Um clássico da grande reportagem moderna

Por Matinas Suzuki Jr.

A Penguin-Companhia das Letras lança nesta semana o clássico Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed (1887-1920). A tradução é do escritor Bernardo Ajzenberg, ganhador do Jabuti de tradução em 2010. Trata-se de edição integral da obra, com os setenta documentos recolhidos pelo autor — atas de assembléias, panfletos, decretos e comunicados que saíram durante os dias da Revolução Russa, em novembro de 1917. A Universidade de Nova York incluiu Dez dias que abalaram o mundo entre as mais importantes peças jornalísticas do século XX. O historiador inglês A.A.J.P Taylor afirma que o livro de Reed é não só o melhor relato sobre a Revolução Bolchevique, como talvez seja o melhor relato já escrito sobre qualquer revolução. Em 1981, Warren Beatty dirigiu e interpretou o papel de John Reed no filme Reds.

Jack (como era chamado por amigos e parentes) Reed fixou a imagem do repórter romântico que corre riscos e defende causas socialmente justas. Antes de ir para Petrogrado, ele cobriu a Revolução Mexicana (cobertura que serviu de base para o filme Viva México!, de Serguei Eisenstein; o cineasta russo também dirigiu Outubro, baseado no Dez dias que abalaram o mundo) e a frente oriental da Primeira Guerra Mundial. John Reed era o repórter certo, na hora certa, no lugar certo. Tornou-se um dos fundadores da longa reportagem moderna.

O texto sobre John Reed que publicamos abaixo foi escrito após a sua morte em Moscou, dias antes de completar 33 anos. O autor, Lincoln Steffens (1866-1936), era um dos jornalistas americanos mais influentes das primeiras décadas do século passado, expoente da geração dos muckrakers, os criadores de um tipo de jornalismo investigativo, sobretudo de crimes. Steffens publicou o caloroso e triste elogio de Reed — uma das peças mais bonitas que um jornalista já escreveu sobre outro — na revista Freeman, publicação radical da época. Em 1924, o texto virou um elegante livrinho.

John Reed sob o Kremlin

Por Lincoln Steffens

O americano John Reed, poeta, comunista, morreu em Moscou, a capital do futuro Estado, da doença dos revolucionários: tifo — ele foi mordido por um piolho infectado, por um parasita amaldiçoado.

Jack poderia ter feito disso uma canção, uma canção alegre, dos dias em que cantava e ria. Naquela época, ele tinha o espírito alegre; eu tentei mantê-lo contente. O pai dele me pediu que fizesse isso. O pai de Jack era meu amigo, um homem brilhante e sagaz. Era a principal alma do principal clube de Portland, no estado do Oregon: brincava com si mesmo (como gostaria que o seu filho tivesse brincado) até ser picado, como foi o garoto, pelas mesmas coisas letais, fatais.

Francis J. Heney chegou ao Oregon para processar a indústria madeireira por fraude. Buscou com William J. Burns provas sobre o processo pelo qual nossas florestas foram parar em mãos privadas. As provas chegavam até homens poderosos de Oregon, e eles controlavam, entre outras coisas, os braços da lei: seus delegados escolhiam os júris. Heney pediu que Charles J. Reed — o pai de Jack — virasse delegado e cuidasse para que os julgamentos fossem justos. Reed riu. Ele adivinhou o que isso significaria para ele, mas aceitou o trabalho e deu conta do recado. Houve condenações e rancores. Os membros do clube de Reed o odiavam; ele enfrentava esse ódio e dava o troco com sua astúcia. Tinha a língua afiada, assim como seu filho Jack. É uma história de berço, esta que estou contando.

Um dia, muitos anos após o escândalo da indústria madeireira, o ex-delegado Reed me convidou para conhecer seu clube. Ele me conduziu até a mesa central do principal salão de jantar, onde “o pessoal” almoçava. Era meio-dia e a maioria deles estava lá. “Aqui estão eles”, disse Reed para mim, em voz alta. “Esse é o pessoal que pegou a madeira — e que tentou me pegar também. Aquele ali, na ponta da mesa, onde está aquela cadeira vazia, era o meu lugar. Era onde eu me sentava. É o lugar que, para me divertir, impedi que eles ocupassem por anos com grande determinação; mas, com alegria, sempre com alegria. Desde o dia em que o abandonei dizendo que nunca voltaria, não me sentei mais neste lugar — e gostaria de ver qual deles ousaria pensar que poderia tomar meu lugar. Estou feliz em ver que minha cadeira ainda está desocupada”.

Esse era o pai de Jack Reed: alto, elegante, ousado e perspicaz; um homem inteligente e alegre, que depois se tornou amargo. Ele me falou sobre o filho, que estudava em Harvard, e me pediu para “tomar conta de Jack” quando ele terminasse a faculdade e fosse viver em Nova York. “Ele tem uma personalidade alegre”, o pai me disse, “uma coisa de dar gosto. Cuide para que ele continue assim. Ele é um poeta, eu acho; zele para que ele continue cantando. Deixe que ele veja tudo, mas nunca deixe que ele se torne o que eu me tornei”.

