Os ensaios de Michel de Montaigne

Por Rosa Freire d’Aguiar

Um dos ensaios mais importantes de Montaigne chama-se “Dos canibais”, inspirado no encontro que ele teve, em 1562, com índios da tribo Tupinambá que foram levados das costas brasileiras para serem exibidos na corte francesa. O desenhista Tiago Judas usou um detalhe da gravura ‘Imagem dos brasileiros’, feita em 1551 por Ferdinand Denis, para compor a capa da edição brasileira.

Quando Matinas Suzuki me propôs traduzir Os ensaios – uma seleção para a coleção dos clássicos da Penguin que a Companhia das Letras ia lançar, não pestanejei, mas já no dia seguinte me flagrei matutando sobre o desafio de atrair o leitor de hoje para uma obra-monumento escrita no século XVI. Ler Montaigne (1533-1592) é prazeroso como uma aula de filosofia a cargo de um professor de vasta cultura, que enxerga nos mínimos gestos e pensamentos matéria para reflexão e indagação, mas que não pretende ser dono da verdade. O objetivo da tradução era levar o leitor a compartilhar o prazer de ler uma obra que permanece notavelmente moderna.

Primeira dúvida: qual texto traduzir? Não há uma edição definitiva de Os ensaios, que Montaigne foi modificando aqui e acolá, até morrer. Depois de alguns emails trocados com Matinas, nos fixamos na edição póstuma, de 1595, elaborada por Marie de Gournay. Essa jovem literata tinha 23 anos quando conheceu Montaigne, então com 55. Depois da morte dele, dedicou-se, a partir de um exemplar corrigido pelo autor, a um minuciosíssimo trabalho de revisão e incorporação das centenas de acréscimos feitos nas margens e entrelinhas ao fio das edições anteriores. É a primeira vez que se publica no Brasil a edição póstuma. É ela que leram os contemporâneos de Montaigne, e, mais tarde, Rousseau, Voltaire, Pascal e outros grandes intelectuais europeus. É também a edição que, desde 2007, se publica na prestigiosa coleção Pléiade da editora Gallimard.

Montaigne aprendeu a falar em latim, língua da elite culta, graças a um estratagema de seu pai, que só deixava perto do menino empregados versados, um mínimo que fosse, em latim, e um preceptor alemão que pouco falava francês. A influência do latim é visível na estrutura de Os ensaios, muito próxima da sintaxe latina. Há frases à primeira vista enigmáticas e que demandam ser decompostas e remontadas como peças de um quebra-cabeça. Montaigne escrevia ao correr da pena, sobre qualquer assunto, “até mesmo sobre uma mosca”. É considerado o inventor dos ensaios, esse gênero literário em prosa e sem regras fixas. Mas a soltura de seu pensamento o leva a inúmeras digressões, muito longas e nem sempre compreensíveis, dando a impressão de que faltou uma leitura final do conjunto da obra. Acrescentem-se às dificuldades da tradução os arcaísmos, os trocadilhos, e o fato de que as várias anotações feitas nas margens eram elípticas e provavelmente só eram claras para ele.

Montaigne usa e abusa dos dois-pontos, sinal a que se segue outra frase que, por sua vez, terminará em outro dois-pontos. Reconhecia ser “pouco especialista” em matéria de pontuação mas achava que a abundância de dois-pontos e pontos e vírgulas era uma forma de cadenciar o texto. Outra peculiaridade é a ausência de parágrafos: é como se cada ensaio fosse escrito de um só fôlego. Certas edições da obra abrem parágrafos, com critérios que parecem arbitrários e raramente coincidem. Decidimos manter a disposição original, e o mais possível a pontuação da edição de 1595, sem introduzir nenhum sinal gráfico desconhecido de Montaigne, como os travessões que aparecem em outras versões.

