O homem que duplicava

Por Júlia Moritz Schwarcz

Um livro é feito de muitos detalhes, e por muitas pessoas. Tem algumas que não aparecem, cujas mãos se tornam invisíveis no processo de edição — e elas são, na verdade, fundamentais no dia a dia de uma editora.

O Mário faz parte dessa tropa: há nada menos que 21 anos, comanda as duas máquinas de xerox da Companhia, supre a demanda de papel e envelope dos nossos quatro andares, troca as lâmpadas, pendura os quadros, comanda a reciclagem e produz réplicas encadernadas de livros que estamos editando que são mais bonitas que o protótipo original. Tudo isso com uma tremenda agilidade, o que faz toda a diferença no tipo de função que ele desempenha na equipe.

Por muitos anos o Mário via páginas e páginas saindo das máquinas carregadas de letras mas não tinha se formado na escola. Em 2004 começou a cursar o Telecurso com alguns colegas do depósito da Companhia e um tempo depois instalaram um computador na sala dele com um e-mail da empresa. Quando mandei uma mensagem pra todos os funcionários da editora pedindo uma indicação de livro da Letrinhas para o dia das crianças, ele foi o primeiro a responder. Mandou a indicação, o preferido das duas filhas (Barata!, do Reinaldo Morais), e completou com um verso de Gilberto dos Reis:

Ser criança é acreditar que tudo é possível.
É ser inesquecivelmente feliz com muito pouco.
É se tornar gigante diante de gigantescos obstáculos.
Ser criança é fazer amigos antes mesmo de saber o nome deles.
É conseguir perdoar muito mais fácil do que brigar.
Ser criança é ter o dia mais feliz da vida, todos os dias.
Ser criança é o que a gente nunca deveria deixar de ser.

Eu disse que ele vê as páginas se empilhando na prancha das máquinas mas não disse que ele lê alguns livros que copia. Claro que lê, aproveita a melhor parte do trabalho, e depois comenta com a gente. Quando vejo uma cópia supercaprichada, com uma capa bonitona criada pelo Mário, fico imaginando que ele adorou o livro.

Imagino muitas coisas sobre o Mário, já que conheço ele desde que tenho oito anos e já que ele conta pouco sobre a vida dele. Sempre pensei no Mário como um monge copista. Sei que é uma metáfora fácil, tosca, mas de fato ele fala muito pouco, e tem aquele sorriso complacente quando a gente aparece na meia-porta que delimita a área de trabalho dele. Dito assim, isso tudo parece meloso, mas ele é mesmo uma pessoa doce, faz a gente fantasiar sobre a sua personalidade — e faz surgir aquela vontade estranha de escrever sobre ele; dizem que saem textos muito mal acabados nesses casos.

Tem família no Paraná, um meio-irmão que cuida, com a mesma eficiência, da correspondência da Companhia das Letras, e adora música. Se tivesse um livro escrito sobre ele, se chamaria O monge da copiadora.

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

19 Comentários

  1. […] Trabalho no departamento de expedição e correios, tomo conta dos motoboys e ajudo o meu mano no xerox. Sou mais conhecido na editora como o menino do […]

  2. ivani costa disse:

    Nossa!!! Fiquei emocionada com a homenagem e todos os comentários… Esse Mário é realmente especial! Amo livros, livrarias, editoras… Me sinto num mundo só meu quando fico rodeada de livros, e entendo quando o Mário diz que a Cia é sua família… Também com amigos assim o rodeando! Lindíssima e singela homenagem a alguém tão doce quanto ele. Parece até que somos amigos, mas temos algo em comum: amamos a Cia das Letras! Parabéns por vocês serem quem são, nós leitores apaixonados precisamos muito de vocês!

    Beijinhos!

