Permitido para menores

Por Júlia Moritz Schwarcz


Entrada da Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima.

Eu nunca tinha entrado na biblioteca Alceu Amoroso Lima, um lugar muito simpático. Fui lá participar da mesa de literatura infantil do VI Fórum de Editoração da ECA. Também nunca tinha falado, assim para o público, como editora.

Recebi o convite uns meses atrás, fiquei toda lisonjeada, anotei na agenda e só me lembrei de novo poucos dias antes. Como me disseram que não era preciso preparar nada, que trocaríamos ideias em uma conversa informal, relaxei. Mas no sábado em questão, umas oito da manhã, a caminho do evento, me dei conta de que não deveria estar tão relaxada, afinal, não falaria apenas em meu nome, mas em nome de uma empresa. Logo encontrei a Fabiana Werneck Barcinski, que havia editado os livros da Girafinha e que também participaria da mesa. Ela estava preocupada com o bebezinho de dois meses que havia deixado se esgoelando no colo do pai, mas tinha até trazido alguns livros para a sua fala. O Odilon Moraes, ilustrador bem conhecido e premiado, era o terceiro convidado (talvez o mais experiente no quesito “mesa”) e até tentou, junto com a Renata Nakano, nossa mediadora, articular a conversa que teríamos em instantes.

Cada um dos três havia imaginado um tema diferente para o debate, cujo nome escolhido pelo pessoal da ECA era “Permitido para menores: livros infantis”, mas o fato é que acabei me dando conta de algumas coisas importantes durante a conversa em cima do palco. Engraçado como no dia a dia não nos damos conta de muito do que fazemos; só mesmo parando para pensar, seja ao sentar para escrever os posts aqui para o blog, seja em conversas oficiais como a do Fórum.

Como o Odilon começou falando, o papo foi mais pro lado das questões gráficas. E, ao longo da conversa, um ponto importante ficou claro: nós, adultos, desaprendemos a nos relacionar com as artes plásticas. Quando crianças, pintamos o tempo todo, lemos imagens com profundidade, prestando atenção em detalhes, coisa que, já adultos, só os profissionais da área fazem. Na casa da minha avó tinha um pôster do Matisse no quarto em que brincávamos. Ela mudou de casa há uns 18 anos e se desfez da reprodução. Alguns anos atrás fui a uma exposição do Matisse e do Picasso e, entre uma sala e outra, bati os olhos em um quadro que percebi ser totalmente familiar. Ao olhar para ele, percebi que na verdade conhecia de cabo a rabo cada pincelada — as partes em que os traços eram mais grossos, um bloco de tinta em excesso à esquerda, um borrão amarelo meio em forma de borboleta no canto e coisas do tipo.

Enfim, só queria dizer que nesse dia entendi como eu não me dava mais o tempo de parar para ficar viajando em um desenho. Já com as palavras é o contrário: desde criança, fui sendo treinada para desvendar o que diziam as letras, e assim acumular aprendizado e consequentemente conhecimento. Só que eu faço livros infantis, nos quais o papel da ilustração é fundamental (isso eu já sabia, não se preocupem), assim como a diagramação — a escolha da fonte, a divisão do texto por página, os espaços em branco, o formato, o papel, e por aí vai. Palpitar no texto (seja na forma ou no conteúdo) é muito mais confortável do que tentar editar as ilustrações e a parte gráfica dos livros. Talvez por isso os ilustradores acabem tendo um trabalho mais solitário — eles são os adultos que se ligaram pra sempre no mundo das artes plásticas, fizeram do desenho e das cores a sua profissão, mantiveram o canal aberto.

Vira e mexe eu brinco com o pessoal que divide a sala comigo dizendo que vou ter uma atitude infantil por conta da editoria em que trabalho. Acho que não vou atirar um grampeador em ninguém, mas saí do Fórum com a certeza de que farei melhor o meu trabalho se, assim como as crianças, conseguir tirar as travas da imaginação. Saí de lá querendo ser aquela menina que sabia passar oito horas olhando para um mesmo quadro.

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

5 Comentários

  1. Adriana de Godoy disse:

    Júlia,
    Saudades de ler sua coluna.
    Ela também volta em fevereiro?
    Um abraço.

  2. Ernani Ssó disse:

    Você, numa editora como a Companhia, mais preocupada ainda com a qualidade gráfica? Segurem-se, porque aí vem bala!

  3. Adriana de Godoy disse:

    Aprender a olhar como criança: descobri que é especialmente esse desejo que me faz frequentar bibliotecas públicas, apesar das pilhas de livros que me aguardam.
    É essa vontade de olhar profundamente, esquecendo-se de tudo, sem compromisso, para descobrir.
    Dizem que conhecemos as pessoas pelos textos que elas escrevem; me parece então que seu trabalho cai como uma luva para você, Júlia, pois a franqueza simples e agradável é coisa de uma pessoa antenada com as crianças, seres que dispensam ilusões infantis, como dizia Isaac Singer.

  4. pedro disse:

    esqueceu de dizer na pequena biografia: “sou linda”

  5. […] This post was mentioned on Twitter by Bruno Drummond, Felipe Aguiar and Fórum de Editoração, Companhia das Letras. Companhia das Letras said: Júlia Moritz Schwarcz fala sobre a importância de soltar a imaginação e enxergar as gravuras como as crianças http://bit.ly/g4OtyY […]

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