Surf music!

Por Tony Bellotto

Algumas crônicas atrás um leitor reclamou que eu só falava do 2666 e do meu No buraco. Pronto, virei o disco (ou o livro), descobri uma nova obsessão: Vício inerente. Ih, lá vem ele de novo. Calma, não vou falar de detetives nem de maconha. Apesar de meu cérebro continuar assim, pé na tábua a ponto de travar.

Falo de surf music. Uma das coisas interessantes a respeito da surf music é que ela tem pouquíssimo a ver com o esporte em si. É mais, tipo, uma projeção poética do surfe? Desculpe, não resisti, estou tentando escrever uma frase à la Thomas Pynchon e isso é um erro. Vamos lá: não é que a surf music não tenha a ver com surfe. O surfe, talvez, é que não tenha muito a ver com esporte. Aliás, não existe nenhum esporte que tenha um gênero de música específico associado a seu nome. Não existe tênis music, por exemplo. Nem volleyball music (também não existe asa delta music ou skate music). Apesar das belas tentativas de Benjor, com “Fio Maravilha”, “Camisa 10 da Gávea”, “Umbabarauma” e outras, também não se pode dizer que exista uma futebol music.

O que acontece com o surfe é que, antes de se tornar esporte, era uma prática mais associada à contemplação e ao prazer puro e simples de “deslizar” sobre as águas. Há um momento em Vício inerente em que um personagem disserta sobre Jesus ser o primeiro surfista da História, e cogita que “caminhar sobre as águas” nada mais é que gíria bíblica para surfe.

Mas voltemos ao ponto, a surf music. Surgida no final dos anos 50 na Califórnia, como uma das manifestações culturais da galera que praticava o “caminhar sobre as águas”, a característica principal da surf music eram as guitarras levemente saturadas e com muito eco. Um dos artífices do gênero é Dick Dale, o lendário guitarrista californiano, que trouxe referências de música cigana, mexicana e ibérica ao vocabulário tradicional do rock’n’roll americano, fruto da união impura da country music e do blues. Daí o “sotaque” musical da surf music ser diferente dos outros tipos e subgêneros do rock. Há uma riqueza harmônica e uma experimentação com sonoridades incomuns no rock tradicional. Um dos primeiros hits do gênero — e talvez a canção mais emblemática da surf music —, é “Misirlou”, famosa hoje em dia por ter sido usada por Tarantino na abertura de Pulp Fiction (essa mesma que você está pensando, escutando agora em seu cérebro: tum, tá tá, tum…). “Misirlou” (“garota egípcia” em grego) é uma canção tradicional grega dos anos 20 do século passado, adaptada por Dick Dale às guitarras saturadas e com muito reverb, ao baixo e à percussão marcantes da surf music.

Entre as inúmeras “curtições” de Vício inerente, estão as referências às bandas de surf music e o conhecimento enciclopédico que Thomas Pynchon tem do gênero. Ele cita artistas e bandas como Surfaris, The Ventures, The Shadows e Del Shannon, e algumas bandas sensacionais que devem existir — infelizmente — apenas em sua cabeça. Ou alguém aí já ouviu bandas como Boards, Spotted Dicks ou a Meatball Flag, única tentativa conhecida de surf music negra com o clássico “Soul Gidget”?

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.