Buzz Lightyear vs Leonard Cohen

Por Júlia Moritz Schwarcz

Fui de férias para Nova York. Na porta da Barnes & Noble, de frente ao Lincoln Center, uma loja de 5 andares, havia um bilhete carregado de sentimentalismo: “Sim, esta era só uma livraria. Mas agradecemos a todos que passaram um pouco de suas vidas em nossa companhia”, ou mais ou menos isso. (Vejam a carta na íntegra e o que o Luiz Schwarcz, também conhecido como meu pai, escreveu sobre o assunto no post Edição extraordinária).

As semanas foram passando e logo percebi que as livrarias viraram raridade por lá — tem algumas de livros de arte e de fotografia, fora uma Barnes & Noble na Union Square, a Rizzoli, entre outras, claro, mas sempre pouco em se considerando uma cidade daquelas, e com certeza muito menos do que pouco tempo atrás.

Enquanto isso, minha filhas chacoalhavam a Alice e pintavam o Buzz Lightyear no iPad do avô. Alguém acha que elas queriam ouvir a história? Nem pensar. Aquilo ali era pra outra coisa.

Nessas semanas de neve, fiquei pensando exatamente na falta de calor humano que esse modelo impõe. Por que a tecnologia tem de caminhar em direção à solidão? Cadê, por exemplo, o vendedor que me indica livros, ou pelo menos me mostra onde estão?

O universo da música passa por uma situação, de certa maneira, semelhante. Pois bem ao lado da minha casa, em São Paulo, tem uma loja de CDs antigona, estilo sobrevivente, que meu pai frequentava muito quando eu era pequena. Lembro dele lá, todo domingo, na saída do almoço na minha bisavó (que vivia na rua de cima), conversando com o dono: um fulano bem compromissado com os discos dele, que continua com a mesma cara, ainda mora em cima da loja, gosta do Leonard Cohen e acha que “essa moda vai passar e tudo vai voltar a ser como era”. Adoro esse cara e esse lugar.

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

20 Comentários

  1. Marina Leão disse:

    Julia, comentário tardio, mas é por uma boa causa.
    Ontem fui à Livraria Cultura num prosaico final de tarde… estava lotaaaada. Um montão de gente lendo pelos corredores.
    Não é pra achar graça? Talvez o nosso “atraso” na adoção de tecnologia seja providencial nesse sentido, vc não acha?

  2. Que alívio! Mas tenho completa fá na perseverância do livro. Telinhas coloridas são mesmo para jogos e outros passatempos. Nenhuma criança vai desenvolver a leitura através dessa tecnologia condicionada à ideia de passatempo. Outra coisa muito favorável ao livro: quem lê, por mais que esteja privado financeiramente de ter o livro, não faz downloads de livros. Não há ação mais desestimulante que ler um livro inteiro em uma tela.

  3. Júlia M. Schwarcz disse:

    minhas filhas adoram ler, charlles! mas leem, folheiam, escutam histórias de LIVROS. já os e-books são para elas como joguinhos. a interatividade que eles trazem chama muito mais para a ação, e por isso a narrativa fica de lado. acho que essse é um grande problema: não transformar os livros eletrônicos em espécies de videogames ou jogos eletrônicos.

  4. Júlia, não consigo evitar de comentar: se a filha do dono da maior editora do Brasil tem reclamações para fazer sobre sintomas de perda de interesse pela leitura, dos próprios filhos, é porque a coisa tá feia mesmo.

    Abraço.

  5. júlia m. schwarcz disse:

    muito obrigada todo mundo pelos comentários. maria, vc tem razão, esse modelo americano das lojas enormes começou a entrar em colapso há um bom tempo, mas os livros e discos digitais não deixam de dar mais uma mãozinha; aline, não vi o “durval discos”, vou ver!; jorge, também acho que o ideal seria o buzz fã do leonard cohen, o que não é lá tão difícil, já que o cara é TAO bom; aliás, hermógenes, o cohen também é o meu herói; talita, muito bonitinhas as fotos das crianças, obrigada por mostrar; e alexandre, a loja fica na praça vilaboim, em higienópolis, e o nome do dono é alan, só não conta que eu escrevi sobre ele que vou morrer de vergonha!

  6. Júlia, minha compulsão para comprar livros se acentuou desde que comecei a ler notícias sobre o crescimento do mercado de e-books. É difícil imaginar o mundo sem livrarias. Sempre achei que o ato de ler começa envolvendo outros sentidos – o tato, o olfato -, ponto de partida de nosso encontro com o livro e o universo que ele nos apresenta. As lojas de discos também desaparecem. Fiquei interessado em conhecer essa loja de CDs sobrevivente, de que você fala no post. Se o dono é fã de Leonard Cohen, melhor ainda. Poderia me enviar o endereço?

  7. Adriana de Godoy disse:

    Júlia, obrigada, adorei seu post.
    Sinto que isso é um mito que passará, igual àquele que enterrou as salas de cinemas duas vezes – com a invenção da TV e do VHS – e àquele que preconizou a internet como o fim dos nossos problemas de comunicação, num espaço livre. Blablabla.
    O mais risível é ouvir alguns autores defendendo que no futuro os gênios poderão publicar suas brilhantes obras sem intermediários. É patético. Já tem pelo menos 10 anos que compro livros tendo como critério principal a editora, e sinto que isso se intensificará cada vez mais, num mundo autoral onde todos são gênios, todos são os novos Machados e todos escreveram uma obra-prima imperdível…puf. Sem o editor, estaremos lascados, assim como sem a boa e velha literatura.
    Um abraço, gostei muito de seu texto espontâneo, da foto, de tudo.

  8. Leonard Cohen, grande poeta, grande letrista e até bom cantor. Dos tempos do “avô das suas filhas”, nós os bichos de 1974, janotinhas de 1986 e hoje bebedores de uísques baratos.

    Me lembra um poema, do próprio, algo como

    “A corte silenciou, mas quem irá confessar? É verdade, nos traiu?, sim, é a resposta. Leia-me então a lista de meus crimes, pedirei misericórdia à corte, que a adora negar. E as senhores choram, mas o juiz não tem escolha. O cantor deve morrer, pela mentira em seus versos…”

    “The singer must die, for the lie in his lines…”

    Leonard, um dos meus poucos heróis.

    H.

  9. Sérgio disse:

    Durval Discos mandou lembranças.

  10. Marco Severo disse:

    Júlia –

    Adoro essa tua sensibilidade que sempre mistura nostalgia, trabalho e tua família, tudo convergindo para o mundo editorial.

    Não quero, por enquanto, acrescentar nada ao que já foi dito, só dizer que gosto muito de te ler por aqui. Também adoro pessoas como o dono dessa loja da tua infância. São os que sustentam o desejo dos esperançosos.

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