Edição extraordinária

Por Luiz Schwarcz

Eu havia me prometido que nas férias não escreveria nada para o blog, não leria e-mails, nem trataria de assuntos profissionais. As últimas promessas eu estou cumprindo. A primeira passarei a romper neste exato momento.

O que sucedeu foi o seguinte. Certa tarde, resolvi ir a uma das minhas livrarias favoritas aqui em Nova York. Não era uma das independentes, que são as mais charmosas, e das quais sobraram poucas, como a da Madison Avenue com a rua 82. Neste dia, no entanto, eu havia resolvido ir à Barnes & Noble da minha predileção. Em frente ao Lincoln Center, local que frequento muito por conta da ópera, ou do Avery Fisher Hall, onde toca a New York Phillarmonic. Essa loja era quase a sucessora da falecida Tower Records, onde antes eu passava todas as noites após os inúmeros concertos a que assisti.

Pois aquela Barnes & Noble, com alguns dos melhores balconistas de livraria que conheço — o pessoal do balcão não resistia e sempre recomendava alguma coisa, lá também havia um vendedor da seção de Cds que vibrava quando alguém queria saber algo sobre uma gravação antiga de Duke Ellington, ou um concerto de Mahler regido por Bernstein — fechou.

Antes lamentávamos o fechamento de cada uma das maravilhosas livrarias independentes, e os vilões eram as cadeias, da qual a Barnes & Noble é a maior representante. Agora são as cadeias que estão mal, o mercado de livros já projeta o futuro contando com a concordata da Borders, e agora, para minha surpresa, a melhor, ou uma das melhores lojas da Barnes & Noble, acaba de fechar.

É claro que o vilão da vez é o livro eletrônico. Essa é uma longa discussão, na qual faço me valer do fato de estar de férias para não entrar, pelo menos neste momento. Só digo que não sou contra o livro eletrônico em si, que certamente trará vantagens, junto com notícias tristes, como esta, que conto aqui, acompanhada das minhas maravilhosas fotos (sic) — bem, vocês já viram em outro post que o meu forte não é o manejo das lentes. Se as minhas fotos não são incríveis, a carta dos funcionários da finada loja é. Achei que deveria mostrar aqui no blog, para compartilhar minha triste supresa.

Para compensar, fui no dia seguinte à Barnes & Noble do Union Square. Era um domingo. Estava lotada. Lá presenciei uma paquera, típica de livraria. É claro, alguém poderá dizer que a mesma conversa poderia se dar por chat. Pode ser, mas a graça de vê-la ao vivo me trouxe a nostalgia dos meus jovens anos. Só mesmo em uma livraria para ouvir uma menina dizer ao rapaz:

— Yes, please, take my number, I am a great texter. (Algo como “Sim, por favor, anote meu número, adoro mensagens de texto.”)

Esta nostalgia eu nunca poderia ter sentido se não estivesse numa livraria, perto das estantes, tão propícias para encontros desse tipo, se os dois não estivessem se olhando, na livraria, e eu olhando para eles, discretamente, enquanto procurava algum livro que esperava por mim…

Abraços a todos, e até a volta,

Luiz

P.S.: E é bom dizer: as livrarias no Brasil vão muito bem, OBRIGADO!

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

28 Comentários

  1. […] Leia também: “Edição extraordinária”, de Luiz Schwarcz. […]

  2. Walter Craveiro disse:

    Só para avisar que vosso blog furou o The Daily do Murdoch.
    Chegou aqui o jornal novinho para iPad com noticia velha.rsrs
    Leitor do blog da Cia eu já sabia o triste fim da Barnes & Noble da 82 St.
    abs a todos

  3. […] ler até num iPod! Pode uma coisa dessas?) e tudo. Mas comecei a me deprimir mesmo quando li um post de Luiz Schwarcz, colaborador do Blog da […]

  4. Luiz, se Patrícia está certa… que tristeza…
    Vamos fazer o possível para que aqui não se repita, que sobrevivam as livrarias- amo livrarias- é o único lugar em que vou aqui onde moro-Natal.
    Torço para que a gente consiga fazer filhos, netos,lerem. Eu só dou de presente livros.
    Um abraço para todos, Elianne

  5. patricia disse:

    OI Luiz,
    de acordo com fofocas de NYC, onde moro, a livraria dara lugar a uma loja Century 21. Acredita? Aquela Chinatown com paredes onde vc encontra um bilhao de pessoas se matando pra comprar tudo a preco de banana, num dos locais mais charmosos e elitizados de Manhattan. Os verdadeiros bons tempos ficarao na memoria mesmo.

  6. […] e impostos 24 janeiro 2011, 11:46 am Colunistas Luiz […]

  7. Jorge Souza disse:

    Infelizmente já vi muita livraria ser fechada aqui no Rio, como a maravilhosa Letras e Expressões e a Veredicto, a melhor de Niterói. E é sempre um vazio grande. Quando comento com amigos, poucos me entendem. Também presenciei o fechamento de vários sebos, verdadeiros pontos de encontro para bate papo. Um dos melhores ficava na Ramalho Ortigão, próximo a carioca. Outro excelente era o do Senhor Osmar,no Largo da Carioca. Ele me conseguia verdadeiras relíquias, como o “Livro Velho do Tombo do Mosteiro da Bahia”. Foi o senhor Osmar quem me apresentou Jorge Luis Borges, Thomas Mann e Érico Veríssimo. Gostava do cheiro dos livros impregnando a velha loja e se misturando com o cafezinho que era oferecido. Não perdi somente um lugar, perdi amigos.Sebos e livrarias, pelo menos alguns, deveriam ser tombados.

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