A aposta desta tradução foi encontrar o equilíbrio entre o respeito ao original e sua legibilidade para um leitor de hoje, sem sacrificar o entendimento do texto mas sem tampouco tomar muitas liberdades com ele. Foram sete meses de um convívio fascinante e permanente com Montaigne e com outros autores que escreveram sobre sua vida e obra. Agora é esperar que o leitor se embale no prazer da leitura desses Os ensaios tão atuais.

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No “aviso ao leitor” que inicia Os ensaios, Montaigne não deixa dúvida sobre seu propósito: “sou eu mesmo a matéria de meu livro”. Ao esboçar um autorretrato, ele quebrou o tabu da época, que julgava um ato de soberbia escrever sobre si mesmo. Mais que isso, com toda a naturalidade revelou detalhes íntimos até então impensáveis num livro de autor sério. Fala sobre suas mazelas, sobre as terríveis crises renais, sobre sua pouca memória, sua propensão a sujar os guardanapos à mesa, e até sua tristeza de não ser dotado de um sexo que satisfizesse adequadamente as mulheres na cama. Ao falar de si Montaigne fala de nós, com uma acuidade e uma lucidez que impressionam, como nestas frases pinçadas durante o trabalho da tradução:

Mulheres e casamento:

  • Parece-me que foi um entendido quem disse que um bom casamento era feito entre uma mulher cega e um marido surdo.
  • Não é para ressuscitar de raiva se quem tiver me cuspido na cara enquanto eu vivia vier me esfregar os pés quando eu não estiver mais aqui? Se existe certa honra em prantear os maridos, ela só pertence àquelas que lhes sorriram; as que choraram durante a vida deles, então que riam na morte, tanto por fora como por dentro.
  • Nós as queremos saudáveis, vigorosas, bem dispostas, bem alimentadas, e castas para completar: isto é, tanto quentes como frias.
  • Casamo-nos não por nós, apesar do que se diz; casamo-nos tanto ou mais por nossa posteridade, por nossa família.

Prazer:

  • Digam o que disserem, até na própria virtude o objetivo último que visamos é o prazer.
  • Os prazeres devem ser evitados se trazem em seu rastro dores maiores, e as dores devem ser procuradas se trazem em seu rastro prazeres maiores.
  • Ver saudavelmente os bens acarreta ver saudavelmente os males. E a dor tem algo de inevitável em seu suave início, e o prazer, algo de evitável em seu fim excessivo.
  • As cantáridas têm uma secreção que serve de antídoto a seu próprio veneno, por uma oposição mútua da natureza. Assim, à medida que tomamos prazer no vício gera-se um desprazer contrário na consciência, que nos atormenta, velando ou dormindo, com várias ideias dolorosas.

Condição humana:

  • Cada homem traz a forma inteira da condição humana.
  • Os homens são tão ligados à sua existência miserável que não há condição tão dura que não aceitem para conservá-la.
  • Não há nada tão belo e legítimo quanto agir como um homem deve agir, nem ciência tão árdua como saber viver esta vida. E de nossas doenças a mais selvagem é desprezar nosso ser.
  • Uma personalidade sábia não é sábia em tudo, mas o talentoso é talentoso em tudo, até mesmo no que ignora.
  • O verdadeiro espelho de nossos discursos é o curso de nossas vidas.
  • A maior coisa do mundo é saber ser de si mesmo.
  • Nossa vida consiste parte em loucura, parte em sensatez. Quem só escreve sobre ela com reverência e pelas regras deixa para trás mais da metade.
  • Pouco adianta subir em pernas de pau, pois mesmo sobre pernas de pau ainda temos de andar com nossas pernas. E no trono mais elevado do mundo ainda estamos sentados sobre nosso traseiro.

