Ainda os detetives

Por Tony Bellotto

Unlawful

Sim, continuo mergulhado no Vício inerente, sem trocadilhos. Última semana viajamos juntos pra Campinas, Joinville e São Paulo. O livro já começa a dar mostras da dureza da vida de um livro viajante, um road book no sentido literal (Vício inerente NÃO se passa numa estrada, embora Los Angeles não deixe de ser uma espécie de): às 23h18 da noite de 05 de dezembro, recebeu sua primeira mancha de shoyu, ao pé da página 122, no exato momento em que Doc e Fritz compartilham um baseado e um diálogo tetraidrocanabinolado:

“Do bom, né?”, Fritz devolvendo uma bagana fumegante em uma marica, tudo que restava do que estavam fumando.

“Defina ‘bom’”, Doc resmungou. “O meu cérebro está, assim, pé na tábua a ponto de travar.”

Fritz deu uma risadinha prolongada. “É, detetive tinha mais é que ficar longe de drogas, esse negócio todo de universos alternativos só deixa o trabalho mais complicado.”

“Mas como é que fica o Sherlock Holmes, ele cheirava coca o tempo todo, bicho, ajudava a resolver os casos.”

Estávamos, eu e o livro, num enlevo romântico, jantando juntos no sushi bar do Kosuchi, um restaurante que me foi apresentado por Marta Garcia e Joana Fernandes, duas das mais simpáticas e melífluas funcionárias da Companhia das Letras. Como na vez em que lá almocei com Marta e Joana, pedi um vinho branco sul-africano, Porcupine, para acompanhar os sushis. A diferença é que como o Vício inerente — o livro — bebe bem menos que a Marta e a Joana, tive de entornar a garrafa praticamente sozinho (o livro acabou absorvendo algumas gotas involuntariamente, nada que o impedisse de passar com louvor por uma baforada no teste da Lei Seca). Algumas páginas adiante, Doc Sportello me sussurra ao cérebro, assim, pé na tábua a ponto de travar:

“Porque os detetives estão condenados, bicho, dava pra ter percebido há anos, nos filmes, na TV. Antes tinha todos esses grandes detetives das antigas — Philip Marlowe, Sam Spade, o investigador dos investigadores Johnny Staccato, sempre mais espertos e profissionais que os tiras, sempre acabam resolvendo o crime enquanto a polícia fica seguindo pistas erradas e se metendo no caminho deles. É, mas hoje em dia a gente só vê polícia, a TV está entupida dessas merdas de programas de polícia, só sendo gente normal, só tentando fazer o seu trabalho, amigo, tão ameaçadores pra liberdade de alguém quanto um paizão num sitcom. Pode crer. Deixar a população de espectadores tão policiotisfeita que eles vão começar a se deixar atropelar. Adeus, Johnny Staccato, bem-vindo, e por falar nisso, por favor, derrube a minha porta, Steve McGarret. Enquanto isso, aqui no mundo real, quase todos nós, os detetives particulares, não conseguimos nem pagar o aluguel.”

Johnny Staccato, pra quem não sabe, é um detetive particular e pianista de jazz, interpretado por John Cassavetes numa série da tv americana do final dos anos 50.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.