  3. Adriana de Godoy disse:

    Mário,
    Também não te conheço, mas vejo pelo seu comentário que o texto da Júlia foi fidedigno: de personalidade doce e gentil, o senhor nos cativa. Após ler seu post, me emocionei, pela sinceridade e carinho.
    Os agradecimentos são todos meus, para o senhor e todos aí que tornam esse país melhor, com um trabalho verdadeiro.
    Desde criança escuto elogios à editora, quando ela surgiu. Depois, quando fiz História na USP, os livros mais disputados eram os da Companhia; lembro que o do Michelet, que ficou esgotado, era mais disputado que o prêmio Nobel. Nunca procurei tanto por um livro. Era impossível lê-lo na biblioteca do depto., tamanha a quantidade de reservas para ele. Quando o encontrei, foi meu maior tesouro.
    Mais da metade da vida passei dentro dos livros da sua editora – feitos com seu trabalho e de todos por aí – e o resto do tempo passei atrás deles.
    Por isso, apesar de não nos conhecermos pessoalmente, somos como irmãos, não?
    Um abração, felicidades.

  4. Lilia Katri Moritz Schwarcz disse:

    O Mário é a cara e o jeito da Companhia. Sem ele, tudo perderia a graça. Parabéns Mário, Parabéns Júlia pela linda e merecida homenagem

  5. Mário Fernandes disse:

    Durante esses 21 anos na Cia, muitas pessoas passaram por mim, dia após dia.Cada uma dessas pessoas ficarão para sempre em minha memória.

    Cia para mim é minha segunda família.

    A todos levo e sempre levarei em meu coração, às vezes pelo simples fato de terem cruzado meu caminho, às vezes pelo simples fato de terem dito uma única palavra de conforto quando eu precisei, às vezes por ter me dado um minuto de sua atenção, e me ajudado com minhas duvidas, angústias, medos, vitórias e derrotas…

    Obrigado por terem confiado em mim, e me contado também seus problemas, angústias, vitórias, derrotas… e tambem de ter colocado suas críticas positivas ou negativas que fez evoluir e ter essa visão de meu trabalho que tenho hoje… isso é ser amigo: É ouvir, é confiar, é amar e respeitar. Nessa duas décadas de Companhia aprendi muito. Lembro… que tinha vergonha de dialogar com as pessoas por não saber falar corretamente, hoje converso sem medo graças aos conselhos que me ensinaram como deveria falar e me comportar.

    À você minha amiga e meu amigo:
    Você é muito especial e importante para mim.
    Sua amizade para mim tem um valor enorme, e nada que eu possa dizer à você, Pode ser tão especial ou mais significativo do que sua amizade para mim. Obrigado, primeiralmente a Júlia pela homenagem que fez para mim, dedicando seu tempo nessa linda homenagem.

    O complacente sorriso que Júlia comenta é retribuição do carinhos de todos por mim.

    A cada um que deu seu comentário, ou até mesmo aqueles que encontrei entre subidas e descidas de andares guardarei em meu coração eternamente suas palavras.

    Agradeço tambem a Lecadio, Bia, Marco Severo, Cristina Guerra e Adriana de Godoy, algumas não conheço mais agradeço e fiquei maravilhado com suas palavras.

    Beijos a todos.

    Mário

  6. Adriana de Godoy disse:

    Concordo, Severo.
    Esse texto é muito bonito e humano, que nos engrandece como leitores e seres humanos.
    No momento em que outros nos insultam e achincalham com sua mediocracia, essa editora tem feito toda diferença.
    E essa foto também me faz lembrar uma imagem muito querida: a de Italo Calvino no 3ª andar da Giulio Einaudi.
    Posso até imaginar o mesmo sorriso, mesmo que de costas.
    Obrigada a todos, de coração.

  7. Marco Severo disse:

    Nossa, Julia, que homenagem linda! Não se preocupe em parecer melosa: a vida anda precisando é disso.

    E Mário, meu caro: ser elogiado numa crônica pela chefe e filha do chefe é melhor que o décimo terceiro salário, diz se não é? Hehehe

    Que bom que existe esse senso tão bonito de unidade, coesão, família aí pela Companhia. Como professor e leitor, sou cada dia mais apaixonado por essa editora, que também poderia se chamar de Casa Onde se Aprende a Viver.

    Obrigado por tudo, Companhia!

  8. cristinaguerra disse:

    ja disse o escritor angolano Ruy Duarte ” ama-se aquilo com que se cruza, homem, paisagem, caminho ou porque evoca emoções sabidas ou porque é novo e vem casar com a busca …” viva os encontros que temos nos caminhos que a vida nos dá.

  9. Priscilla disse:

    Parabéns Mário!!! viu como todo mundo aqui reconhece o seu trabalho? Você merece!!
    Beijo!
    Pri

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