A chapa quebrada

Por Otávio Marques da Costa

Há muito a dizer sobre o Hitler de Ian Kershaw  — talvez o relato mais completo, e, sem dúvida, o mais fluente já escrito sobre o ditador alemão —, mas ao editar nossa tradução fiquei fascinado pelo bizarro cotidiano do Monstro.

Esse Hitler do dia a dia contraria o estereótipo do germânico disciplinado e organizado. Já morando na Chancelaria do Reich, o Führer em geral dormia de madrugada, acordava só depois do meio-dia, atrasava duas horas para aparecer à mesa do almoço, e dava bolos frequentes em seus convidados. Era também preguiçoso: evitava as reuniões maçantes sobre questões estritamente financeiras e orçamentárias e pouco se preocupava com a base prática para seus sonhos megalômanos. Até mesmo em questões de estratégia militar o ditador era um diletante — agia antes por impulso que com a razão, e não se preocupava muito em entender de ciência militar ou ouvir os conselhos das altas cúpulas das Forças Armadas. Gostava mesmo era de assistir a filmes água com açúcar antes de dormir, e admirar suas maquetes das cidades neoclássicas que reergueria no Reich vitorioso.

O talento de manipulador de massas — reconhecido por Kershaw como o grande trunfo do ditador — contrastava com a frieza e a distância nas relações pessoais. Embora pareça ter restringido intencionalmente seu círculo “próximo” para fortalecer o mito do Führer, Hitler sempre foi avesso a contatos pessoais, um esquisitão. Teve um único amigo genuíno na vida — August Kubizek, dos tempos de penúria e fracasso em Linz e Viena (onde levou a clássica bomba no exame de admissão à Escola de Belas Artes) — e parece ter amado de verdade só a mãe.  Poucos estiveram com ele em momentos de verdadeira “descontração”. De ninguém foi realmente íntimo — sua primeira “namorada” de que se teve notícia, a sobrinha Geli Raubal, era mais um adorno que uma companheira; Eva Braun, que ele sempre manteve longe dos olhares públicos e só assumiu oficialmente no bunker, um artifício para quebrar o gelo nos momentos tensos. Dos “honrados” com o convívio do Líder, poucos guardaram boa recordação. Além das famosas diatribes histéricas e fanáticas e das arengas intermináveis, o hálito nauseabundo do Führer repelia os legatários internacionais.

A fobia do contato foi se agudizando pela crescente hipocondria, que também rende dados curiosos, como a dieta vegeteriana radical e cada vez mais parca, e a longa dependência de um miraculoso colírio à base de cocaína, que seu pouco ortodoxo médico particular lhe aplicaria até os últimos dias no bunker.

* * * * *

Do lado de cá do balcão, a empreitada foi árdua. Mas as idas e vindas da edição de um livro “grandinho” em tempo exíguo — Hitler foi o maior volume já publicado pela editora, me disse o departamento de produção — já foram muito bem ilustradas pela minha colega Lucila, em seu post sobre Não há silêncio que não termine, da Ingrid Bettancourt. Assim, e como o post já vai longo, acho que vale aqui reproduzir só uma anedota de “bastidor”: a escolha da capa.

Estávamos todos ansiosos para ver o que o Kiko Farkas ia mostrar. A capa da edição hardcover americana era um anticlichê: uma foto de Hitler lendo placidamente no Berghof, seu refúgio alpino, com o pano de fundo das montanhas bávaras. Parece um senhor respeitável, pacato, numa temporada de férias no campo. Tínhamos de fazer algo à altura.

Foram duas as propostas enviadas pelo Máquina Estúdio: a aprovada, uma foto de Hitler, em trajes civis, sentado numa cadeira de espaldar alto ao lado de seu cão pastor Wolf — a chapa quebrada de uma foto oficial rejeitada. Se por um lado é a imagem da maldade (talvez graças a nossos olhos treinados a associar o mal a Hitler), denota também fragilidade: o corpo torcido num esforço para fazer que os pés alcancem o chão, os olhos mais tristes que marciais. Não é difícil saber por que foi rejeitada pela propaganda nazista.

A outra era uma capa gráfica: sobre um fundo vermelho, um grande retângulo dentado negro no canto superior direito e outro igual, mas menor e paralelo ao logotipo da editora, no centro da capa. Um, a franja; outro, o bigode. Do minimalismo de formas, surge a imagem do Monstro.

Depois de alguma polêmica interna, fomos “na tradição”, e ficamos com a foto. As fissuras na chapa — a um só tempo símbolo do fim trágico e do acesso ao revés do objeto (finalidade de toda biografia) — e o desconforto de Hitler com a altura da cadeira foram irresistíveis. Mas para aplacar o remorso por “desperdiçar” uma capa tão boa, decidimos reproduzí-la aqui no blog.

* * * * *

Otávio Marques da Costa é editor assistente da Companhia das Letras.