Velhice:

  • É grande bobagem prolongar e antecipar, como todos fazem, as mazelas humanas. Prefiro ser velho menos tempo do que ser velho antes de sê-lo.
  • Nesse declínio, que torna o homem inútil, pesado e importuno para os outros, que ele evite ser importuno, pesado e inútil para si mesmo.
  • Além de uma vaidade tola e caduca, de uma tagarelice enfadonha, desses humores espinhosos e insociáveis, e da superstição e de um gosto ridículo pelas riquezas quando perdemos o uso delas, acho que há na velhice mais inveja, injustiça e maldade. Ela nos coloca mais rugas no espírito do que no rosto; e não vemos almas, ou raríssimas, que ao envelhecer não cheirem a azedo e a mofo.

Filosofia moral:

  • A alma que não tem objetivo estabelecido se perde, pois, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar nenhum.
  • O arqueiro deve primeiramente saber onde visa, e depois ajustar a mão, o arco, a corda, a flecha e os movimentos. Nossos projetos desencaminham-se porque não têm direção nem objetivo. Nenhum vento serve para quem não tem porto de destino.
  • Quem ensinasse os homens a morrer os ensinaria a viver.
  • Venceremos os vícios da aparência quando tivermos vencido os da essência. Quando tivermos liquidado com estes, correremos contra os outros, se acharmos que é preciso correr.
  • As leis mantêm-se em vigor não porque são justas mas porque são leis. É o fundamento místico de sua autoridade: não têm outro.

Autorretrato:

  • Não ensino, relato.
  • A linguagem que amo é uma linguagem simples e natural, tanto no papel como na boca: uma linguagem suculenta e nervosa, curta e concisa, não tanto delicada e penteada como veemente e brusca.
  • Mesmo se pudesse me fazer temido, gostaria mais ainda de me fazer amado.
  • Em minha opinião, e não como dizia Antístenes, é viver venturosamente, e não morrer venturosamente, que faz a felicidade humana.
  • Quando vi uma mulher entediar-se comigo, não a acusei de imediato de leviandade: fiquei na dúvida se não seria mais razoável acusar, de preferência, a natureza. Sem a menor dúvida, ela me tratou de modo descortês e ilegítimo, e causou-me um dano enorme.
  • Todos os milagres e acontecimentos estranhos têm se escondido de mim. Não vi no mundo monstro e milagre mais manifesto do que eu mesmo. O costume e o tempo nos familiarizam com qualquer estranheza: quanto mais me examino e me conheço, mais minha deformidade me espanta, e menos me compreendo.

Crianças, educação:

  • E se tivesse de educar crianças, tanto lhes teria posto na boca esse modo de responder inquiridor e não decisivo: “o que quer dizer?”, “não estou entendendo”, “poderia ser”, “é verdade?”, que elas mais teriam conservado o jeito de aprendizes aos sessenta anos do que se apresentado como doutores aos dez anos, como fazem. Quem quer curar a ignorância deve confessá-la.
  • E foi também essa a razão pela qual [meu pai] entregou-me na pia batismal a pessoas de fortuna mais modesta, para me obrigar e ligar-me a elas. Seu objetivo não foi malsucedido: dedico-me com gosto aos humildes; seja porque há mais glória nisso, seja por compaixão inata, que em mim é infinitamente poderosa.
  • Pois ainda é preciso certo grau de inteligência para poder observar o que ignoramos: e é preciso empurrar uma porta para saber que ela nos está fechada. Donde nasce essa sutileza platônica de que nem os que sabem têm de inquirir, posto que sabem, nem os que não sabem, pois para inquirir há que saber o que se quer inquirir.

