A musa antidiva

Por Alexandre Barbosa de Souza

Era Noite Branca em Paris. Minha mulher ligou emocionada: tinha acabado de sair do show da Patti na igreja de Saint Germain des Près (em 2008). Fazia um mês que eu estava sozinho com os gatos, traduzindo loucamente os Hipopótamos dos então quase anônimos Burroughs e Kerouac. Lembrei da minha primeira namorada na escola, que me lembrava a Patti: uma magricela meio punk, mas que definitivamente não tinha alma de poeta. Quase dez anos depois de “People have the power” (1988) ter tocado no Brasil — cheguei a comprar o Dream of life em K7, porque antes eu só tinha o Horses, também em fita e mal gravado de um lp importado, e na época eu nem sabia que já era uma volta dela —, minha mulher iria à exposição do Mapplethorpe no MAM (1997). Temos o pôster com um retrato dele aqui em casa, ao lado de Sid Vicious, James Joyce e Karl Marx.

Meu amigo editor e ex-vizinho há de ter escutado quando minha mulher e eu ficávamos horas na banheira em Santa Cecília ouvindo a Patti no iPod e um belíssimo dia me perguntou se eu não queria traduzir a autobiografia dela. Eu não saberia explicar melhor minha peculiar devoção à Patti (musa antidiva) do que tentando traduzir essa sua prosa com a máxima consideração da poesia. Aceitei e sou grato para sempre, porque vi confirmada instantaneamente uma identidade de amigos queridos, para além do evidente encantamento que a voz e os olhos dela exercem sobre mim.

Chorei algumas vezes enquanto traduzia. Patti escreve com uma delicadeza esperta que não derrama, mas que de alguma forma prepara a morte do homem amado no final: ainda na infância, seu sentimento pela amiga Stephanie, de quem ela rouba uma miniatura de patins (misto de remorso e vertigem da inevitabilidade dos fatos da vida), se propaga em suas experiências de perdas e dores de crescimento da juventude. Mas cada objeto encontrado pelos amantes trapeiros, nas lixeiras, alfarrábios e bricabraques de uma Nova York pré-gentrificação, é erguido e celebrado sincreticamente no altar pagão católico do quarto alugado — à Rimbaud —, como uma preciosidade. É assim também com as pessoas em sua vida: cada encontro é valioso salvo-conduto com o selo da união da grande fraternidade universal de La Bohème e do exército de Peter Pan, do qual Patti é a amorosa e maternal estrela guia.

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Alexandre Barbosa de Souza é tradutor e autor dos livros Livro de poemas (Giordano, 1992), Viagem a Cuba (Hedra, 1999), XXX (Dolle Hond, Amsterdã, 2003), Azul escuro (Hedra, 2004) e do infantojuvenil Autobiografia de um super-herói (Hedra, 2003).