A ternura dos detetives particulares

Por Joca Reiners Terron

Lourenço Mutarelli e eu dividimos um escritório por cerca de dois meses no início deste ano. Ou terá sido no ano passado? Já não me lembro mais, deve ser a idade. Lembro, entretanto, que poucos dias após ocuparmos a sala algum gaiato dependurou na porta uma tabuleta que dizia DETETIVE PARTICULAR. Tratava-se de continuação a uma piada qualquer do Lourenço a respeito de como ele se sentia um verdadeiro detetive particular ao acordar cedo e rumar ao escritório todos os dias, tipo de rotina que não cumpria fazia tempo. Foi uma honra ter sido assistente de um detetive tão terno como é o Lourenço. Nesses dias realizei meu sonho de ser um agente literário secreto, além da felicidade do convívio diário com ele, uma pessoa admirável.

Enquanto escrevíamos, cotovelo a cotovelo, Lourenço trabalhava em seu último livro, o recém-lançado Nada me faltará. Como sua rapidez para escrever tornou-se folclórica desde O cheiro do ralo (seu primeiro romance, escrito durante o feriado de Carnaval de 2001 no qual a mulher, Lucimar, e o filho, Francisco, viajaram, deixando-o sozinho), dediquei minha atenção à disciplina e às técnicas mutarellianas. Qual seria o seu segredo? Não encontrei nada muito diferente do que eu mesmo pratico, exceto por um método curioso de prosseguir com a narrativa baseado no tabagismo, que não pratico e portanto é inútil para mim. Depois de algum tempo escrevendo, Lourenço parava no meio de uma frase e saía para fumar um cigarro. No fumódromo, dedicava-se à prática tabagística e, entre marolas de fumaça e de pensamentos (daquelas típicas dos gibis), imaginava a sequência da história que retomaria ao voltar ao computador.

Essa manha de Lourenço me lembrou de uma outra, praticada pela jornalista e escritora norte-americana Joan Didion e baseada no uísque. No excelente livro de retratos e depoimentos de escritores The writer’s desk, da fotógrafa Jill Krementz (que entendia do assunto, pois foi casada durante muitos anos com Kurt Vonnegut), Didion conta que necessita de uma hora diária com alguns drinques completamente sozinha. Deve ser antes do jantar, e ela aproveita essa pausa para avaliar o que produziu durante o dia, além de pensar na sequência que dará ao livro no dia seguinte. Quando está trabalhando, Didion não gosta de sair para jantar ou mesmo de encontrar amigos, justamente porque a tal hora do uísque é sacrificada. Outra obsessão de Didion é dormir no mesmo quarto em que o livro está sendo escrito, pois de algum modo “o livro não o abandona quando se dorme ao lado dele”, o que, se pode não ser verdade em termos estritos, é uma coisa muito bonita de se dizer.

Um dos aspectos mais divertidos do desenvolvimento das histórias é esse hiato de puro desconhecimento sobre o que virá a seguir. Ignorar o rumo que as narrativas tomarão ao se deparar com um nó é a melhor representação da liberdade existente na criação literária. Funciona mais ou menos como aquele clichê acerca da vida, que diz que a oportunidade não bate duas vezes à mesma porta. O que é curioso, porém, são os métodos dos escritores, baseados em cigarros, uísque e anfetaminas — predileção de Philip K. Dick, que também jogava o tarô para compreender o destino de seus personagens. Até parece que o consumo de drogas tem algo a ver com a liberdade individual e a expressão criadora, não é? Como afirmou outro grande escritor, Donald Barthelme, “escrever é um processo de lidar com o desconhecido, forçando o que e o como”. Ou seja, não é muito diferente de viver, e pode ser tão perigoso quanto.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

7 Comentários

  1. […] Joca Reiners Terron escreveu sobre A Ternura dos Detetives e Lourenço Mutarelli lá no Blog da Companhia. No blog Livros de Irinêo Baptista Netto, entrevista com Marcelo Sandmann sobre o livro de ensaios sobre Paulo Leminski. No Livros e Afins Alessandro Martins pede: Pare de Denegrir o Bom Nome de Grandes Escritores. […]

  2. Arthur disse:

    Muito bom quando o cara (O cara) veio na Itiban, pra falar um pouquinho sobre a sua criação, seus livros e sua arte. Sensação tão boa quanto ler o teu texto. Ou um pouco melhor: Mutarelli ao vivo é outra coisa

  3. Paula disse:

    Nada me faltará deixou um buraco magnífico em mim. Tem – como sempre – um ritmo maravilhoso, ótimas citações e promove um encontro incrível com a realidade. Não se estou sendo clara, é difícil falar sobre o livro ainda mais quando acabo de acabar o livro.
    Passei todo tempo da leitura achando que Mutarelli me decepcionaria desta vez, e ao mesmo tempo tendo certeza que um final incrível viria pela frente. Até que o “não final”, pelo menos não em letras, me deixou tão abobada que tive que procurar alguém ou algum lugar na internet para dividir esse momento.
    Não tem ninguém em casa hoje.

    Mutarelli deve ser incrível mesmo. Talvez possa dizer, sorte sua conhece-lo pessoalmente. Se esbarrar com ele diz que eu mandei um abraço.

  4. É bom ler sobre processos criativos- merci.
    Eu tb escrevo contos, saem, fluem, quase sempre depois de uma imagem visual- pode ser imaginária- “vejo” a cena e escrevo, qdo quero pensar, levanto, molho grama, tiro roupa do varal, tomo um copo d’água- não gosto de ficar parada matutando.
    Não ousaria um romance- há uma liberdade que não saberia usar- me angustiaria, penso. A dúvida, os caminhos a escolher… difícil isso. Tenho grande admiração por romancistas.
    Vou procurar ler seu livro.
    Um abraço, Elianne ou Laura Diz no virtual.

  5. Adriana de Godoy disse:

    Joca,
    Estou com seu livro aqui para leitura, “Do fundo do poço se vê a lua”, pois confesso que me apaixonei por ele pelo título, um dos mais lindos para um livro.
    Dei uma boa namorada nele (gostei e foi difícil largá-lo), e logo darei uma leitura definitiva, pois estou numa busca de concentração para terminar os livros que já tinha começado, quando sentarei para outras leituras – em respeito aos próprios livros.
    Mas deixo aqui o registro de que este título é um dos mais lindos da literatura brasileira.
    Acho que Saramago estava certo quando dizia que somos feitos de papel; as estórias e histórias se acumulam e depois é uma angústia só vertê-las e – pior! – fazê-las ficarem interessantes.
    Obrigada pelo seu texto e pelo seu livro, leitura promissora para mim.

  6. Estou escrevendo o meu primeiro Romance, e está história de dormir no mesmo quarto que o livro é um dos hábitos que tenho, pois as vezes acordo no meio da noite com partes inteiras, ou até capítulos inteiros, prontos a serem escritos. E pra falar a verdade, são os melhores momentos para se escrever; os momentos em que a natureza dos pensamentos e ideias te tomam de forma não convencional, e em momentos distintos. Cada louco com a sua mania.

  7. […] This post was mentioned on Twitter by Joca Reiners Terron, Rodolfo Viana and Companhia das Letras, Escritor d Depressão. Escritor d Depressão said: Lourenço Mutarelli escreveu o Cheiro do Ralo num único feriado de Carnaval. Dois anos e você não passa da página 10. http://bit.ly/hvOU4A […]

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