* * * * *

Rosa Freire d’Aguiar nasceu no Rio de Janeiro. Nos anos 70 e 80 foi correspondente em Paris das revistas MancheteIstoÉ. Retornou ao Brasil em 1986 e no ano seguinte traduziu seu primeiro livro, para a editora Paz e Terra: O conde de Gobineau no Brasil, de Georges Raeders. Em mais de vinte anos de atividade, verteu mais de sessenta títulos nas áreas de literatura e ciências humanas. Além do francês, idioma do qual transpôs para o português, entre outros, Céline, Orsenna, Lévi-Strauss, Debret e Balzac, traduz do espanhol e do italiano, línguas que também aperfeiçoou durante os anos de jornalista na Europa. Sua língua de preferência, no entanto, é mesmo o idioma de Montaigne, autor que ela pretendia traduzir desde os anos 1990, não só pelo conteúdo humanista dos Ensaios mas pelo desafio de traduzir um texto de quatro séculos de modo a conquistar o leitor de hoje. Acredita que o tradutor é um ser “obcecado” e “duvidante” e que uma boa tradução depende, também, da empatia entre tradutor e autor. Entre os prêmios que recebeu estão o da União Latina de Tradução Científica e Técnica (2001) por O universo, os deuses, os homens (Companhia das Letras), de Jean-Pierre Vernant, e o Jabuti (2009) pela tradução de A elegância do ouriço (Companhia das Letras), de Muriel Barbery.

20 Comentários

  1. Déa Novaes disse:

    Sobrava na memória apenas a lição de francês que adolescente não é capaz de fruir tudo. Revivi agora com 85 anos com uma plenitude prazerosa indizível. Perdoei o que ele fala dos velhos, mesmo porque é a mais pura verdade.Só que, felizmente, eu não sou velha. Déa.

  2. […] Leiam também o texto do tradutor do livro, clique aqui. […]

  3. admin disse:

    Olá, Yohana! Sim, a edição contém o ensaio “Sobre a inconstância de nossas ações”. :)

  4. Yohanna disse:

    Gostaria de saber se neste livro contém o ensaio I do livro II, “Da Inconstância das Nossas Ações”.

    Desde já grata!

  5. Emanuel Assis disse:

    Gostaria de saber se a Rosa D’Aguiar ou outra pessoa poderia indicar onde posso encontrar, em português, o prefácio de Marie de Gournay à edição por esta editada em 1595. É que a tradução da Penguin, pela Companhia das Letras, apesar de excelente não contempla esse prefácio.

    Li sobre esse prefácio em Como Viver, de Sarah Bakewell (pra lá de bom), sobre a vida de Montaigne e Os Ensaios. Segundo Bakewell, Gournay inicialmente fez um prefácio enorme, depois o retirou da edição de 1595, arrependeu-se novamente e o reincorporou. Será que há tradução em português desse prefácio?

    Parabenizando o excelente trabalho de Rosa D’Aguiar, agradeço.

  6. Diana (admin) disse:

    Oi, Anderson. Os ensaios desta edição são exatamente os mesmos da coletânea publicada pela Penguin, não há diferenças.

  7. Anderson Nunes disse:

    Rosa, gostaria de agradecê-la pelo seu excelente trabalho. Com sua tradução, fui levado “ao prazer da leitura de Os Ensaios”. Fiquei fascinado desde o primeiro ensaio, reli vários deles mais de uma vez e ao mesmo tempo que o prazer crescia com cada novo assunto, aumentava a tristeza pela proximidade do fim.
    Muito grato!

    ps. Uma dúvida: há outros ensaios que não foram inclusos na edição na qual essa tradução se baseia?

  8. […] capas da Penguin-Companhia mostram obras de arte conhecidas, como as de Livro da vida e Os ensaios de Montaigne. Outras exibem fotos dos próprios autores, como as de Essencial Joaquim Nabuco e Os últimos dias […]

  9. Olá

    O livro ficou excelente. Parabéns.

    Alguém teria uma indiação boa da obra em francês? Comprei a Pleiade, mas não queria com aquela ortografia antiga. Porém também não gostaria de uma versão em francês moderno.

    Procuro uma edição que a ortografia seja moderna, porém mantendo a gramática antiga o máximo possível. Ideias?

    obrigado

  10. francisco de salles do lago disse:

    Corrigi o nome intermediário. Obrigado. Francisco Lago

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