O artista travestido

Por Erico Assis


(Foto por Renato Parada)

Na primeira HQ do arquivo de outubro, Dom Pedro II encontra o Major Sólon Ribeiro logo após a Proclamação da República. A discussão política ganha tons inflamados, que viram uma aventura espalhafatosa até chegar numa fantasia histórica surreal. É preciso muita cancha nos quadrinhos para conseguir contar tudo isso, com clareza e emoção, em uma única página, e de 13 quadros. A economia — de traço, de diálogo, de narrativa — renderia uma aula inteira para quem estuda quadrinhos, animação ou cinema.

Seguem as histórias da Lagartixa. Lagartixa está à procura de uma ideologia. Tenta encontrá-la no sono, acorda pulando da cama — teve uma epifania. Lagartixa explica a diferença entre relacionamentos binários paritários e autoritários — para ninguém. Lagartixa cita o ministro Gilmar Mendes na cabine de votação. Pois sim, foi mês de eleição.

Tanto foi mês de eleição que uma das tiras — das quadradas, quatro quadros, para a TV Folha — trata de aborto, aproveitando os 15 minutos em que o assunto entrou na pauta em outubro. “Neste país se respeitam as decisões pessoais!”, declara na punchline (é uma punchline?) o personagem das sombras, após submeter a grávida a uma espécie de interrogatório passivo-agressivo. Outra tira rende um comentário à eleição de Tiririca, que — concorde você ou não com a crítica — ainda é um dedo na ferida.

Em meio aos momentos mais reflexivos, há também as tradicionais piadas prontas, tornadas sensacionais pela representação visual. Como a de Kluh, o Hulk ao contrário — “quando se enfurece, ele se torna muito menor e dotado de uma força ridícula” —, e a do “aparte”. Mas mesmo nestas há um pouco de filosofia simples e profunda. Os dois quadros sem texto de “Restaurante Canibal” resumem o que é viver em sociedade.

Tem ainda as “Drágeas”, todas elas também tentando captar alguma coisinha do que é sentir-se vivo (“Creio que uma das responsabilidades do artista e do escritor é comunicar clara e sinceramente como é estar vivo para quem ainda não nasceu” — Chris Ware, aqui). E numa série nova, “Museus”, quadros de total simplicidade — como as do “Museu do Momento Embaraçoso” — também mostram com economia um pouco do que é estar vivo.

No mesmo mês, um livro lançado, um troféu HQ Mix de “Grande Mestre”, participação em Feiras do Livro, mais tiras para crianças, para adolescentes, para diferentes veículos, para ninguém em particular. Com uma variedade de ideias, de estilos, de demonstrações de domínio da narrativa e de maestria em desafiar a técnica, criando verdadeiras aulas de inovação em desenho, composição e roteiro.

Isso tudo é para dizer que CHEGA de teorias, análises, entrevistas, psicanálise-de-bar e mesmo de psicanálise-de-verdade sobre o Laerte vestido de mulher. Chega. Queira ele vestir-se de tia velha, de inca venusiano, de dinossauro ou de Dom Pedro II, o negócio é o seguinte: não é da minha nem da sua conta. O que devia ser da nossa conta é celebrar o fato de estarmos testemunhando o momento mais prodigioso da carreira de um quadrinista brasileiro, com uma obra autoral e inovadora, sem igual no mundo, de importância artística e política, que mistura as veias cômicas e filosóficas com um senso de ridículo afiado, lapidado por algumas décadas de cartunismo.

É óbvio que o noticiário vai preferir as unhas pintadas. Rende até algumas frases laérticas brilhantes (“O Angeli é um exemplo de que uma pessoa pode ser completamente hétero e legal”, aqui), e é divertido. O problema é quando o noticiário vira só isso. Faça-se um favor e vá ler tudo que puder do Laerte — e não sobre o Laerte.

* * * * *

Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.