Eu não consegui. Eu tentei, e não apenas por causa de seu pai. Quando John Reed chegou, grande e ainda em crescimento, charmoso por fora e belo por dentro, quando aquele garoto veio de Cambridge para Nova York, achei que nunca tivesse visto nada tão próximo da pura felicidade. Não havia raio de sol, bolha de sabão, pequeno animal, peixe, ave, nem mesmo uma estrela, tão feliz quanto aquele garoto. Se ao menos tivéssemos conseguido mantê-lo daquele jeito, poderíamos ter finalmente um poeta que falasse apenas de felicidade. Mas eram as ideologias que me preocupavam. Eu tentei fazer com que ele mantivesse distância dessas convicções, que ele brincasse, aproveitasse a vida. E visse, amasse e falasse sobre tudo Que ele pudesse ser tudo, mas sempre tudo, nunca uma coisa apenas. E por que não? Um poeta é mais revolucionário que qualquer radical. Bons dias, ou melhor, noites, foram aquelas em que o garoto batia bem tarde à minha porta — e me acordava para contar o que ele havia visto e feito. Era a coisa mais maravilhosa do mundo. Sim. Toda noite ele tinha visto e feito a coisa mais maravilhosa do mundo.

Ele escreveu sobre algumas dessas coisas. Ele se tornou todas essas coisas. Ele se apaixonou por todas essas maravilhas: por seu trabalho, pelos seus amigos, por suas obrigações, por garotas, por greves, pelo movimento sindicalista, pelo socialismo, pelos anarquistas, pelo mendigos do Bowery, pelo teatro, por Deus, o Homem e a Existência. No começo, eu o afastei dessas paixões desmedidas, mas elas se tornaram algo tão rápido e tão frequente que, logo em seguida, imaginei que ele estivesse seguro. Julguei que poderia confiar na próxima maravilha para salvá-lo da atual. E, então, parti em uma longa viagem para o México. Jack também foi, mas ele foi, como poeta, para Villa, o bandoleiro, enquanto eu fui, como o delegado Reed teria ido, para o lado de Carranza.

Eu não sei ao certo o que foi que finalmente fisgou esse poeta, roubou sua alegria e transformou-o em poema. Ele amava uma garota, e apenas uma, mas Louise era poeta também, e boêmia, ou pelo menos era quando saiu daqui usando roupas masculinas no verão passado, seguindo Jack em direção à Rússia. Ele amava fielmente o Industrial Workers of the World e a esquerda vermelha do Partido Socialista, e, como seu pai, odiava o ódio e coisas tais. Acho que tudo isso veio do berço. Enfim, ele adotou uma bandeira e o espírito revolucionário tomou conta dele. Ele virou um guerreiro lutando por uma causa, um revolucionário em seu país e um comunista na Rússia. Ele não sorria mais.

Um amigo nosso, que viajou e trabalhou com Jack na Rússia durante o verão passado, disse que Jack “era como os outros comunistas de lá: severo, intolerante, implacável, pronto para a batalha”. Eu percebia que Jack havia magoado nosso amigo. Após ter dito isso, ele parou para refletir por um instante. “Mas”, continuou o amigo, “quem dera eu também pudesse ser um comunista”.

Veja bem, em Moscou, na Rússia Soviética, com os piolhos, a fome, a disciplina e a morte, onde a situação agora é infernal, é possível ver — até um não-comunista consegue enxergar — o que é uma causa pela qual vale a pena lutar e morrer. É perceptível que a vida não será sempre assim. O futuro está chegando, está no horizonte, está realmente perto. E ele é bom. É possível ver isso a olho nu, qualquer um vê; eu vi, por exemplo. Então, para um poeta, para uma pessoa como Jack, o comunista, morrer em Moscou deve ter sido a coisa mais maravilhosa do mundo: uma visão da vida e da ressurreição do Homem.

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Matinas Suzuki é diretor de comunicação da Companhia das Letras e editor da Penguin-Companhia. Organiza a coleção de Jornalismo Literário da editora, cujo próximo lançamento é Honra teu pai, de Gay Talese.

11 Comentários

  1. […] Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed (Tradução de Bernardo Ajzenberg) Dez dias que abalaram o mundo é não só um testemunho vivo, narrado no calor dos acontecimentos, da Petrogrado nos dias da Revolução Russa de 1917, como também a obra que inaugura a grande reportagem no jornalismo moderno. A Universidade de Nova York elegeu este livro como um dos dez melhores trabalhos jornalísticos do século XX. Reed conviveu e conversou com os grandes líderes Lênin e Trotski, e acompanhou assembleias e manifestações de rua que marcariam a história da humanidade. Leia o post do editor Matinas Suzuki Jr. sobre este livro. […]

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