o que penso sobre meu ofício, como procuro exercê-lo e como é portanto o trabalho (prazer imenso) de traduzir Bolaño. Agora vou fazer que nem o bacurau: voar de volta pra sombra, vai que o carro me atropela…

* * * * *

Eduardo Brandão traduz principalmente do francês e do espanhol, com predileção pelas literaturas espanhola e hispano-americana contemporâneas. Veja aqui as obras que ele traduziu pela Companhia das Letras.

[Este texto foi publicado originalmente no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco.]

10 Comentários

  1. […] Do blog da Companhia das Letras, da colunista Vanessa Barbara, O preparador, esse desconhecido; do tradutor Eduardo Brandão, Traduzindo Bolaño […]

  2. Discussão bastante complicada essa, Eduardo. Sua posição é tão polêmica quanto outras tantas que surgem no métier tradutório, visto que, apesar de à sombra, nossa ousadia é também de grande tamanho. O mestre Boris Schneiderman disse em uma entrevista que a tradução seria um grande ato de ousadia e, assim sendo, o tradutor acaba saindo da sombra e água fresca e ganhando louros e, muito mais que louros, sarna pra se coçar. Parabéns pelo texto e pelas ótimas traduções.

  3. […] e, ainda o Braulio, resenhou Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño  . Ainda sobre Bolaño, no blog da Cia. das Letras saiu uma matéria do Eduardo Brandão sobre a experiência de traduzir as obras do […]

  4. nina maria disse:

    O que seria do autor sem um bom tradutor? Obras belíssimas perdidas no tempo e estacionadas nas fronteiras. Ambos trabalhos são necessários e de extrema relevância.

  5. Vladimir Melo disse:

    Muito interessante o texto do Eduardo Brandão. Gostei demais. Como leitor exigente, seria um imenso prazer conhecer um pouco mais dos outros tradutores da editora, muitos dos quais já foram agraciados com prêmios importantes da literatura, tais como Paulo César de Souza, Modesto Carone, José Rubens Siqueira etc. Fica a recomendação. Parabéns!

  6. Marcos disse:

    Parabéns, Eduardo! Eu, particularmante, adoro Bolaño, e aprovo suas traduções! Já li umas 3 ou 4 obras dele do original, mas “Detetives” e “2666” foram a partir de você, e posso garantir que Bolaño, ali, é o mesmo nas duas línguas. Mas, enfim, achei demais esse teu artigo! Gostei muito de conhecer as características essenciais de quem traduz…

  7. Giu Alonso disse:

    Caro Leitor,

    Seu problema é de fácil resolução: é só aumentar a fonte em Ferramentas do seu navegador.

  8. Leitor disse:

    vcs poderiam aumentar a fonte dos textos, acho que ficaria melhor de ler.

  9. […] This post was mentioned on Twitter by Katrina., Arthur Kenzo Higasi. Arthur Kenzo Higasi said: Post do Eduardão Brandão, o bacurau, sobre a tradução do 2666. http://j.mp/aLLUMG […]

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