O anjo da dispersão

Por Luiz Schwarcz

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Estou quase chegando ao meu trigésimo texto neste blog e é a primeira vez que me sento para escrever sem ter a menor a ideia do assunto de que pretendo tratar. Os causos são muitos, as histórias afetivas com os autores se repetem. São muitas histórias, mas sinto como se fosse uma só. No momento, o que mais me preocupa é como fazer para conseguir ler mais, e terminar os livros que comecei.

Poder reler algum livro que deixei pela metade, pois só o começo bastava para que decidisse pela sua publicação, é sinônimo de luxo para mim. Há muito glamour sobre a profissão do editor e pouca razão para isso. Muitas vezes somos leitores assíduos, lemos mais de uma vez um original e acompanhamos as várias versões necessárias para que um livro fique bom. Isso já aconteceu comigo em inúmeras ocasiões. No final, quando o texto é publicado, a longa convivência com o original tira qualquer possibilidade de avaliação objetiva. Já cheguei a dizer ao departamento de vendas da Companhia que estávamos publicando uma obra-prima, quando o texto em questão, a despeito de sua qualidade, talvez não merecesse tantos confetes. No entanto, o mais comum é o contrário: achar que um texto ainda não está pronto quando se trata de uma verdadeira obra-prima, acabada, e que com o devido tempo se consagrará como tal.

Assim, em vários momentos, alguns dos bons livros estrangeiros que publicamos, eu apenas conheci de passagem. Sua qualidade me afastou do seu caminho: o livro é tão bom, veio tão pronto, que não precisa de mim — só eu preciso dele.

Na verdade, preciso correr atrás de leituras perdidas, abandonadas. Antigamente usava as minhas férias para ler livros clássicos, ou publicados por outras editoras, obras que não poderia publicar. Agora não mais. Nas férias muitas vezes leio livros que publiquei sem ler, ou que tive que largar pela metade.

No momento leio no iPad Freedom, sobre o qual já escrevi anteriormente. O lançamento fenomenal nos Estados Unidos me fez sentir, além da vontade, a obrigação de lê-lo. Quero imaginar a vida do livro de Jonathan Franzen no Brasil. A tradução, a cargo de Sergio Flaksman, está a caminho. Enquanto isso, lendo suas mais de quinhentas páginas, tento imaginar como será o impacto entre os leitores tupiniquins desse grande painel da sociedade americana das últimas décadas. Fico pensando se há algo que eu possa fazer para que aqui aconteça algo minimamente semelhante àquilo que ocorreu em seu país de origem.

Ao mesmo tempo, um importante autor colombiano recém-contratado chamou muito a atenção de várias editoras da Companhia, fazendo com que eu me sentisse impelido a lê-lo. Pouco antes da feira de Frankfurt, compramos os direitos de três livros de Héctor Abad Faciolince. O principal se chama El olvido que seremos e trata das memória do autor sobre seu pai. Passei a dividir meu tempo entre Franzen e Faciolince. Enquanto no volumoso romance americano eu me divertia com a história de um roqueiro cult decadente, passei a me comover com os excessos amorosos entre pai e filho em meio a uma sociedade onde o padrão de comportamento é a rudeza entre os homens.

As reuniões das terças-feiras, em que parte da equipe editorial se reúne para decidir o que publicaremos e avaliar o andamento dos livros em processo de edição, são uma fonte inesgotável a alimentar minha tendência dispersiva. Lá vive o anjo da dispersão, a serpente que me faz querer ser fiel a tantos livros ao mesmo tempo. Foi lá, há duas semanas atrás, que ouvi a Ana Paula comentar o prazer que teve na leitura de um autor alemão, que, com 102 anos, foi redescoberto por um editor americano e relançado nos Estados Unidos com grande repercussão. Decidimos contratar dois livros de Hans Keilson, sendo que o mais atraente deles, A comedy in a minor key, eu quis logo começar a ler.

Para complicar, acabo de começar um livro já há tempos publicado: Infância, de J.M. Coetzee, um daqueles que nem precisei ler na ocasião de sua publicação e que será discutido no grupo de leitura dos funcionários da Companhia das Letras, do qual quero participar. Pois não é que tive que deixar de lado minhas outras três leituras, e acabo de me dirigir com Coetzee para a África de Sul, onde garotos podem zombar dos professores somente quando discutem as modalidades de castigo aplicadas? A força da palmada, ou a vara utilizada para a reprimenda, podem ser motivo de piada. O castigo em si, não.

Espero terminar um dia os quatro livros que leitores mais sortudos lerão calmamente, um por vez. Que inveja.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

12 Comentários

  1. Luiz,

    Gostaria de saber se você me autoriza a utilizar a foto que você utilizou neste post,como cabeçalho de meu novo blog. É tudo que eu precisava como fotógrafa;uma estante organizada pelo sobrenome dos autores.Simples.Por gentileza me dê a autorização, ou não.

    Obrigada.

  2. Pois é… não há tempo para tudo que desejamos nesta vida. lembro de Vittorio Gassman numa entrevista dizendo que a vida deveria ser como no teatro, antes se ensaia, depois se vive para valer. Ué? por que lembrei dele? sou dispersa tb- vivo numa associação de ideias constante :)
    Gostaria de ler muito mais tb. Falta tempo, me canso- olhos cansam, dá sono.
    Li sobre sua mãe no post anterior e achei divertido. Lembrei do dia em que vi vc ao lado de Chico Buarque e Raduan Nassar- auditório de O Globo. Adoraria saber algo daquele encontro que só vc sabe. Luiz, aqueles dois são tímidos, deve ter sido divertido vê-los juntos- conte. Raduan me disse que quem o convenceu a ir foi o Chico, é verdade? :) ele é meio gaiato… nunca sei.
    Abs, Elianne
    E blogs, vc tem tempo p ler? rs. Adoraria te ver dando uma espiada no meu.

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