Fotografando pessoas

Por Renato Parada

A ideia que tenho de fotógrafo não é das melhores. Penso em um sujeito desconhecido que chega, com uma câmera na mão, pedindo para o fotografado repetir gestos e expressões, colocando-o muitas vezes em situações ridículas, repetindo tudo, à exaustão, até o sujeito do outro lado da lente ficar cansado e, talvez, se sentindo a maior fraude do mundo.

É o que imagino que as pessoas esperam de mim quando vou fotografá-las. Quando o retrato é de escritores, esse contrangimento antecipado piora um pouco. São pessoas inteligentes, com senso estético apurado,  acostumados e muitas vezes cansados de lidar com a imprensa.

Lembro da última vez que José Saramago veio ao Brasil. A Companhia me contratou para fotografá-lo. Haveria uma rápida e reservada sessão. Apenas eu e outro fotógrafo de uma rede de tevê em que Saramago dava uma entrevista.

Meu colega foi mais rápido e avisou que seria o primeiro. Após os primeiros cliques, ele pediu para um Saramago que acabara de escapar da morte: “Dê um sorriso!”. Recebeu como resposta algo mais ou menos como “Não acho que meu sorriso em fotos transmita algo de sincero”.

Quando chegou minha vez, não troquei nenhuma palavra. Fiz poucos cliques. Ele estava cansado, e rapidamente dei por encerrada a sessão. A foto não ficou tão boa como eu imaginava. Fiquei um pouco decepcionado, me questionando se não deveria ter insistido um pouco mais.

O desafio de fotografar qualquer pessoa é fazê-lo da forma mais rápida possível, sem incomodar muito, e ao mesmo tempo dar significado a um momento com grandes chances de passar despercebido.

O resultado dessa comunicação, que aparentemente acontece de forma precária em contraponto com as infinitas possibilidades da fotografia, é o que tanto me fascina e surpreende durante as sessões.

Uma lembrança marcante é de quando, também para a Companhia, fui fotografar o escritor e historiador da USP Boris Fausto. Boris passava por um momento dificílimo. Acabara de perder sua esposa. Porém, me recebeu de forma excelente. Sua aparência era de uma força enorme.

Mais tarde, me disse que estava difícil disfarçar sua angústia. As fotos foram feitas e tudo ocorreu bem. Pedi algumas variações, porém sem saber na hora o resultado daquilo. Quando fui editar o material, a foto abaixo me chamou a atenção em especial.

Não conseguia tirar o olho dela, e na hora não sabia muito por quê. A sensação era de que Boris tinha me dado uma espécie de lembrete de esperança ao mesmo tempo em que vivia um difícil sentimento de perda.

Lembrei dessa e de outras histórias ao selecionar as fotos para minha exposição “12 retratos de escritores”, que faço a convite de Marcelino Freire para a Balada Literária. A exposição acontecerá na Livraria da Vila do dia 19 de novembro a 08 de dezembro. Todos estão convidados.

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Renato Parada é natural de São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Mudou-se para a capital há três anos e desde então vem colaborando com seus retratos para as principais editoras e revistas do país. Veja mais de seu trabalho em www.renatoparada.com.

12 Comentários

  1. cristinaguerra disse:

    lendo seu texto me lembrei de um texto lindo de Salman Rushdie no livro Cruze esta linha, Da Companhia das letras. SOBRE SER FOTOGRAFADO , que nos diz ” destes encontros do fotografo e do fotografado, do que o fotografo ganha o retratado perde , que as cameras , como o medo, devoram a alma. A camera e uma arma , uma fotografia é uma sessão de tiro e o retrato o troféu que o caçador leva, uma cabeça empalhada. Mas um grande retrato fotografado é um retrato do interior.Mas então o ônus de nos transformar em uma boa fotografia repousa sobre nós, seus modelos não proficionais que sabemos bem mais sobre nosso interior que sobre nosso exterior. Temos que nos desvendar ou a bruxaria dos fotografos nos desvendara de qualquer jeito?
    E o jeito como o modelo de uma fotografia olha seu retrato é diferente do jeito que qualquer outra pessoa o verá . Você espera que seus piores traços não tenham ficado muito evidentes.Espera não parecer um catador de lixo. Espera não assustar as pessoas que verão a foto por acaso.
    Mas no fim Salman Rushdie agradece ao fotografo por sua solidariadade pela clareza de sua foto e por sua força. ”
    Faço minhas as palavras de Salman Rushdie , apesar de fotografa não saberia dizer melhor mas o mais importante não deixe de ler o livro ,para ter inspiração para mais fotos melhor que ver mil imagens é ler bons livros, sempre.

  2. Renato Parada disse:

    Fico muito feliz que tenha captado essas coisas na foto do Boris, Deborah. É conseguir comunicar esses sentimentos sem usar as palavras o que me agrada tanto. É raro conseguir essa comunicação, mas quando ela acontece, a satisfação é muito grande. Obrigado!

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